História da Bíblia Sagrada
Prólogo
A Bíblia é um
livro difícil. Difícil porque é antigo, foi escrito por
orientais, que têm uma mentalidade bem diferente da greco-romana, da qual
nós descendemos. Diversos foram os seus escritores, que viveram entre
os anos 1200 a.C. a 100 d.C. Isso, sem contar que foi escrita em línguas
hoje inexistentes ou totalmente modificadas, como o hebraico, o grego, o aramaico,
fato este que dificulta enormemente uma tradução, pois muitas
vezes não se encontram palavras adequadas.
Outra razão para se considerar a Bíblia um livro difícil
é que ela foi escrita por muitas pessoas, ás vezes até
desconhecidas e em situações concretas as mais diversas. Por isso,
para bem entendê-la é necessário colocar-se dentro das situações
vividas pelo escritor, o que é de todo impraticável. Quando muito,
consegue-se uma aproximação metodológica deste entendimento.
Além do mais, a Bíblia é um livro inspirado e é
muito importante saber entender esta inspiração, para haurir com
proveito a mensagem subjacente em suas palavras. Dizer que a Bíblia é
inspirada não quer dizer que o escritor sagrado (ou hagiógrafo)
foi um mero instrumento nas mãos de Deus, recebendo mensagens ao modo
psicográfico. É necessário entender o significado mais
próprio da 'inspiração' bíblica, assunto que será
abordado na continuação.
Entre os católicos, o interesse por conhecer a Bíblia praticamente
começou após o Concílio Vaticano II, ou seja, a partir
dos anos '60, enquanto os Protestantes há muito se interessam por estudá-la.
Não quero adentrar aqui na histórica polêmica religiosa
que cerca a leitura e a interpretação da Bíblia, ressuscitando
vetustas divergências. Apenas vale salientar que uma série de enganos
podem advir de uma interpretação bíblica literal, porque
uma interpretação ao "pé da letra" não
revela o sentido mais adequado de todas as palavras.
Para que não aconteça conosco incidir neste equívoco, devemos
aprender a nos colocar na situação histórica de cada escritor
em cada livro, conhecer a situação social concreta da sociedade
em que ele viveu, procurar entender o que aquilo significou no seu tempo e só
então tentar aplicar a sua mensagem ás nossas circunstâncias
atuais.
O
que é a Bíblia?
Definição do Concilio Vaticano II:
"A Bíblia é o conjunto de livros que, tendo sido escritos
sob a inspiração do Espirito Santo, têm Deus como autor,
e como tais foram entregues à Igreja".
TESTAMENTO (novo ou antigo): é a tradução da palavra hebraica
"berite" que significa a aliança de Deus com o povo por Moisés.
Na tradução dos 70 a palavra "berite" foi traduzida
por "diatheke", que em grego quer dizer aliança, contrato,
testamento.
OBS: A 'tradução dos 70' é uma das versões mais
antigas da Bíblia. Segundo a tradição, este trabalho teria
sido realizado por 70 sábios da antiguidade.
Quais
as partes que compõem a Bíblia?
A Bíblia se divide em duas partes principais: o Antigo Testamento e o
Novo Testamento. O Antigo refere-se ao período anterior a Jesus Cristo
e o Novo se refere ao período cristão. Cada uma destas partes
se compõe de diversos 'livros', escritos em épocas históricas
diferentes. A seguir, a relação dos livros com uma breve referência
ao conteúdo deles.
LIVROS
DO ANTIGO TESTAMENTO
1. Pentateuco (cinco primeiros livros: Gênesis, Êxodo, Levitico,
Números, Deuteronômio)
2. Josué (narra a entrada do povo de Deus na Palestina)
3. Juizes (narra a conquista da Palestina)
4. I e II de Samuel (relatos da época de Saul e Davi, continuação
da conquista)
5. I e II dos Reis (relatos sobre Salomão e seus sucessores)
6. I e II das Crônicas (continuação dos relatos sobre os
outros Reis)
7. I e II dos Macabeus (continuação do período dos Reis)
8. Livro de Rute (faz alusão ao universalismo. Noemi era pagã
e se inseriu no povo de Deus).
9. Livro de Tobias, Livro de Judite, Livro de Ester (pertencem ao gênero
de contos. São livros do tempo do exílio, quando se apresentavam
exemplos de abnegação ao povo oprimido, convidando-os a suportar
o sofrimento).
10. Livro de Isaías (cap.l a 39 são do próprio escritor;
cap. 40 a 55 são de discípulos; cap.56 a 66 são de outros
escritores posteriores)
11. Livro de Jeremias (ditado por este a Baruc, seu secretário)
12. Livro de Ezequiel (um dos profetas maiores)
13. Livro de Daniel (tem um conteúdo apocalíptico )
14. Livro de Jó (do gênero conto, procura demonstrar que não
só os bons são felizes. Tem por objetivo combater uma idéia
comum de que só os ricos eram os abençoados por Deus).
15. Livros Sapienciais (Eclesiastes ou Qohelet; Eclesiástico ou Siráside;
Provérbios, Sabedoria e Cântico dos Cânticos). São
reflexões de cunho acentuadamente humanístico, aproveitamento
do saber oriental.
16. Livro dos Salmos (coleção de cantos litúrgicos).
17. Profetas Menores: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias,
Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias (chamados menores não
com relação à sua importância, mas ao tamanho de
seus escritos).
LIVROS
DO NOVO TESTAMENTO
1. Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas - têm muitas semelhanças
entre si ).
2. Evangelho de João (maior desenvolvimento teórico, influência
filosófica de época)
3. Atos dos Apóstolos (narram a missão dos apóstolos após
a Ressurreição de Cristo)
4. Epístolas de Paulo (historicamente, os primeiros escritos do NT)
5. Epístolas Católicas (Pedro, Tiago, Judas): dirigidas a todos
os fiéis, por isso, universais.
6. Apocalipse (escrito por João, na base de códigos, símbolos).
Inspiração
Um dos principais conceitos a ser examinado para uma melhor compreensão
da Bíblia é o de inspiração. O que significa dizer
que os livros bíblicos são inspirados, de onde vem esta inspiração,
até que ponto o que é escrito representa a mensagem de Deus ou
do hagiógrafo (escritor sagrado)? Ao longo da história, os estudiosos
procuraram esclarecer este conceito básico e, é claro, sempre
houve divergências entre eles. Apresentamos aqui algumas reflexões
sobre este importante conceito.
Na inspiração distinguimos dois aspectos: dogmático e especulativo.
O dogmático pode ser expresso como resposta à pergunta: por que
acreditamos que a Bíblia é um livro inspirado? Isto não
se pode provar pela própria Bíblia. Busca-se então provar
pelo fundamento histórico. Os evangelhos, por exemplo, são históricos.
Há uma tradição desde os tempos dos Apóstolos que
cita a Escritura como autoridade divina ( Mt 1, 22; Mt 22, 31; Mc 7,10; Jo 10,
35; At 1,16; Lc 22, 37; Heb 3, 7; 10,15 ). Em 2Tim 3,16, aparece pela primeira
vez a palavra 'theopneustos', ou seja, inspirada por Deus.
