A lei de Moisés se resume, praticamente, na moral
dos mandamentos “Tu deves – tu não deves!”. Essa
ética legal – que é antes moral que ética –
é necessária para haver uma relativa paz e harmonia na vida
social da humanidade.
Mas, não caiamos no erro funesto de supor que esse necessário
da lei seja também suficiente para o amor. Enquanto a ética
legal não ultrapassar a sua própria legalidade moral, não
está resolvido o problema central do homem e da humanidade. Enquanto
o corpo da ética legal não for vitalizado pela alma da mística
espiritual, não há garantia sequer para a própria ética
legal, que não passará de uma moral social, incerta e precária,
e o que ela produz não é paz, senão armistício
temporário, que é uma trégua entre duas guerras.
Por quê?
Por uma razão profundamente psicológica: toda a moral –
isto é, uma ética nascida de um simples “tu deves”
– é, por si mesma, difícil, sacrificial, porque é
um altruísmo artificial em permanente conflito com o egoísmo
natural, que é a quintessência de todo ser vivo. E o que é
difícil e sacrificial não tem garantia de continuação
e perpetuidade. Todo ser vivo é, biologicamente, egocêntrico.
Esse egoísmo biológico é a lei fundamental da conservação
do indivíduo, e da espécie através do indivíduo.
O indivíduo existe e sobrevive graças ao seu egoísmo,
ou melhor, amor-próprio. O amor-próprio do indivíduo
vivo é sua lei fundamental, que não pode ser abolida sem destruir
o próprio indivíduo. O próprio Deus, diz a teologia,
ama a si mesmo com infinito amor.
O amor-próprio, de per si, não é egoísmo. Egoísmo
é um amor-próprio exclusivista. Quem exclui do seu amor-próprio
o amor-alheio, o amor aos outros seres, é egoísta; mas quem
inclui em seu amor-próprio os outros seres, esse não é
egoísta; porquanto, segundo a natureza e segundo o próprio Evangelho,
a bitola e o ponto de referência para o amor-alheio é o amor-próprio;
o homem deve amar os outros assim como se ama a si próprio. Logo, o
amor a si mesmo é o ponto de referência para o amor para com
os outros.
O verdadeiro altruísmo é, pois, um amor-próprio inclusivista,
ao passo que o egoísmo é um amor-próprio exclusivista.
Ora, repetimos, todo ser vivo tem amor-próprio, a fim de poder existir.
No mundo infra-humano, não há perigo nesse amor-próprio
biológico, porque está circunscrito pelo círculo férreo
do instinto, que mantém o amor-próprio dentro de certos limites,
dos quais o indivíduo não pode exorbitar.
Só com o despontar do intelecto começa a possibilidade de um
amor-próprio exclusivista, isto é, do egoísmo propriamente
dito.
A fim de evitar essa exorbitância do amor-próprio em egoísmo,
necessita o homem de uma força maior que a inteligência personal
– necessita da experiência universal, que é o centro da
sua verdadeira individualidade, do seu Eu, da sua alma.
Quando o homem-Eu entra nessa zona da experiência universal, continua
ele a se amar a si mesmo, mas nunca à custa de algum outro ser; compreende
ele então que, para se amar genuína e intensamente a si mesmo,
pode amar todos os outros seres, seus irmãos humanos, ou seus irmãos
infra-humanos, porque a experiência universal o pôs em contato
com a Fonte Única de todos os seres, e, sendo que essa Fonte Única
e Infinita ama todos os canais finitos que dela dimanam, é perfeitamente
natural e espontâneo que o homem universalizado pela experiência
da paternidade única de Deus sinta a fraternidade universal de todos
os filhos de Deus, humanos e infra-humanos, vivendo em paz e harmonia com
todos os componentes da Família Cósmica, sob os auspícios
da Paternidade Única do Infinito.
E assim a experiência mística transborda espontaneamente em vivência
ética. Essa ética é mais que um arranjo moral, ela é
o corolário inevitável e espontâneo da experiência
mística do Infinito.
