Voltar

 

 

 

Falar ou calar: um desafio para a Igreja– D.Redovino


A sabedoria milenar da Bíblia nos adverte que há «momentos em que se deve falar e momentos em que se precisa calar» (Ecl 3, 7). Se essa norma é dirigida a todos, vale também para a Igreja. Quando o povo busca uma orientação clara e segura, o silêncio da hierarquia não é apenas um pecado de omissão, mas uma verdadeira praga, que corrói a sua própria identidade. Ai da Igreja quando seus pastores preferem ficar em cima do muro, calando-se para não se comprometerem e não magoarem os que consideram amigos!

De outra parte, há assuntos que fogem de sua competência, e circunstâncias em que é mais sábio e prudente não se intrometer. Nos séculos passados, quando algumas autoridades da Igreja se consideravam mestres em todos os campos do saber humano, disparando sentenças sobre tudo e sobre todos, nasceram crises e impasses pelos quais ainda hoje ela está pagando o preço.

Quando, então, ela deve se pronunciar? Quando está em jogo a dignidade do ser humano, juntamente com os valores que incentivam a vida, promovem a família e defendem a criação, como a solidariedade, a fraternidade, a justiça, a paz, a liberdade, etc. Por fazer parte da história, nada do que é humano lhe é indiferente.

Abrindo-se a Deus e ao Evangelho, a Igreja recebe a luz que lhe permite avaliar com mais precisão os acontecimentos humanos, para que sejam orientados ao desenvolvimento harmonioso da sociedade.

A natureza humana é fraca, sempre inclinada para o mal, sintetizado nos sete pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça -, vícios dos quais ninguém está isento, nem mesmo quem os nega com orgulho ou veemência! Por sua vez, o secularismo e a incredulidade são a grande tentação do momento, que mina e arrasa os ideais mais nobres da humanidade.

Por isso, a fé pode ser vista como a caixa de ressonância que amplia a voz da consciência e a central elétrica que aumenta nossas energias, para que consigamos, em qualquer ambiente e circunstância, fazer o bem e evitar o mal.

Como qualquer outra pessoa e instituição, também a Igreja está presente na arena onde se travam os destinos da humanidade. Se lhe cabe uma condecoração pelos dois mil anos de presença e de atuação na história humana, ela poderia receber o diploma de “perita em humanidade”, como pensava o Papa Paulo VI.

A partir desses princípios, parece inútil perguntar sobre quais assuntos ela tem autoridade para se pronunciar. Se é verdade que não pode exigir que todos acolham os dogmas que constituem a sua fé, cabe à Igreja e a toda pessoa de boa vontade a defesa e a promoção da vida e da dignidade humana, quaisquer que sejam os aspectos e as circunstâncias que as envolvam. É por isso que não podem existir católicos pelo direito de abortar. Quem assim pensa, coloca-se fora da Igreja: não é preciso que alguém o faça, excomungando-o.


Se a todos é concedida a faculdade de expressar suas opiniões, por mais absurdas que possam parecer, impedir à Igreja de o fazer é atentar contra algumas das principais conquistas da civilização: a democracia e a liberdade de opinião. Na teoria, trata-se de um direito reconhecido pela maioria das nações; na prática, porém, quem abraça as posições da Igreja é quase sempre marginalizado e perseguido.

A mesma coisa vale para a assim dita “homofobia”, definida pelo Dicionário Aurélio como “aversão a homossexuais ou ao homossexualismo”. Como mãe amorosa e misericordiosa que precisa ser, a Igreja se esforça para ser a encarnação viva de Jesus, que a todos acolhia e a ninguém rejeitava. Mas, ao mesmo tempo, não pode faltar à verdade que lhe vem da lei natural e que sempre coincide com a lei de Deus. Assim, quando defende o casamento, o faz para ser fiel a Deus, que «desde o princípio os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornam uma só carne» (Mc 10, 6-8).

Para quem não aceita a Bíblia como norma de vida, tem a seu lado a criação e a natureza, que lhe demonstram que a vida - em seu sentido mais amplo e profundo - nasce sempre do encontro de amor com o diferente. Só não vê quem não quer!

Infelizmente, quando nos afastamos da luz, ingressamos no mundo das trevas, onde os ideais se obscurecem e a verdade se relativiza. Assim, o que até ontem constituía a grandeza da pessoa humana, hoje passa a ser visto como tabu e preconceito...

Dom Redovino Rizzardo, cs

Bispo de Dourados (MS)