O especulativo pode ser expresso como resposta à pergunta: em que consiste
a inspiração? Este é mais complicado e será exposto
com mais detalhes.
a) Modo da inspiração
É muito discutido o modo como se dá a inspiração
do escritor sagrado. Bañez afirmou que era um ditado. Mas em II Mac 2,
19-23, o autor se refere a um resumo de 5 livros em um só, cujo resumo
lhe custou "suores e noites de vigília". Como é que
foi um ditado se houve o esforço dele para elaborar a síntese?
Do mesmo modo Lucas (Lc l,1) escreve: "depois de haver diligentemente investigado
tudo desde o principio, resolvi escrever... ", logo não foi simplesmente
um 'ditado' da parte de Deus.
Em reação à teoria do ditado veio outra que disse o contrário:
a inspiração é a aprovação que a Igreja dá
ao livro. O fato estar colocado no cânon é a garantia da própria
inspiração. Esta tese foi defendida por poucos e não teve
grande aceitação nos meios católicos.
O Cardeal Franzelin propôs uma nova fórmula: nem tudo é
de Deus nem tudo é do homem, mas as idéias são de Deus
e as palavras são do homem. Obteve um certo sucesso, mas ainda não
explicou de todo. Sto. Tomás de Aquino propusera a teoria da "causa
instrumental": são os dois ao mesmo tempo - Deus e o Homem. Ambos
estão presentes em toda a obra, Um é o autor principal e o outro
o autor secundário. A inspiração eleva, sublima as faculdades
do autor. Pode até ser admitida esta teoria, entretanto, convém
lembrar que tudo que está na Bíblia é inspirado, embora
nem tudo seja revelado.
b) Funcionamento psicológico da inspiração
Em II Mac, conforme mencionado acima, o autor se refere a um resumo do livro
que um certo Jazão escreveu. De 5 volumes ele reduziu a um só.
Como dizer que isto é palavra inspirada por Deus, como se explica aí
a inspiração divina?
Comecemos por analisar as operações do intelecto: apreensão,
juízo e raciocínio. Elas seguem um grau de aprofundamento e refinamento
do saber. Pode-se ter uma inspiração de Deus logo no primeiro
momento (na apreensão), como se pode ter depois, no juízo ou também
nos dois. Quando a inspiração é logo na apreensão,
se diz 'revelação'. Quando, como no caso do II Mac, a apreensão
é do autor, a inspiração se dá no segundo momento,
ou seja, no juízo, enquanto na apreciação que ele faz da
obra está sendo iluminado pelo Espírito Santo. Na confecção
destes livros, a questão da inspiração é que o autor
estava iluminado pelo Espirito Santo para dizer o fato corretamente, sem poder
errar no julgamento. Embora ele não esteja consciente disso, a ação
do Espírito Santo está sendo exercida no seu intelecto.
Mas, pode-se questionar: como se sabe se ele foi ou não inspirado quando
nem ele mesmo pode perceber isso? Aí passa a ser uma questão de
fé. Tenta-se explicar o fato, mas não se afirma que seja assim.
0 discernir se o livro é ou não inspirado, dado o que acontece
com o autor, é alçada da Igreja, que também é inspirada
pelo Espírito Santo. É uma questão fundamentalmente de
fé.
Por isso, para a definição do livros autênticos, reconhecidos
pela Igreja Católica, os Cânones foram aprovados em Concílios,
nos quais se discutiram certas dúvidas a respeito de alguns livros, se
eram ou não inspirados. Nas discussões, procurou-se ver na historia
da Igreja, desde os cristãos primitivos até aquela época,
quais os livros que durante os séculos sempre foram lidos nas Igrejas
e, baseada no consenso, ela constituiu o cânon. Sem dúvida, a tradição
antiga é mais fidedigna, pois está mais próxima dos tempos
apostólicos.
Mas, voltando ao conceito do juízo, ele pode ser especulativo ou prático.
Especulativo quando tem por fim o verdadeiro; prático guando tem por
fim o bem. No caso de Jonas, por exemplo, o juízo do autor não
foi especulativo, mas prático. Jonas teve o sonho em que Deus o mandava
pregar em Nínive. Ora, raciocinou ele, Javé é Deus de Israel,
e não deve ser falado aos pagãos. Então tomou o navio para
outro lugar, e aí entra a história da baleia... A finalidade do
autor era convencer a todos que Javé era o Deus universal, contra uma
certa corrente judia que negava fato, ou melhor, não gostava da idéia.
Para se entender cada página da Bíblia deve-se ter em mente a
finalidade, a intenção do autor ao escrever cada parte do livro.
Não se pode abrir o livro em qualquer parte e ler tudo com o mesmo espirito.
Na antiga concepção de inspiração (ditado) não
se considerava este problema. Tudo que lá estava se acreditava "ao
pé da letra". Não se podia duvidar. Mas esta é hoje
uma prática mais comum em algumas igrejas protestantes, geralmente praticada
por pessoas com conhecimentos teológicos limitados e reducionistas.
Uma conseqüência direta da inspiração é o dom
da inerrância. Se o livro é inspirado, logo o que contém
é verdade. Porém esta verdade não está ali imediatamente
evidente, ela precisa ser alcançada pela reflexão animada pela
fé, ou seja, a razão e a fé ajudando-se mutuamente.
Origem e Formação da Bíblia
Indícios e evidências históricas
O período histórico da formação da Bíblia
situa-se entre 1100 a. C. ou 1200 a. C. a 100 d. C. Provavelmente, a mais antiga
parte escrita da Bíblia é o Cântico de Débora, que
se encontra no livro dos Juízes (Jz, 5).
Quando os hebreus chegaram a Canaã, já havia na terra um certo
desenvolvimento literário, como por exemplo, o alfabeto fenício
(do qual se derivou o hebraico), que já existia no século XIV
a. C. Os judeus chegaram lá por volta do século XIII a.C. Outro
documento desta época é o calendário de Gezér, que
data mais ou menos do ano 1000 a.C. É uma indicação de
datas para uso dos agricultores. É o documento mais antigo encontrado
na Palestina. Outro documento também muito antigo é o sarcófago
do Rei Airam, que contém uma inscrição e foi encontrado
nos séculos XIV ou XV a. C., em Biblos. Há ainda umas tabuletas
encontradas em Ugarit (em 1929), onde estão escritos uns poemas semelhantes
aos salmos, datando dos séculos XIV ou XV a. C.
Além destes, há outros documentos provando que já havia
uma escrita na Palestina, antes dos hebreus chegarem lá. A inscrição
do túmulo de Siloé (700 a. C.), explicando como foi feito; os
"óstracon", de Samaria, onde há uma espécie de
carta diplomática, são documentos que provam a continuidade de
uma atividade literária. Em Juizes 8,14, o autor descreve um acontecimento
ocorrido mais ou menos em 1100 a.C. E em que língua foi escrito este
fato pela primeira vez, na época em que aconteceu? Provavelmente no alfabeto
fenício (pré-hebraico).
A tradição
oral e a tradição escrita
A parte mais antiga da Bíblia remonta justamente deste tempo (1100 a.C.),
quando a escrita ainda não estava bem definida, e é oral. Desde
este tempo já se fora criando uma tradição, que existia
oralmente e era transmitida aos novos pelos mais velhos nas reuniões
que havia nos santuários. Por este tempo, só eram relatados os
acontecimentos do deserto, do Sinai, da aliança de Deus com o povo. Mas
os jovens queriam saber o que havia acontecido antes disto. Então foram
sendo compostas as histórias dos Patriarcas. Mas, e antes deles, antes
de Abraão? Passaram à história da criação
do mundo. Por isso, se afirma que a parte mais antiga da Bíblia é
o Cântico de Débora, no livro dos Juizes. A partir daí,
fez-se um retrospecto didático-histórico.
