Os nós da cruz no tempo
que passa
Seríamos céticos ao desconsiderar o valor da passagem do tempo.
Com ele, nossas imagens mais remotas, os processos mais longos de uma fuga
de que a morte não nos basta. Os fragmentos do tempo caem aos nossos
pés, por sobre os nossos livros; nós nem ainda acordamos de
uma noite extravagante. Mesmo depois da infância, continuamos a nos
perguntar o porquê da escuridão e dos disfarces em torno da dor.
Mas, ainda nos resta o tempo...
Talvez os sonhos de amor estivessem mesmo repousando por trás do encanto
da riqueza, quando a nossa sedenta inverdade se aproximou para se deleitar
nos braços do abastardamento.
Embora continuemos remoendo de tanto estarmos corretamente "sãos
e salvos", ainda assim perdura a imagem de uma infância feliz,
onde os cristãos permaneciam escondidos nas catacumbas da perseguição,
mas, ainda assim, partilhavam o pão, e sonhavam com o que podiam fazer
juntos. Mas o tempo passou, e o que nos resta agora: as catedrais barrocas,
com seus contornos góticos indeléveis, ou alguns tronos de papelão
que insistem em povoar a nossa medíocre projeção mental.
Faltava ainda crucificarmos o "infame"; sermos algozes de um veredicto
sem julgamento, somente pré-julgamentos foram o bastante para assassinarmos
o corpo de Deus e dependurarmos em uma cruz, repleta de nós...
Restava-nos, porém, beber o cálice amargo do tempo. Felizes
com o prazer que é ser sem tempo. Lembrança mais uma vez do
paraíso, onde a nossa nudez era o único cordão umbilical
que nos ligava a Deus.
E o tempo, ao menos ele, tido como o mais cruel dos verdugos, foi capaz de
perdoar nossos pecados. Ao menos ele... tu, oh! tempo?...
E o que dizer de nós mesmos? Esquecidos no tempo cronológico
dos nós pregados na cruz do abandono, observamos atônitos o clamor
angustiante da mente que se lança no tempo. Passos que envelhecem ante
os buracos da cidade.
Enveredando pelas ruas estreitas da velha Jerusalém profética,
onde ficaram os infelizes pregos da cruz? Pregos cravados no corpo inseparável
da alma. Suor derramado no esgotamento inexorável do tempo. Tempo que
nos deixa marcas perenes no transcurso do calvário humano. Segredo
humano que rompe os degraus da indiferença, quebrando o silêncio
nas correntes da injustiça. Sentenças fortalecidas pelo aplauso
da multidão.
O segredo recente da sentença abre um buraco no chão. O buraco
do tempo, esvaziado pela dor do corpo pregado e abandonado no ritmo institucional
das autoridades do templo, está agora passeando pelas ruas da cidade,
enquanto continuamos, nós mesmos, ouvindo atentamente o gemido fecundo
daquele que irá nos redimir de nossos "nós"...
Alguém aí na multidão se arrisca a fechar este buraco?
Jorge Leão
Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do MFC-Maranhão