A ÁGUA É MAIS QUE ÁGUA: Deus habita numa luz inacessível. Ninguém jamais o viu.

 

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A ÁGUA É MAIS QUE ÁGUA

Reinaldo Gonçalves*

Deus habita numa luz inacessível. Ninguém jamais o viu. Todas as nossas palavras são meros acenos sem conseguir dizer e significar as realidades divinas. Moisés viu Deus apenas pelas costas e pensava que ia morrer. Isaías foi purificado com brasa ardente para poder pronunciar o nome santo de Deus. Por isso, o homem de fé que desenvolveu o senso de Deus é profundamente respeitoso; jamais confunde a idéia de Deus com Deus; tem consciência de que Deus é radicalmente misterioso e inefável.

Estas considerações são importantes para entendermos o diálogo de Jesus com a samaritana sobre a água e com os apóstolos sobre a comida. Aí aparecem duas maneiras distintas de ver as realidades terrestres. Para a samaritana e para os apóstolos, a água é água e a comida, comida, realidades palpáveis e duras. Para Jesus, a comida e a água estão no lugar de outra realidade muito mais verdadeira e por isso capaz de matar de fato a fome e a sede. Jesus tem o olhar da fé, os outros o olhar da carne.

A partir de Deus, a água e a comida de que falam os Evangelhos, são mais que comida e água; elas são sinais de outra água e outra comida. Água é símbolo do próprio Deus enquanto fonte de vida; no Antigo Testamento a água já simbolizava a libertação que Deus traz (Is 12,1-4), é símbolo da sabedoria e do Projeto de Deus (Jr 17,6-8), da Palavra de Deus (Am 4,4-8; 8,11) e da presença salvadora de Javé (Jr 2,13; Zc 14,8). Da mesma forma, comida simboliza a vontade do Pai e seu cumprimento (Jô 17,4; Dt 8,3). No Evangelho, Jesus se mostra um pedagogo genial ao levar as pessoas da dimensão da carne (empírica) para a dimensão do Espírito (fé). Para aquele que vive a fé, as coisas se transfiguram, se tornam acenos de Deus; tudo é ponte para a eternidade.

Toda água que bebemos e toda comida que comemos, além de saciar nossas necessidades corporais, nos recordam e atualizam aquele que sacia nossas necessidades espirituais: Deus como água viva e Jesus como comida verdadeira que nos salva da morte definitiva. O eterno deixa de ficar abstrato; Ele ganha configuração histórica e se materializa na fragilidade de nossos símbolos naturais (água e comida).

Portanto, para o cristão, a luz verdadeira não é o sol mas Cristo. O caminho que leva a casa paterna é Jesus e a porta que se abre para a eternidade é o Filho encarnado, nascido de Maria. A luz, o caminho e a porta são o que são, mas também são algo mais: são presença de um mistério que habita nossa vida e que nos salva. Assim, o diálogo de Jesus com a samaritana visa nos conduzir a esta leitura, tornando Jesus Ressuscitado mais que um profeta, o verdadeiro salvador do mundo.

Feliz Páscoa a todos

*Membro do Movimento Familiar Cristão do Amapá

 

 
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