Como dissemos, estas histórias iam sendo passadas oralmente de pai a
filho, nos santuários. Acontece que nem todos iam para os mesmos santuários,
o que motivou a existência de pequenas diferenças na catequese
do norte e na do sul. A tradição do sul foi chamada de JAVISTA
(J), pois Deus era tratado sempre por Javé; a do norte se chamou ELOISTA
(E), porque Deus era tratado como Eloi.
A tradição oral existiu até os tempos de Daví, quando
foi escrita a tradição javista; meio século depois, foi
escrita também a eloista. Por volta de 721 a.C., na época, da
divisão dos reinos, quando Samaria foi destruída pelos assírios,
muitos sacerdotes do norte fugiram para o sul e levaram consigo a sua tradição.
A partir de então, as duas foram compiladas num só escrito.
Falamos das duas tradições: uma do norte e outra do sul. Mas não
existiam apenas estas duas, que são as principais. Há ainda a
DEUTERONOMICA (D), encontrada casualmente em 622 a. C. por pedreiros, que trabalhavam
num templo. Corresponde ao livro Deuteronômio da Bíblia atual.
Após esta, surgiu a SACERDOTAL (P), nova compilação das
catequeses antigas de Israel, datada do século VI a.C. Ao fim, estas
quatro tradições foram combinadas entre si e compiladas em 5 volumes,
dando origem ao Pentateuco da Bíblia atual. Na tradição
Javista, Deus é antropomórfico. Na Sacerdotal, Deus é poderoso,
está acima do tempo, o que significa um progresso no conceito de Deus
que o povo tinha. A redação do Pentateuco se deu pelo ano 398
a.C. e compreendia a primeira parte da Bíblia judaica.
A partir de Josué, a tradição continuou oral, para ser
escrita somente por volta de 550 a.C. E foram escritas do modo como o povo contava.
Por isso não se pode dar a mesma importância histórica aos
fatos descritos nestes livros em relação a outros posteriores,
pois alguns fatos narrados foram baseados na tradição popular,
enquanto que outros foram baseados em documentos de arquivos (anais do Reino).
Este é um grande desafio para os estudiosos e também uma fonte
de divergências.
Os Intérpretes
- Profetas e Sábios
Durante muito tempo, os profetas foram os orientadores do povo de Deus. Os livros
proféticos resumem os seus ensinamentos, e na sua maioria foram escritos
só mais tarde, por seus seguidores. Somente por volta do ano 200 a.C.
é que foram redigidos os livros proféticos. Os livros Sapienciais
foram o resultado de um estilo literário que esteve em moda durante muito
tempo, na época posterior ao exílio. São umas reflexões
humanistico-religiosas. Passados os profetas, surgiram os sábios que
raciocinavam sobre as coisas da natureza, tirando delas ensinamentos para a
vida. Foram acrescentados aos livros sagrados nos últimos séculos
a.C., sendo os mais recentes livros do AT.
A nova tradição
da era cristã
O NT não foi escrito com a finalidade de ser acrescentado à Bíblia.
No tempo de Cristo e dos Apóstolos, o livro sagrado era apenas o AT.
O próprio Jesus Cristo se baseava nele em suas pregações.
E Ele mandou apenas pregar, e não escrever. Foi quando uma nova tradição
oral foi se formando. E após a morte de Cristo, os apóstolos saíram
pregando.
Mas veio a necessidade de congregar outras pessoas para o anúncio, em
vista do grande número de comunidades existentes. Então, começaram
a escrever. Mais tarde, com a aceitação também de cidadãos
estrangeiros nas comunidades, a mensagem precisou ser traduzida e adaptada.
Além disso, o próprio povo necessitava de uma escrita (doutrina
escrita) para se conservar una, após a morte dos Apóstolos. Esta
redação, no início, era apenas de alguns escritos esparsos,
que só depois de algum tempo foram juntos em livros. Exemplo disso está
em Mc 2, uma série de disputas de JC com os Judeus, onde se vê
claramente que foi recolhida de escritos separados. Também em João
se lê: "Muitas outras coisas Jesus fez que não foram escritas..."
(Jo 21,24) Isto significa que só foram escritas aquelas mensagens que
teriam utilidade, conforme as necessidades momentâneas.
O evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, data dos anos 60 ou 70 d.C.;
os de Lucas e Mateus, são de 70 ou 80, o que significa que somente após
uns 40 anos da morte de JC sua palavra começou a ser escrita. 0 Evangelho
de João só foi escrito em torno do ano 100 d.C. Antigamente, se
acreditava ser Mateus o autor do primeiro Evangelho. Mas a critica histórica
mostra que o de Marcos foi anterior. Aliás, a respeito deste evangelho
de Mateus, não se sabe ao certo quem é o seu autor. Foi atribuído
a Mateus, apenas por uma tradição e também por uma praxe
da época de se atribuir um escrito a alguém mais conhecido e famoso,
para que a obra tivesse mais autoridade.
Entendendo algumas
dificuldades concretas
Durante o tempo anterior á escrita dos Evangelhos, havia apenas a pregação
dos Apóstolos, recordando os fatos da vida de Cristo, todavia eram fatos
esparsos, sem nenhuma preocupação com seqüência ou
unidade. Por isso os Evangelhos, que foram esta pregação escrita,
se contradizem em algumas datas, o que mostra a pouca importância dada
à cronologia. Os fatos eram recordados e aplicados, conforme as necessidades.
Assim, até entre os Evangelhos sinóticos, que seguiram a mesma
fonte, há diversificações. Por exemplo, no Sermão
da Montanha, em Lucas fala "bem aventurados os pobres"; e em Mateus,
"bem aventurados os pobres de espírito". A diferença
consiste no seguinte: Lucas deu um sentido social, mais importante para as comunidades
gregas, para as quais escrevia. Mas o de Mateus destinava-se às comunidades
judias e queria combater uma doutrina dos judeus que tinham uma idéia
falsa de pobreza. Para eles, o próprio fato de a pessoa ser pobre, já
lhe garantia a salvação, enquanto outra pessoa, pelo simples fato
de ser rica, já estava condenada. Por causa disso ele escreveu "pobres
de espírito".
Outro ponto de discordância é o caso da cura de um cego. Mateus
diz "um cego, na saída de Jericó"; e Lucas "dois
cegos, na entrada de Jericó". 0 fato da 'entrada' e 'saída'
pode ser explicado pela existência de duas cidades chamadas Jericó.
0 fato de serem um ou mais cegos explica-se pelo seguinte: era comum naquele
tempo os cegos formarem grupos em torno de um cego-lider; e o nome deste geralmente
era o do grupo. No entanto, estes detalhes pouco importam ao evangelho. 0 seu
interesse é a apresentação da mensagem (evangélion
= boa nova).
A fonte comum
Os Evangelistas sinóticos se basearam no Evangelho de Marcos e noutra
fonte, convencionada por fonte "Q", simbolizando os inúmeros
escritos esparsos de que já tratamos. Espalharam cópias destes
por outras partes do mundo. Lucas, Mateus, cada um em lugares diferentes, se
inspiraram nos escritos disponíveis e inclusive no evangelho de Marcos,
que na época já havia sido escrito. O fato do primeiro Evangelho
ser atribuído anteriormente a Mateus se deve a uma afirmação
de Eusébio de que Mateus escrevera a "logia" do Senhor em aramaico.
Mas a crítica histórica provou que o Evangelho que conhecemos
não traz apenas a "logia" do Senhor e não foi escrito
em aramaico, e sim em grego. Portanto a noticia de Eusébio se refere
a outro escrito, e não a este evangelho. Nada impede, porém, que
tenha sido escrito por discípulos de Mateus e atribuído ao Mestre.
Aliás, a respeito de "Evangelho", o primeiro a usar esta palavra
para indicar as memórias dos Apóstolos foi S. Justino, em 130
d.C.
As Cartas
As cartas de Paulo foram enviadas para serem lidas em público. Em I Tes
5, 27 há uma alusão a isto. Havia também o intercâmbio
das cartas, como se lê em Col 4,16: "mostrem esta carta para Laodicéia
e tragam a de lá para vocês". Aos poucos as cartas foram colecionadas,
e no fim do I século já se tem notícia delas, quando em
II Ped 3,15 se lê: "...nosso irmão Paulo vos escreveu conforme
o dom que lhe foi dado... " As cartas de Paulo foram os primeiros escritos
do NT. Não se sabe quando os Evangelhos e elas foram acoplados, mas já
no fim do I século estavam reunidos num só livro.
As Epistolas Católicas (universais) são chamadas assim por se
destinarem à Igreja em geral, e não a tal ou qual comunidade,
como fizera Paulo. Elas também se originaram da necessidade pastoral,
e já no começo do II século estavam incorporadas aos outros
escritos do NT. Os Atos dos Apóstolos podem ser considerados a continuação
do terceiro Evangelho, pois também foi escrito por Lucas. E o Apocalipse
de S.João, livro profético, foi acrescentado por último.
Nos escritos do NT, freqüentemente se encontram citações
do AT. É que muitas vezes os Apóstolos queriam tirar dúvidas
sobre certas passagens, que tinham falsa interpretação. Nas assembléias,
eram lidos escritos do AT e do NT, para explicá-los. Exemplo disto temos
em I Tes 4,15; I Cor 7,10.25.40; At 15, 28; I Tim 5,18; Lc 10,7.
O Cânon
Sagrado
No século IV, a Igreja se reuniu em Concilio em Nicéia, e uma
das tarefas era organizar o "cânon", ou a lista de livros sagrados
considerados autênticos. Neste Concilio, os livros foram estudados e se
investigou quais os que sempre foram lidos nos cultos e sempre foram considerados
legítimos. E se estabeleceu a ordem ainda hoje conservada. O motivo pelo
qual alguns livros foram postos em dúvida era a grande quantidade de
livros apócrifos, que fazia com que se duvidasse dos verdadeiros. Havia
muitos livros que os judeus não aceitavam. Então os Ss. Padres
ponderaram os prós e contras e definiram a lista que foi aprovada.
Hermenêutica
1. Conceito
A palavra 'hermenêutica' vem do verbo 'hermenêuein' (interpretar).
E esta interpretação foi entendida diversamente através
dos tempos. Por isso, temos três tipos de exegese: l. rabínica;
2. protestante; 3. católica.
2. Exegese Rabínica
Os judeus interpretavam a escritura ao pé da letra, por causa da noção
de inspiração que tinham. Se uma palavra não tinha sentido
perceptível imediatamente, eles usavam artifícios intelectuais,
para lhes dar um sentido, porque todas as palavras da Bíblia tinham que
ter uma explicação. O exemplo do paralítico é antológico:
ele passara 38 anos doente. Por que 38? Ora, 40 é um número perfeito,
usado várias vezes na vida de Cristo (antes da ressurreição,
no jejum) ou também no AT (deserto, Sinai). Dois é outro número
perfeito, porque os mandamentos (vontade) de Deus se resumem em "2":
amar Deus e ao próximo. Portanto, tirando um número perfeito de
outro, isto é, tirando 2 de 40 deve dar um número imperfeito (38)
que é número de doença...
Alegoria pura: neste sentido se entende a condenação de certas
teorias que apareceram e eram contrárias à Bíblia (caso
de Galileu). Assim era a exegese antiga. No século XVIII, o racionalismo
fez o extremo oposto desta doutrina: negaram tudo que tinha alguma aspecto de
sobrenatural e mistério, e procuravam explicações naturais
para os fatos incompreensíveis, assim por exemplo, dizendo que Cristo
hipnotizava os ouvintes e os iludia dizendo que era milagre. JC não ressuscitou,
mas ele apenas havia desmaiado na cruz, e quando tornou a si saiu do sepulcro...
Talvez não o fizessem por maldade. Era por principio filosófico.
A Igreja primitiva herdou muito do rabinismo, no início, mas depois se
libertou. Começaram por ver na Bíblia vários sentidos:
literal, pleno e acomodatício. Literal: sentido inerente ás palavras,
expressão pura e simples da idéia do autor; Pleno: fundado no
literal, mas que tem um aprofundamento talvez nem previsto pelo autor. Deus
pode ter colocado em certas palavras um significado mais profundo que o autor
não percebeu, mas que depois se descobre. Deus, como autor, fez assim.
A palavra do profeta se refere a uma situação histórica;
a palavra de Deus se refere ao futuro. Acomodatício: é a acomodação
a um sentido à parte que combina com as palavras. É a Bíblia
aplicada à realidade apenas pela coincidência dos textos. Por exemplo,
em Mt se lê "do Egito chamei meu filho"... para que se cumprisse
a Escritura. Mas o sentido, ou seja, a aplicação original deste
trecho não se referia à volta da Sagrada Família, mas sim
à saída do Povo do Egito. Esta acomodação foi explorada
demasiadamente pelos pregadores, que até abusaram disto. Outro exemplo
de acomodação é a aplicação a Maria dos textos
do livro da Sabedoria. Estes são mais literatura que Escritura. Todavia,
crendo-se na inspiração, aceita-se que as palavras do autor podem
ter uma significação mais profunda que a original.
3. Exegese Protestante
Surgiu do protesto de alguns cristãos contra a autoridade da Igreja como
intérprete fiel da Bíblia. Lutero instituiu o princípio
da "scritura sola" (traduzindo, a escritura sozinha), sem tradição,
sem autoridade, sem outra prova que não a própria Bíblia.
A partir daquele instante, os Protestantes se dedicaram a um estudo mais acentuado
e profundo da Bíblia, antecipando-se mesmo aos católicos. Mas
o princípio posto por Lutero contribuiu para um desastre hermenêutico,
pois ele mesmo disse que cada um interpretasse a Bíblia como entendesse,
isto é, como o Espirito Santo o iluminasse.
Isto fez surgir várias correntes de interpretação, que
podem se resumir em duas: a conservadora e a racionalista. A conservadora parte
daquele principio da inspiração = ditado, em que se consideram
até os pontos massoréticos como inspirados. Não se deve
aplicar qualquer método cientifico para entender o que está escrito.
É só ler e, do modo que Deus quiser, se compreende. A racionalista
foi influenciada pelo iluminismo e começou a negar os milagres. Daí
passou à negação de certos fatos, como os referentes a
Abraão. Afirmam que as narrações descritas, como provam
o vocabulário, os costumes, são coisas de uma época posterior,
atribuído àquela por ignorância. Esta, teoria teve muito
sucesso e começaram a surgir várias 'vidas' de Jesus em que ele
era apresentado como um pregador popular, frustrado, fracassado...
Outros ainda interpretavam o Cristianismo dentro da lógica hegeliana:
São Paulo, entusiasmado, teria feito uma doutrina, que atribuiu a JC
(tese); depois São João, com seu Evangelho constituiu a antítese;
finalmente São Marcos fez a síntese. Hoje, porém, se sabe
que Marcos é o mais antigo. Estes intérpretes se contradizem entre
si, o que provocou uma certa desconfiança. Por fim, a própria
arqueologia, em auxílio do Cristianismo, veio provar com a descoberta
de vários documentos históricos que a Bíblia tinha razão:
aqueles costumes, aquele vocabulário eram realmente daquela época,
inclusive o uso dos nomes Abraão, Isaac também eram comuns no
tempo. Isto e outras coisas serviram para desmentir tais idéias iluministas.
4. Exegese Católica
Inicialmente, apegou-se muito aos métodos tradicionais: usava mais a
tradição e menos a Bíblia. Mesmo no século XIX,
a tendência era ainda conservar a apologética, a defesa da fé.
Foi o Padre Lagrange quem iniciou o movimento de restauração da
exegese católica. Começou a comentar o AT com base na critica
histórica. Mas foi alvo tantos protestos que não teve coragem
de continuar. Em seguida, comentou o NT, e ainda hoje é autoridade no
assunto. A Igreja Católica custou muito a perceber o seu atraso no estudo
bíblico, e até bem pouco tempo ainda afirmava ser Moisés
o autor do Pentateuco, quando os protestantes há mais de um século
já descobriram que não.
O primeiro passo da nova exegese da Igreja Católica foi dado por Pio
XII, em 1943, com a encíclica DIVINO AFFLANTE SPIRITU, na qual aprovou
a teoria dos vários gêneros literários da Bíblia.
Depois, em 1964, Paulo VI aprovou um estudo de uma comissão bíblica
a respeito da história das formas (formgeschichte). E hoje em dia, tanto
os exegetas católicos como os protestantes são a favor desta,
e qualquer livro sério sobre o assunto traz este aspecto. Protestantes
citam católicos e vice versa, sem nenhuma restrição.
História das Formas e Gêneros Literários
1. HISTÓRIA DAS FORMAS ("FORMGESCHICHTE")
É o padrão da exegese moderna.
Em geral todo método exegético moderno aborda os seguintes tópicos:
a) critica textual - se os manuscritos originais desapareceram ou nunca foram
encontrados, como se sabe se o texto atual corresponde ao original? Até
que ponto é fiel? Em 1008, foi encontrado um manuscrito básico
para a edição da melhor bíblia hebraica que se tem hoje.
Está no museu de Leningrado. Mas, questiona-se: por quanto tempo o livro
foi sendo recopiado, e foi adquirindo erros de escrita? Muitas vezes, vários
manuscritos (cópias) de um mesmo livro trazem palavras diferentes. E
por que tanta fé neste manuscrito?
O manuscrito mais antigo (até pouco tempo) do AT era composto de fragmentos
de um papiro do I ou II século a.C. Os beduínos acharam às
margens do Mar Morto vários manuscritos datando do II século a.C.
e há alguns, como o livro de Isaías, cujo texto é quase
completamente igual ao que temos. A Bíblia original (copiada) data do
século II d.C. Os rabinos tinham muito cuidado em transmitir a doutrina,
e procuravam unificar os textos. Os textos velhos eram colocados em lugares
onde ninguém podia mais usá-los, chamados gezidas. Numa destas
gezidas foi encontrado um documento do ano 800, aproximadamente, do qual aquele
de 1008 é cópia. A diferença entre ambos é pouquíssima.
Ora, se a nossa Bíblia é a tradução daquele manuscrito,
considerado autentico, aquela Bíblia é a melhor.
b) 'sitz in leben'- Há livros que antes de serem escritos, foram passados
oralmente por várias gerações. Cada manuscrito que serviu
para a composição de um texto tem uma história diferente.
Por isso eles dividem as perícopas e estudam as tradições
e fontes delas. E como o manuscrito chegou a esta fonte? Deste estudo se deduz
a 'sitz in leben' (situação na vida) deste manuscrito no gênero
literário. A 'sitz in leben' que este gênero literário tem
na comunidade; a 'sitz in leben' desta comunidade na história.
c) história da redação - Por que há certas palavras
a mais ou a menos nos Evangelhos? Isto varia com a 'sitz in leben' do manuscrito.
Quem determina isto é a critica literária. Tudo isto dentro do
estudo da história das formas.
2. PRINCIPAIS GENEROS LITERÁRIOS DA BÍBLIA
Dividem-se assim os diversos gêneros
literários encontrados na Bíblia:
a) Narrativo: histórico e didático
b) Legislativo
c) Sapiencial
d) Profético
e) Cânticos
a) narrativo-didático: mito, saga, legenda, conto, fábula, alegoria,
parábola
l. mito - conto que se passa com deuses, ou cujos personagens são os
deuses. Têm tonalidade solene e são originários de círculos
politeístas. A mitologia babilônica, por exemplo, muito influenciou
no povo de Israel, que sempre foi monoteista. Isto se vê nos salmos 103,
6-9; 17, 8-16; 88, ll e nos proféticos: Job 26, l2. Nos livros históricos,
a influência é mais velada. Mas a árvore da vida do Gênesis
já existe num poema de Gilgames (de origem Babilônica): um herói
perguntou a um seu antepassado que era deus, onde ficava a árvore da
vida. Ele a encontrou no fundo do mar, e levou um ramo para plantar. Tendo sede,
foi beber num poço e uma serpente levou o seu ramo. A história
do dilúvio tem uma similar na cultura babilônica. É o caso
de uma deusa que era amada ao mesmo tempo por um deus e por um homem. Então
para matar o homem, o deus mandou o dilúvio.
O importante a se notar nisso tudo é que, ao ser transcrita para o livro
sagrado, o autor purifica a lenda, tirando as características politeístas
e servindo-se da cultura popular para levar uma mensagem. A árvore da
vida, na bíblia, significa que o homem foi criado para não morrer.
Na sabedoria babilônica, explicam que o mundo nasceu de uma briga dos
deuses. O deus vencido foi partido ao meio. De uma metade fez o deus vencedor
o céu; de outra fez a terra. Depois pediu a um deus artista que fizesse
o homem com o sangue apodrecido do deus vencido. Por isso, o homem e o mundo
são maus do principio. O autor sagrado aproveita-se destes elementos,
mas purificando-os e adaptando-os. A tradicional briga dos anjos com Lucifer
existe num mito fenício sob a forma de uma briga de deuses. A linguagem
mítica da bíblia, o antropomorfismo de Deus... tudo isto tem origem
desta inspiração na literatura exterior a Israel.
