Não se negocia a educação – D. Geraldo M. Agnelo
Todos os dias clamamos: a saúde e a
educação são direitos de cada cidadão, é
dever do Estado e da sociedade fazê-las chegar a todos com irrenunciável
pontualidade e qualidade.
Depois de quinhentos anos de descoberta deste país, de quase duzentos
anos de sua independência não entendemos o que acontece, no mínimo
ainda não está claro para muitos o seu significado.
Freqüentemente nos deparamos com notícias de fatos verdadeiramente
alarmantes: faltam recursos e instrumentos mínimos para o atendimento
básico aos que precisam e procuram os cuidados para a saúde, faltam
medicamentos, faltam leitos nas casas de saúde, faltam médicos,
faltam transportes, falta até algodão!
Com a educação não tem sido diferente: ainda ocupamos,
no cenário mundial, um lugar vergonhoso nas estatísticas da alfabetização.
Quem não se sentiu humilhado diante do quadro divulgado pelo Jornal Nacional,
onde crianças sob lona em chão de terra ensaiavam ser estudantes?
Não existem escolas suficientes e de qualidade, desviam-se os recursos
da merenda escolar e dos instrumentos pedagógicos, lamenta-se o salário
e, conseqüentemente, a qualificação e a motivação
dos professores, constatam-se o alto índice de evasão e de reprovação
nas escolas, criticam-se a metodologia e os resultados do ensino-aprendizagem.
E isso, infelizmente, não incomoda mais a comunidade.
A Bahia de Vieira e de Anísio Teixeira é campeã de analfabetismo
e de pífia qualidade de ensino. Há mais de um mês nossos
adolescentes e jovens estão vitimas de uma greve de professores, amargando
a incerteza do futuro que a sua juventude aguarda e merece. Na mesa de negociação,
afirmada por um lado e não reconhecida pelo outro, certamente não
se levam em conta as conseqüências para a sociedade de milhares de
jovens sem o que fazer, vagando nos shoppings center, nas ruas, na família,
marcados pela incerteza e pelo descrédito!
Não se passou ainda um século desde que a Bahia se curvou aplaudindo
a utopia racional de Anísio Teixeira, que ofereceu reflexão e
projetos para elevar a educação à categoria de maior problema
brasileiro, requerendo que fosse oferecida a todos e ensejando que ultrapassasse
os limites da abstração e da ineficiência. Enquanto propunha
a reconstrução da educação no Brasil, Anísio
a justificava com a necessidade de se alcançar uma sociedade mais justa
e mais humana. Uma visão profética que acreditava na possibilidade
de todos os homens serem capazes de conduzir a própria vida em sociedade,
como iguais em direitos.
Todos clamamos por uma educação que possibilite aos jovens a iluminação
necessária para conduzir o sentido humano da própria existência.
E isto não é diferente do que nos apresentou o Mestre Jesus: “eu
vim para que todos tenham vida e vida em abundância”(Jo 10,10),
“vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”
(Mt 5,13ss).
Em Aparecida, na conclusão da V Conferência do CELAM, declaramos,
entre outras propostas, crer e esperar manter com renovado esforço a
nossa opção preferencial e evangélica pelos pobres e acompanhar
os jovens na sua formação e busca de identidade, vocação
e missão, renovando a nossa opção por eles.
A Igreja participa das alegrias e esperanças, das penas e satisfações
de seus filhos, quer caminhar a seu lado neste momento de tantos desafios para
lhes infundir sempre esperança e consolo.
É com tais sentimentos e compromisso que a Igreja em Salvador acompanha
o descompasso da educação nesta cidade e no Estado da Bahia. Não
é possível nem justo desconsiderar o futuro, não é
cidadania esquecer o destino da nossa juventude. Recordando o Padre Antônio
Vieira, é hora de reafirmar: “não vos peço mendigando,
mas vos exijo raciocinando”.
Conclamamos, pois, em nome do Direito, em nome da História, em nome da
esperança que a todos nos alimenta, em nome da razão, conclamamos
educadores e governo, administradores públicos e família, sociedade
organizada e cidadãos, encontremos caminhos e projetos para cuidar da
nossa juventude.
Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador