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Onde fica o céu?
Ainda vigora entre nós um discurso religioso amortecedor
das reais implicações da vida. Nos meios católicos e
protestantes, estatisticamente os grandes representantes do cristianismo no
Ocidente, é possível ainda ouvir-se expressões como “céu,
inferno e purgatório” como lugares, dimensões físicas,
de caráter póstumo, isto é, espaços geográficos
situados além da morte. Vigora ainda a triste idéia de que a
morte, por si mesma, seria capaz de amenizar as culpas e máculas de
alguém, pelo simples fato de desejarmos que um ente querido, já
falecido, esteja na eternidade, ao lado de Deus, como a dar a ele um prêmio
automático.
São visões de Deus bastante infantis, que endossam uma relação
de profundo distanciamento com a realidade. Muitos segmentos intitulados “cristãos”
promovem atualmente uma liturgia sensualista, onde as pessoas precisam de
um manto branco, ou de medalhas no peito, ou mesmo das propagadas bênçãos.
É impressionante como há bênçãos hoje nos
lembretes ao final das liturgias; há bênçãos para
tudo, para garganta mal curada, para empresários falidos, para filhos
que irão fazer o concorrido vestibular, ritos especiais onde se encontram
velas com poderes de expulsar os males que se fincam na casa dos devotos,
corredores abençoados por gritos e êxtases, as romarias e caravanas
para verem formigas que tecem a face de Maria em folhas caídas pelo
chão, peregrinações e sacrifícios a santuários
exigindo esforços corpóreos ultra-humanos, e tantas outras proclamações
de crença ritualista, que em nada aprofunda o amor e a justiça,
os pilares centrais da mensagem de Jesus de Nazaré para a vida concreta,
sem disfarces pretensamente imaculados ou estratégias psicológicas
de sedução pelas fraquezas ou necessidades materiais de quem
neste tipo de crença adentra. Fato este que facilita por demais a entrada
neste falso céu geográfico, que nos distancia da mensagem de
Jesus de Nazaré.
Isto é, em muitos discursos religiosos de hoje há práticas
de alienação patrocinadas por televisão e rádio,
que não fazem nada mais que fabricar ilusões e mentiras para
o povo, pois, nestes lugares, não interessa a verdade, mas uma manutenção
garantida de benesses e privilégios com o poder político constituído.
Assim, vemos também denominações religiosas das mais
variadas origens proclamando nada mais do que marketing religioso, muito bem
elaborado por sinal, apenas com o intuito de ter já aqui na terra o
desejado céu sem dívidas, problemas e contradições,
como prega há séculos os poderes religiosos que se dizem cristãos.
É um céu que o ego fabrica. É ganhar na loteria de Deus.
É ter sozinho a mega-sena acumulada por anos e anos de serviços
prestados à igreja do Senhor. A recompensa então é o
justo prêmio, e um lugar no céu, a vitória merecida.
Mas falar disso em público, e pior ainda dentro das igrejas, amedronta
um vasto segmento de prosélitos que julgam e condenam a quem o faça
de “herege”, ou de “falso profeta”. A reação
hoje é tão violenta quanto nos tempos de Jesus ou na Idade Média,
apenas a forma mudou e se aperfeiçoaram os métodos. Não
se acendem mais fogueiras, mas se impõe o silêncio àqueles
que porventura ousarem transpor os limites da crença institucional
e adentrar fundo no Evangelho do Cristo. Proíbe-se a publicação
de livros de teólogos considerados desobedientes e perniciosos. Cala-se
a voz dos pastores que andam ao lado dos pobres, e contra o poder dominante
dos chefes e autoridades que se sentam nas primeiras poltronas dentro das
catedrais. Infelizmente, percebemos que permanecer preso a um discurso marcado
por interesses humanos estreitos e opressores sempre foi uma marca histórica
das religiões cristãs no Ocidente, isso, como sabemos, desde
Constantino Magno, no início da falsificação da mensagem
do Cristo em doutrina religiosa, com o Edito de Milão, em 312 d.C.
Mas, como se sabe pelo Evangelho, o medo só nasce da ignorância,
e todo mal se abate àquele que desconhece que a mensagem do Reino de
Deus não possui amarras com a ideologia da culpa, da punição
ou de um falso céu póstumo. O Mestre já advertira: “Não
tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o
Reino!” (Cf. Lc 12, 32), e ainda: “Conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará” (Cf. Jo 8, 32).