2. saga - contos que se ligam a lugares, pessoas, costumes, modos de vida dos
quais se quer explicar a origem, o valor, o caráter sagrado de qualquer
fenômeno que chama a atenção. A saga se chama etiológica
quando procura a causa de um fenômeno. Por exemplo, para explicar a existencia
de uma vegetação pobre e espinhosa na região sul ocidental
do Mar Morto, surgiu a lenda de Sodoma e Gomorra, a chuva de enxofre... A origem
de várias estátuas de pedra, formadas pela erosão é
explicada pela história da mulher de Ló, que foi transformada
em estátua. A narrativa de Caim e Abel é outra, para explicar
a origem de uma tribo cujos integrantes tinham um sinal na testa. Explicavam
que Deus colocara um sinal em Caim para que ninguém o matasse, e daí
este sinal ficou para a descendência. O próprio nome de Caim é
inventado, porque a tribo tinha o nome de cainitas e eles deduziram que seu
fundador devia chamar-se Caim.
A saga se chama etimológica quando é para explicar um nome. Existe
na Palestina uma Ramat Leqi (montanha da queixada). Para explicar a origem deste
nome eles inventaram a estória de Sansão, um homem muito forte,
que lutara contra muitos inimigos usando uma queixada, e os vencera. Depois
ele jogou a queixada naquele monte, que ficou c conhecido como monte da queixada.
0 caso das filhas de Ló (Gen, 19) é uma história difamatória
contra os amonitas e moabitas, tradicionais inimigos de Israel. (Amon e Moab
significam 'do pai'). Outras sagas da Bíblia: a de Noé embriagado;
a briga de Labão com Jacó (Gen 31). A saga se chama heróica
quando tem por finalidade engrandecer a vida dos heróis do passado. O
valor da saga está na riqueza popular (folclórica) que ela traz.
Nem sempre há lição em cada uma. Mas a fartura de detalhes
que ela traz mostra a mentalidade do povo. Seu valor é maior para a critica
literária.
3. legenda - distingue-se da saga porque se refere a pessoas ou objetos sagrados
e querem demonstrar a santidade destes por meio de um fato maravilhoso. Legendas
na Bíblia há em Num 16,1 - 17,15: histórias a respeito
de Moisés; Dan l, 2, 3, 4: sonhos de Daniel; Os milagres de Elias contra
os sacerdotes de Baal; Gen 28,10: Jacó sonha com os anjos (pedra de Betel).
É comum nas legendas referir-se à lei ou objeto de culto. A imolação
de Isaac, que não deu certo, é para reprimir um costume dos cananeus
de imolar crianças, costume proibido pela lei de Moisés. A serpente
de bronze (Num 21) se refere a uma serpente de bronze mandada fazer pelo rei
Manassés, que foi destruída por Javé. A circuncisão
(Gen 17) é explicada assim: Deus apareceu a Abraão para fazer
aliança com ele e o pacto era a circuncisão de todos os meninos
no oitavo dia. Jos 5, 9 e Ex 12 e 13 falam da origem da Páscoa.
4. parábolas, fábulas, alegorias - parábola é uma
história comparativa, de sentido global (ex: II Sam 12, 1-4); fábula
é a narrativa que faz os seres inanimados ou os animais falarem (ex:
Juízes, 9,7); alegoria é uma história comparativa em que
cada elemento tem um significado particular (ex: Is 5, 1-7). Há ainda
o apólogo, quando se trata da animação de objetos.
b) narrativo-histórico
Difere do didático porque pretende contar um fato acontecido realmente.
Há três tipos:
1. popular, onde ninguém sabe o fim da lenda e o começo da história.
É uma história primitiva, baseada em histórias que corriam
na boca do povo, um misto de elementos verídicos e legendários
acrescentados. Os livros Josué e Juízes (550 a.C.) estão
nesta categoria.
2. epopéia (nacional-religiosa) são histórias retiradas
da catequese do povo. Se bem que tenham elementos acrescentados, todavia a mensagem
pode ser considerada autêntica. O exemplo mais típico deste gênero
é a narração epopéica da passagem do mar vermelho
(Ex. 14 ). A fuga de Israel do Egito está ligada a um fato acontecido
no tempo de Ramsés II. Ele foi um faraó que empreendeu grandes
conquistas, principalmente à procura de escravos para trabalhar. Entre
os povos submetidos havia um grupo de judeus. Mais tarde, fraquejou a vigilância,
e muitos fugiram, inclusive muitos judeus. Então eles empreenderam a
fuga pelo deserto e se aproveitaram de uma região onde havia um braço
de mar que secava durante a maré baixa para sair do território
egípcio.
Esta narrativa na Bíblia é contada com todos aqueles retoques
conhecidos. Mas se analisarmos bem, veremos que na própria Bíblia,
há duas citações do mesmo fato, e cada uma conta diferente.
São as duas tradições: a javista, mais antiga e mais verdadeira,
afirma que o vento soprou durante toda a noite e fez o mar recuar; a sacerdotal,
mais recente, modificou a narração para a divisão das águas
em duas muralhas por onde todos passaram em seco. Há uma certa contradição
nestas duas. Mas o que se deve concluir daí é que os soldados
os perseguiram na fuga e eles passaram na maré baixa. Quando os soldados
chegaram, a maré já subira e não dava passagem. Enquanto
isso, eles se adiantaram ainda mais. Ao transcrever isto na Bíblia, o
autor sagrado quer mostrar o fato da presença de Deus em ajuda de seu
povo, através dos elementos da natureza.
3. historiográfico - é o trabalho dos escribas encarregados de
escrever as crônicas dos anais dos reis. A partir destas crônicas
vários livros foram escritos. 0 I Reis, cap. 11, vers.41 cita os anais
de Salomão; em 14, 19 afirma que o restante está nos livros das
crônicas dos Reis de Israel. São documentos de maior credibilidade,
porque são mais históricos. Somente a partir do livro dos Reis,
é que são usados documentos escritos na época. Antes era
apenas história popular.
c) Legislativo
É representado na Bíblia principalmente no Pentateuco. Tem muito
em comum com os outros povos vizinhos e herdou muito deles. Há passagens
na Bíblia que são repetições do código de
Hamurábi. Os povos orientais são muito ricos neste tipo de literatura.
Quanto aos tipos de leis, há três: 1. leis causídicas: pormenorizadas
conforme as situações; 2. leis apodíticas: universais;
3. leis rituais.
d) Sapiencial
Originou-se também dos povos vizinhos, principalmente a partir do Exilio.
São de origem profana e não religiosa, pois as suas fontes também
não eram religiosas. 0 povo oriental é pensador por natureza e
a sabedoria é uma virtude muito difundida e apreciada. A sabedoria bíblica
não difere muito da sabedoria oriental em geral.
e) Profético
Também tem origem fora de Israel. Os povos da época tinham seus
profetas. Eles moravam nos palácios dos reis e eram os que dialogavam
com os deuses. É preciso notar que naquela época profeta não
era sinônimo de adivinho, como às vezes se identifica. Eles•manifestavam
ao povo a vontade de Deus com sermões, com sinais, exortações
e oráculos.
f) Salmos
Também tem influência externa (fora de Israel). Não são
todos de Davi. Apareceram conforme as necessidades. Foram compostos sem sequência
ou cronologia. São cantos de louvor, de súplica.
