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ÓRFÃOS DA ESPERANÇA
*Reinaldo Gonçalves
As prostitutas, os curandeiros, muitos órgãos do governo, estão
sendo bem cuidados. E deles, quem cuida ?
Dos palácios, das nossas praças, dos impostos, das ruas asfaltadas,
dos calçamentos, se encarregam os governos. E deles, quem se encarrega
?
Para as multas, para as infrações, para os faróis apagados,
para a ausência de triângulo, os órgãos de Trânsito
estão atentos. E para eles, quem ficará atento?
? Na penitenciária, pelo menos, há almoço. Pode ser até
ruim, mas há. E qual a mesa deles ?
Para onde alaga ou onde há muita seca, chega a emergência. E
eles, para que servirá chover ou não chover ?
Os velinhos de longe ou de perto, trôpegos, cansados, de olhos carregados
de maltratos, abandonados pela família, quase já sem vida, tem
INSS, Funrural ou outro tipo de ajuda. E eles ? Quais documentos comprovam
seu estado absoluto de miséria ?
A nossa Igreja optou preferencialmente pelos pobres, pelos injustiçados,
pelos marginalizados, pelos carentes de liberdade. A qual categoria eles pertencem
?
Os políticos lutam por suas prerrogativas. Imunizações.
E se dizem representantes do povo, dos trabalhadores, das donas de casa, do
homem rural. E quem irá representá-los ? Para mostrar o que
? Pronunciar o nome de quem ? No forno do lixo haverá também
cabos eleitorais ?
Para cada conjunto habitacional há um representante do Conselho da
Comunidade. Cada Vereador se sente honrado em se dizer portador das reivindicações
dos bairros. E por eles, quem vai falar ? Quem ousará chamar-se representante
da Cidade do Lixo ?
Para os meus filhos, para os seus filhos, há colégios gabaritados
contendo o mais alto padrão de ensinamentos. E os filhos do lixo, estudam
onde ? Se formam em que ? Especialistas de lixo ?
Pouco ou muito, revoltado ou triste, reclamando, estrebuchando, xingando,
sem saber para quem apelar, todas as semanas, lá estamos nós
na feira, no supermercado, na loja de eletrodomésticos, enfim onde
compramos as coisas para nossas casas. E eles, compram onde ? Reclamam de
quem ?
Todas as semanas, nas cerimônias litúrgicas, os cristãos
cantam este hino, declamado há dois mil anos por Maria e registrado
por Lucas: “Saciou de alimentos os famintos e despiu os ricos com as
mãos vazias”.
Danado é que nós é que cantamos, e nós mesmos
voltamos para casa em nosso carro; empaturramos nosso estômago de comida,
e nos esquecemos que o Evangelho ficou entre os catadores de lixo.
Sempre vemos os clubes de serviços e outras entidades pedindo pelos
pobres. É fácil parar um carro. Mobilizar a cidade. Vi gente
rica falando de necessitados. Mas foram lá ? Chegaram na hora da chegada
dos caminhões de lixo e ver que o luxo não consegue imaginar
o lixo ?
Todos nós temos onde dormir, onde sonhar, onde comer, onde repousar,
onde viver. E eles ? O seu sonho é a permanência de sua miséria,
vendo o arco íris em meio dia traçado pela fome; de estômago
triturado pelos restos que sobram de nossa mesa.
Nos países desenvolvidos, para que serve o lixo ? Ele é industrializado,
reutilizado. E no final, serve para inúmeras coisas, inclusive para
energia. E em meu estado ? Para que serve o lixo ? Para matar os mortos ?
Para levar aos cinturões da fome que cercam as cidades, o arroto social
do seu povo ?
Todos que chegam em qualquer cidade bonita, bem arborizada, o que pensam de
seus habitantes Que se trata de uma cidade limpa e sem problemas. Que não
há pobres. Que tudo é traçado pela beleza do asfalto
que se dedica aos carros e não aos pedestres, como se fosse um cartão
postal da ilha da fantasia. Que não mandam seus lixos para os miseráveis
catadores de miséria.
A gente se esquece que a miséria é que irá nos julgar
na última decisão. O que nos asseverou Jesus Cristo ? “Eu
tive fome, eu tive sede e eu tive frio”. Dá para imaginar como
vivem os lixeiros ?
Quando o caminhão chega nos bairros ricos, aí é que se
vê as latarias de produtos importados despejarem seu desafio;
? Uma multidão de homens cansados e esfomeados moveram a sua compaixão.