Entretanto, para muitos líderes religiosos ditos “cristãos”,
seduzidos pela situação cômoda de gozar de um status social
privilegiado, não seria interessante proclamar a verdade às
claras. Isso desmoronaria um castelo de cartas armado há séculos
para enganar as massas, inviabilizando a elaboração de uma liturgia
dominical repleta de sensacionalismos, como a dizer: “esperem mais um
pouco, rebanho obediente, Jesus já está chegando”. Enquanto
isso, nós, como Pedro em suas negações, covardemente
esquecemos que este mesmo Jesus causou divisões em seu tempo (Cf. Lc
12, 51; Mt 10, 34), a começar pela própria estrutura religiosa
do templo de Jerusalém (Cf. Jo 9, 13-41; Mt 23, 13-32), responsável
pela conspiração de seu assassinato (Cf. Mt 26, 1-5). Mas, como
se observa hoje, é mais cômodo dizer que Jesus veio ao mundo
para padecer por nossos pecados, como ovelha obediente aos seus algozes, do
que trazer uma mensagem de libertação integral ao ser humano,
a partir do livre-arbítrio de cada um, e da responsabilidade em assumir
tal decisão, a que Jesus chama de “carregar a sua cruz”
(Cf. Lc 14, 27). É mais fácil proclamar o martírio do
cordeiro (como o fez Paulo de Tarso em sua carta aos Romanos, ver Rm 5, 8-10)
do que caminhar passo a passo com ele rumo ao Gólgota. Assim, entra
ano e sai ano e os discursos sobre a morte e paixão de Jesus se repetem
para manter o mito oportuno do bode expiatório. É importante
que alguém morra para amenizar nossas culpas e nos livrar do inferno.
É oportuno administrar a mentira, para receber um prêmio celestial
depois da morte, onde todos os que proclamaram e seguiram a mesma mentira
se encontrarão, segundo o seu desejo, para dizer: “viram como
foi necessário todo aquele suplício na terra? Afinal de contas,
onde estamos agora? No céu... E aqueles arruaceiros, os hereges, inimigos
da igreja? Todos no inferno, que é o lugar dos que desobedecem a Deus
e aos seus santos ministros!”...
Enquanto isso, na periferia do mundo o diabo anda solto, e o povo empobrecido
permanece excluído das igrejas em seus cultos dominicais, com sua voz
calada pela fome, pelo tráfico de drogas, pela morte de crianças
por desnutrição, pela falta de escolas públicas e hospitais
que atendam às suas necessidades materiais míninas, por doenças
estrategicamente proclamadas como “incuráveis”, enfim,
por calçadas invadidas pelo esgoto mal-tratado de nossas orações
dominicais. Vejamos, então, que tipo de pregação nós
estamos a seguir em nossos encontros dominicais. Não percamos de vista
que “não existe discípulo superior ao mestre, nem servo
superior ao seu senhor” (Cf. Mt 10, 24). Por isso, toda garantia de
um céu exclusivista, fechado em seus dogmas e em suas colunas de bronze
e calçadas de mármore, serve justamente para distanciar a mesma
massa faminta da raiz de seus problemas, a saber, o egoísmo humano,
manifestado historicamente pelo sistema capitalista, dominante a partir das
grandes navegações européias, empreendidas com o aval
do catolicismo romano e depois pelo vínculo sócio-econômico
com o protestantismo, a partir do século XVI, vindo a dizimar povos,
culturas e tradições em nome de um falso Deus.
Ora, como se observa, o discurso sobre o céu geográfico constitui
apenas uma das inúmeras facetas de domínio ideológico
religioso contemporâneo, que é muito mais violento que a morte
na fogueira medieval, pois passa sutil e silenciosamente de geração
em geração, a cada novo discurso mentiroso que se fabrica dentro
das igrejas, reproduzindo, a partir das crianças, a imagem de uma recompensa
final todo o bem que fizermos aqui na terra. Com isso, a liberdade de proclamar
a verdade foi perdida, e hoje se encontra completamente calada, no momento
em que se optou pelo poder político, e por todos os privilégios
advindos dos anéis de ouro nos dedos e da cruz pendurada na parede
de nossas repartições públicas. É bem mais interessante
para o ego, que é alimento pelo poder, pelo ter e pelo prazer (Cf.
Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13), ser aclamado como autoridade e representante oficial
de Deus na terra, e como vínculo de aproximação com o
próprio Deus, por ter um cargo dentro de uma hierarquia eclesiástica.
Isso sempre encheu os olhos dos que se deixam seduzir pelas tentações
do deserto do ego, afastando-se do Mestre de Nazaré, que, como nos
diz o Evangelho, “não tinha onde reclinar a cabeça”
(Cf Mt 8, 20), e que enxugou os pés de seus discípulos, e proclamou:
“se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos
e o servo de todos” (Cf. Mc 9, 35). Essas verdades, para serem libertadoras,
precisam partir de alguém que não tenha compadrio com o dinheiro,
com o prestígio e com a imaculada bajulação das autoridades
farisaicas que continuam esperando seu lugar no céu, certamente, pela
última reforma no teto da catedral da cidade. Vejamos e escutemos o
Evangelho do Cristo, estando atentos à voz do Mestre: “Ninguém
pode servir a dois senhores” (Cf. Mt 6, 24a).
Por isso, assim como nos ensina o Evangelho, o céu é um estado
de espírito, de nossa consciência, e está dentro de cada
um de nós e no meio de nós (Cf. Lc 17, 20-21), pela nossa livre
adesão ao amor e à justiça, assim como o inferno de nossas
culpas e pecados. Nós mesmos criamos nosso inferno, e nós mesmos
saímos dele. Nós mesmos criamos condições de céu,
e nós mesmos as desfazemos. O estado de céu só terá
real valor se for compreendido a partir de nossas atitudes e de nossas ações,
quando dizemos sim ao amor, à justiça e à fidelidade
ao projeto de Jesus de Nazaré. Por isso, o Mestre proclama o amor a
Deus e ao próximo como a si mesmo, como os pilares de toda aproximação
com o Reino de Deus (Cf. Mc 12, 28-34). Não nos iludamos com o infantilismo
de um céu pronto em algum lugar pós-morte, pois ele é
construído pela consciência do indivíduo transformado
e pelo seu vínculo com a comunidade, que atende ao chamado de seguir
e proclamar como irmãos o Reino de Deus, com todas as implicações
que tal decisão oferecer, pois seremos conhecidos pelos frutos que
dermos (Cf. Mt 7, 20) e pelo amor com que nos amarmos (Cf. Jo 13, 35).
Em Jesus, o Reino de Deus inicia-se com a santificação do Nome
de Deus, e se manifesta pelo cumprimento de sua vontade, tanto na terra como
no céu (Cf. Mt 6, 9). Ele não é feito de ritos ou imagens
externas, para satisfazer a vontade de acolhimento daqueles que se sentem
abandonados ou mal-amados pelos outros, pelo simples fato de desejarem que
todos reconheçam que ele ou ela é cristão ou cristã,
pelo simples fato de estar ligado a alguma igreja institucional. Deus vê
a intenção em segredo (Cf. 6, 16-18), não o calo dos
joelhos em dias de procissão. Deus é conhecido no silêncio
de nossa conversão diária, não nos gritos evasivos de
nossos choros e alaridos psicológicos. O Reino de Deus é dom
gratuito, não exige sacrifícios, longas caminhadas ou feitos
mirabolantes, para chamar atenção de quem sobrevive de holofotes
(Cf. Lc 11, 39-48). O céu de Jesus, não aquele fabricado por
muitos discursos dominicais de hoje em dia, é o céu do serviço,
que não se importa em propagar em rede de televisão curas milagrosas,
mas de verdadeiramente promover uma mudança radical de atitude no interior
de cada pessoa. Por isso, a mensagem de Jesus de Nazaré se fundamenta
na morte do grão de trigo (Cf Jo 12, 24), isto é, de nosso velho
homem, ainda aprisionado e controlado pelo desejo de posses e reconhecimento
social. A purificação da alma somente ocorre com a transformação
da mente. E a isso chamamos de Reino de Deus entre os homens e mulheres de
boa vontade. Portanto, as ações fecundadas pelo amor serão
naturalmente as conseqüências dessa adesão, livre e consciente,
ao projeto de Jesus de Nazaré. A isso então chamamos de “céu”.
Jorge Leão
Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão
em São Luís – MA.
Em 02 de fevereiro de 2008