PRINCIPAIS ETAPAS DA HISTÓRIA DE ISRAEL
O primeiro marco importante na história
politica•de Israel foi o exílio. Sua finalidade politica era para
evitar a rebelião. Em geral, quando era conquistado um povo muito numeroso,
os conquistadores achavam perigoso deixá-los em suas terras de origem,
porque isso lhes facilitava um trabalho oculto de rebelião para expulsar
os invasores. Então, longe de suas terras e sem uma liderança,
eles não podiam se movimentar. Os judeus foram assim exilados para a
Babilônia. 0 exílio teve início no ano 587 e foi concluído
com o edito de Ciro que, em 538 conquistou a Babilónia e libertou os
judeus.
Dizem os historiadores que a rivalidade entre judeus e samaritanos começou
na volta do exílio. O povo no exilio ficou muito tempo em contado com
vários povos estrangeiros e adquiriu com isto um sincretismo religioso
que levaram para a Pátria. Ao retornarem à patria, logo eles empreenderam
a reconstrução de Jerusalém (casas, templo...), mas não
se livraram completamente das influências politeístas, causando
assim várias brigas internas.
O Sinédrio era a cúpula religiosa da nação, composta
de 70 membros sob a presidencia do Sumo Sacerdote, que tinha autoridade suprema.
Os fariseus e saduceus eram partidos politicos, mas com inspiração
religiosa. Os primeiros eram da oposição e os outros, da situação.
No ano 63 a.C, a Palestina foi conquistada pelos Romanos, iniciando outra era
de dominação estrangeira, que perdurou até o tempo de Cristo.
CRONOLOGIA BÍBLICA
* séc.XIX (1850 a.C) - migração
de Abraão.
* séc.XIII - libertação do Egito; êxodo (1225 a.C.);
aliança no Sinai.
* séc X - (1013 a 973 a.C) - Tempo do Rei Davi. Foi escrita a tradição
javista (sul); (970 a 930 a.C) - Tempo do Rei Salomão. Foi escrita a
tradição eloista. (norte); (930 a.C) - divisão dos reinos.
* séc VIII (722 a.C) - queda de Samaria para o exército de Sargão
II, Profetas escritores.
* séc VII (586 a.C) - queda de Jerusalem para Nabucodonosor, rei da Babilônia;
(538 a.C) - edito de Ciro, volta do exílio.
* séc III (300) - tradução dos 70.
As Origens
1. DEUS CRIA O MUNDO A PARTIR DO NADA
No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era ainda informe
e vazia; estava coberta de águas e havia trevas por toda a parte.
Deus disse então: "Exista a luz" e a luz apareceu. Separou
a luz das trevas e chamou à luz de "dia" e às trevas
de "noite". Este foi o primeiro dia.
E Deus disse: "Faça-se um firmamento que separe as águas
umas das outras" e assim se fez. Deus chamou ao firmamento de "céu".
Foi o segundo dia.
E Deus disse: "Ajuntem-se as águas que estão debaixo do céu
num só lugar e apareça o solo firme" e assim se fez. Deus
chamou ao solo firme de "terra" e ao conjunto das águas de
"mar". E Deus disse: "Que a terra produza ervas, plantas e árvores
que dêem frutos, cada qual segundo sua espécie" e assim se
fez. Foi o terceiro dia.
E Deus disse: "Haja corpos luminosos no firmamento" e assim se fez.
Deus criou então dois grandes astros: o maior para presidir ao dia e
o menor para presidir a noite. Criou também as estrelas. Foi o quarto
dia.
E Deus disse: "Povoem-se as águas de seres vivos e voem aves sobre
a terra, debaixo do firmamento do céu". Deus criou então
os peixes nas águas e as aves nos ares. Abençoou-os e disse-lhes:
"Crescei e multiplicai-vos". Foi o quinto dia.
E Deus disse: "Produza a terra seres vivos de toda a espécie: animais
domésticos, répteis e feras" e assim se fez.
2. DEUS CRIA O HOMEM
Em seguida, Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança; que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os
animais e toda a terra. Deus formou então o corpo do homem com o barro
da terra e comunicou-lhe um sopro de vida. Ao primeiro homem deu o nome de "Adão".
Foi o sexto dia.
3. DEUS INSTITUI
O SÁBADO
No sétimo dia Deus descansou. Abençoou este dia e o santificou.
[Deus também criou um mundo invisível, o dos espíritos
inumeráveis chamados anjos. Eram bons e felizes, mas muitos deles pecaram
por orgulho e foram precipitados no Inferno; são os espíritos
maus ou demônios].
4. O HOMEM NO
PARAÍSO
Deus plantara para o homem um jardim de delícias ou Paraíso, onde
fez crescer árvores de todas as espécies, formosas à vista
e carregadas de frutos deliciosos.No meio, erguia-se a árvore da ciência
do bem e do mal.
Deus colocou o homem neste jardim para o cultivar e guardar. E disse: "Podes
comer dos frutos de todas as árvores do jardim, exceto da árvore
da ciência do bem e do mal. Se comeres do fruto dessa árvore, morrerás".
5. DEUS CRIA EVA
Em seguida Deus disse: "Não é bom que o homem esteja só.
Façamos-lhe uma auxiliar semelhante a ele". Mandou então
um sono profundo a Adão e, tirando uma das suas costelas, formou com
ela uma mulher. Quando Adão acordou, Deus a apresentou. Assim que a viu,
Adão exclamou: "Eis o osso dos meus ossos e a carne da minha carne".
Adão chamou à mulher de "Eva", que significa mãe
de todos os viventes.
6. EVA E ADÃO
COMETEM O PECADO
O demônio invejava a felicidade dos homens. Para os enganar, disfarçou-se
em forma de serpente e disse à mulher: "Por que Deus vos mandou
que não comesseis dos frutos destas árvores?". A mulher respondeu:
"Nós podemos comer do fruto de todas as árvores. Só
nos é proibido o fruto da árvore que está no meio [do jardim].
O Senhor mandou que nem a tocássemos, senão poderíamos
morrer". A serpente replicou: "Nada disso, vós não morrereis.
Assim que comerdes deste fruto, ficareis com os olhos abertos e sereis como
Deus, conhecendo o bem e o mal".
Então a mulher pensou que seria bom comer desse fruto, que tão
formoso lhe parecia. Apanhou um e comeu e depois o deu a seu marido, que comeu
também. Imediatamente se abriram os olhos de ambos e perceberam que estavam
nús. Costuraram folhas de figueira e fizeram cintos para se cobrir. Mas
sentindo que Deus se aproximava, esconderam-se debaixo das árvores do
jardim.
7. ADÃO
E EVA CONFESSAM A SUA FALTA
Deus chamou por Adão, dizendo: "Onde estás?". Adão
respondeu: "Sentindo que vos aproximavas, tive medo porque estava nú
e escondi-me".Disse-lhe Deus: "Como soubeste que estavas nú?
Acaso comeste do fruto da árvore proibida?". Adão respondeu:
"A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto desta árvore
e eu comi".Então o Senhor disse à mulher: "Por que fizeste
isso?". Ela respondeu: "Foi a serpente que me enganou".