E Cristo multiplicou peixe e pão. Mas agora, um montão de esfomeados
e maltrapilhos desafiam as nossas cidades. Terrível é que a
gente quase se acostumou. Se acostumou com a fome, quando esta fome não
ousou entrar nos umbrais de nossa porta;
Todos os anos os jornais fazem retrospectiva do ano que finda. Quem de nós
foi ver nos 365 dias, como vivem nossos irmãos nos lixeiros ?
Já várias vezes foram encontradas crianças nos lixeiros
e logo foram adotas e ganharam moradia e boa comida. E eles quem os adota,
dando pelo menos o pão nosso de cada dia ?
Há precisamente dois mil anos foi encontrado em Belém de Judá,
numa estrebaria, um menino chamado Emanuel. E na nossa Cidade quantas crianças
são ali encontradas ? Culpa de quem ? De todos nós.
Como está sendo o Natal dos catadores de Lixo ? E o nosso ? Certamente
nossas casas ficam cheias de bugigangas eletrônicas compradas nas melhores
lojas brasileiras ou mesmo lojas de importados. Daqui a um ano, serão
bugigangas quebradas. Alegria tardia para os pequenos catadores de brinquedos
quebrados. Nada disso importa quando comungamos ? Comungamos o que ? O Corpo
do Senhor ?
Nos estatutos do homem está escrito: “Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais duvidar do homem”. Mas se este
homem diariamente estiver no forno do lixo, de quem e de que, ele não
duvidará ?
“Fica decretado também que o dinheiro não poderá
mais comprar o sol das manhãs vindouras”. Manhãs vindouras
? Lá, as manhãs são sempre tardes cinzentas, cheias de
medo e de incertezas. Manhãs tristemente vindouras. Mesmo que tenha
se dito que o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para
defender o direito e decantar a festa do Natal que todo ano chega ente nós.
Meus queridos IRMÃOS DO LIXO, sei que este meu escrito chegará às vossas mãos, muito tempo depois das grandes festas, mesmo as ceias natalinas. Em forma de embrulho, talvez. E, ávidos abrireis. E lá haverá o que ? Cascas de frutas ou restos de presuntos, recheados de formigas. Ou quem sabe, pedaços de vidros cortantes. Ou ainda, diversos outros tipos de imundices encapadas de sacos plásticos ou jornais poeirentos acrescidos de usados papéis higiênicos. E se num espanto fatal, deparardes com a fotografia de vossa aflição, saiba que fiquei do vosso lado, pedindo perdão porque estais catando o lixo que eu vos mandei, porque o meu cristianismo ficou apenas na superfície. Não tive ainda a coragem suficiente para encarar Jesus Cristo cara a cara. Eu sei que ele está aí. Tão aí juntinho de vocês, que Herodes, Caifás, Anás, os Sumos Sacerdotes da Lei, os fariseus, nunca chegam nem perto. Preferem muito levemente, falar sobre vós. Convosco, nunca.
ASSIM GRITAVA JÓ !......
(Jó, 17, 1-16)
O sopro da minha vida vai se consumindo, os meus dias se
apagam, só me resta o sepulcro.
E cercado por zombadores, meu olho vela por causa de seus ultrajes, e quem
ousaria bater em minhas mãos ?
Sê tu mesmo minha caução junto de ti, pois fechaste o
teu coração à inteligência, por isso não
os deixará triunfar ?
Há quem convide seus amigos à partilha, quando desfalecem os
olhos de seus filhos.
Ele me reduziu a ser fábula dos povos, e me cospem no rosto.
Meus olhos estão atingidos pela tristeza, todo o meu corpo não
é mais do que uma sombra.
As pessoas retas estão estupefatas, e o inocente se irrita contra o
ímpio, o justo. Entretanto, persistirá no seu caminho, o homem
de mãos puras e redobrada de coragem.
Mas vós todos, voltai, vinde pois, não acharei entre vós
nenhum sábio ?
Meus dias se esgotam, meus projetos estão aniquilados, os projetos
de meu coração estão reduzidos a nada.
Fazem da noite o dia, a luz da manhã não é para mim,
sendo trevas.
Deverei esperar ? O sheol é a minha morada, preparo o meu leito em
local tenebroso.
Disse ao sepulcro: “És meu pai” e aos mestres: “Vós
sois minha mãe e minha irmã”.
Onde está, pois, minha esperança ?
E minha felicidade, quem a entrevê ?
Descerão elas comigo ao sheol e nos afundaremos juntos na terra ?
*Membro do Movimento Familiar Cristão do Amapá
CENÁRIO:
Um Caminhaão descarregando lixo – na lixeira
– ladeado de várias “carapirás”, se possível
com urubus por perto.