A partir dessa experiência mística, deixa o home de ser virtuoso
e se torna sábio; o imperativo categórico do dever compulsório
culminou no optativo afetivo de um querer espontâneo. Passou da lei
de Moisés para o Evangelho do Cristo. E neste querer espontâneo
nada há de difícil – tudo é fácil; o “caminho
estreito” e a “porta apertada” do curso primário
dos principiantes de boa vontade se transformaram no “jugo suave”
e no “peso leve” do curso universitário dos acadêmicos
da compreensão.
O profano não faz o que deve.
O virtuoso faz o que deve. Quem faz o que deve, mas não quer o que
faz, sofre a sua própria boa vontade e virtuosidade – mas quem
faz o que deve e quer o que deve, esse goza a sua própria sabedoria.
Quem cumpre a lei, mas não a ama, esse é um homem dolorosamente
bom – mas quem cumpre a lei e a ama, esse é um homem gozosamente
bom, por ser um sábio.
Que foi que aconteceu entre o dever compulsório de ontem e o querer
espontâneo de hoje? Que foi que fez de um homem virtuoso um homem sábio?
Que foi que transformou a escravidão sacrificial da lei na liberdade
jubilosa do amor?
Foi a compreensão, a compreensão de si mesmo – essa maior
coisa que pode acontecer ao homem – compreensão de si mesmo...
“Por Moisés foi dada a lei – pelo Cristo veio a verdade,
veio a graça”...
Se nunca tivesse havido no mundo homens que amassem a lei, que fizessem do
dever um querer, pela compreensão, não existiria sobre a face
da terra esse fogo sagrado da Religião. O que lhe garante perpetuidade
não é o doloroso dever, mas sim o jubiloso querer. Justo é
que o principiante ande pelo “caminho estreito” e passe pela “porta
apertada” do tu deves, soletrando o a b c na escola primária
de Moisés – mas algum dia tem de fazer a experiência do
“jugo suave” e do “peso leve”, na Universidade do
Cristo.
Se o comer e o beber não fossem algo prazeroso para o homem sadio,
já teriam os indivíduos humanos morrido de inanição,
desinteressando-se dessas funções básicas da vida.
Se as funções sexuais obedecessem apenas ao imperativo categórico
do dever, é certo que a humanidade já estava extinta, por falta
de suficiente interesse pelas funções sexuais, de que depende
a continuação da espécie humana. Mas, uma vez que esses
processos, individuais e sexuais, funcionam sob o signo do prazer, do querer
espontâneo, a humanidade continua, graças a um querer fácil,
e não um dever difícil.
Na razão direta que as coisas relacionadas com a espiritualidade humana
ultrapassam o âmbito do dever compulsório e entram na zona do
querer espontâneo, é que haverá garantia e perpetuidade
de Religião sobre a face da terra.
Mas, repetimos, essa transição do dever compulsório para
o querer espontâneo nasce duma misteriosa alquimia, que se chama compreensão,
ou seja, auto-conhecimento. Enquanto o homem se incompreende ou descompreende,
identificando-se com o seu ego físico-mental-emocional, não
entrou na zona luminosa da verdade sobre si mesmo; e onde não há
verdade não há liberdade. Somente a verdade é que é
libertadora.
A função da verdade não consiste apenas em libertar o
homem da inverdade ou do erro, mas também em libertá-lo da dificuldade
e do sacrificialismo da virtuosidade, isto é, duma boa vontade sem
compreensão.
A compreensão da verdade é uma visão mística,
que o homem-ego não pode produzir, mas que o homem-Eu pode receber.
E “quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece”.
Para que o homem possa ser espontaneamente bom deve ser profundamente sábio.
Para fazer o bem com dificuldade basta ser virtuoso – para fazer o bem
sem dificuldade é necessário ser sábio.
O auto-conhecimento é a chave para a auto-realização.
O triunfo do reino de Deus sobre a face da terra depende essencialmente dessa
experiência central do homem, que resolve todos os problemas periféricos
da humanidade.
HUBERTO ROHDEN, In: Roteiro Cósmico, RJ: Freitas Bastos, 1966, p.81-84.