8. DEUS PROMETE O REDENTOR
Deus disse à serpente: "Já que fizeste isso, serás
maldita entre todos os animais. Andarás rastejando sobre o teu peito
e comerás terra todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e
a mulher, entre a sua raça e a tua; ela te pisará a cabeça
e tu procurarás atingí-la no calcanhar".
9. DEUS CASTIGA
O HOMEM PECADOR
À mulher [Deus] disse: "Terás grandes sofrimentos e muitos
desgostos com teus filhos. Estarás sob o poder do marido e ele será
o teu senhor".
A Adão disse: "A terra será maldita por tua causa. Por si
só não produzirá além de espinhos e cardos. Comerás
o pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra de
que foste tirado, porque tu és pó e ao pó irás retornar".
Depois Deus vestiu Adão e Eva com umas túnicas de peles e os expulsou
do Paraíso. Pôs à entrada do Paraíso querubins armados
com espada de fogo para guardar o caminho da árvore da vida.
Os Filhos dos Primeiros
Homens
10. CAIM MATA SEU IRMÃO ABEL
Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel. Abel era pastor de ovelhas
e Caim lavrador. Aconteceu que ambos ofereceram sacrifícios ao Senhor.
Caiu deu frutos das suas terras e Abel os melhores cordeiros do seu rebanho.
O Senhor viu com prazer o sacrifício de Abel, mas não olhou para
a oferenda de Caim. Este ficou muito irritado. O Senhor disse-lhe: "Por
que estás irritado? Se praticares o bem serás recompensado, mas
se fizeres o mal serás castigado. Domina as tuas paixões".
Depois disto, Caim disse a seu irmão: "Saiamos". E, logo que
estavam no campo, Caim lançou-se contra seu irmão Abel e o matou.
11. DEUS CASTIGA
CAIM
Imediatamente o Senhor disse a Caim: "Onde está o teu irmão
Abel?". Caim respondeu: "Não sei. Acaso sou o guarda de meu
irmão?. Disse-lhe Deus: "O que fizeste? O sangue de teu irmão
grita da terra por mim. Por isso serás maldito sobre a terra que bebeu
o sangue de teu irmão".
Então Caim disse ao Senhor: "O meu pecado é tamanho que não
mereço perdão. Esconder-me-ei do vosso olhar e quem me encontrar
me matará". Disse-lhe o Senhor: "Não será assim".
E marcou-o com um sinal para que ninguém ousasse matá-lo. Caim
afastou-se e andou errante pelo oriente do Éden. Os seus descendentes
foram os maus filhos dos homens.
12. SET SUBSTITUI
ABEL
Adão e Eva tiveram outro filho, ao qual chamaram Set. Os descendentes
de Set foram os piedosos filhos de Deus. Mas, pouco a pouco, aliaram-se com
os maus filhos dos homens e adotaram os seus perversos costumes.
[Deus concedeu larga vida aos patriarcas: Adão viveu 930 anos; Set, 912;
Matusalém, avô de Noé, 969; Henoc, pai de Matusalém,
viveu com tanta piedade que o Senhor o levou deste mundo e ele não morreu].
A História de Noé e seus Filhos
13. DEUS ANUNCIA O DILÚVIO
Deus viu que os homens se pervertiam cada vez mais. Arrependeu-se de os ter
criado e disse: "Exterminarei os homens da face da terra". Só
um homem, chamado Noé, achou graça diante do Senhor porque era
justo. Deus disse a Noé: Faze uma arca de madeira com 300 côvados
de comprimento, 50 de largura e 30 de altura; reveste-a de betume por dentro
e por fora. Mandarei o dilúvio sobre a terra; tudo o que nela vive perecerá.
Mas farei uma aliança contigo. Entrarás na arca com teus filhos,
tua mulher e as mulheres de teus filhos. Tomarás também animais
de cada uma das espécies para que sobrevivam contigo e alimentos para
o vosso sustento". E Noé fez tudo o que Deus lhe havia ordenado.
14. O DILÚVIO
INUNDA A TERRA
Então Deus abriu todas as fontes do grande abismo e uma chuva torrencial
caiu durante 40 dias e 40 noites. As águas aumentaram e passaram 15 côvados
acima dos montes mais altos. A arca flutuava sobre as águas. Todos os
homens e todos os animais morreram. Só sobreviveu Noé e os que
estavam com ele na arca. As águas cobriram a terra durante 150 dias.
Então Deus mandou um vento quente e as águas começaram
a baixar. Por fim, a arca deteve-se sobre uma montanha da Armênia.
DEUS ESTABELECE
UMA ALIANÇA COM NOÉ.
Noé saiu da arca com toda a sua família e os animais. Levantou
um altar e ofereceu um sacrifício ao Senhor. O Senhor aceitou o seu sacrifício
e disse: "Nunca mais um dilúvio devastará a terra".
Em seguida, abençoou Noé e os seus filhos e disse-lhes: "Eis
que vou fazer a minha aliança convosco e com a vossa posterioridade.
O meu arco nas nuvens é o sinal da minha aliança convosco".
Os Descendentes
de Noé
16. CAM PECA CONTRA SEU PAI
Os filhos de Noé que saíram com ele da arca chamavam-se: Sem,
Cam e Jafet. Cam era pai de Canaan. Deles descenderam todos os homens que depois
povoaram a terra.
Noé, que era agricultor, começou a cultivar a vinha e fez vinho.
Mas, como ainda não conhecia a sua força, foi surpreendido pela
embriaguez e adormeceu nú na sua tenda. Cam, vendo o pai naquele estado,
pôs-se a rir dele. Pelo contrário, Sem e Jafet entraram recuando
na tenda para não verem o pai e o cobriram com o seu manto.
17. NOÉ
JULGA OS FILHOS
Logo que Noé soube o que tinham feito seus filhos, disse: "Maldito
seja Canaan! Ele será escravo dos escravos de seus irmãos!".
Em seguida, abençoou Sem e Jafet, dizendo-lhes: "Bendito seja o
Senhor, Deus de Sem, e Canaan seja seu escravo! Alargue-se Jafet e habite nas
tendas de Sem e Canaan seja seu escravo!".
18. DEUS DISPERSA
OS DESCENDENTES DE NOÉ
Os descendentes de Noé foram muito numerosos. Partindo do Oriente, estabeleceram-se
na planície de Senaar. Ali, disseram uns para os outros: "Construamos
uma cidade e ergamos uma torre que chegue até o céu". Até
então, todos os homens falavam a mesma língua. Deus disse: "Vou
confundir-lhes a linguagem, de forma que não se entendam uns com os outros".
Tiveram então de parar com os seus trabalhos. À cidade, chamou-se
Babel, que quer dizer confusão, por lá ter sido confundida a linguagem
dos homens.
Noé morreu com 950 anos de idade, 350 após o dilúvio.
[Pouco a pouco os homens esqueceram o Senhor e caíram na idolatria. Então
Deus escolheu Abraão e a sua descendência, o povo de Israel, para
guardar a verdadeira fé e a esperança na vinda do Redentor].
A História de Abraão
19. DEUS CHAMA ABRÃO
Taré, descendente de Sem, teve três filhos: Abrão, Nacor
e Aran. Tendo partido de Ur, na Caldéia, com seu filho Abrão,
seu neto Lot e Sarai, esposa de Abrão, foi viver em Haran, na Mesopotâmia.
Um dia, Deus disse a Abrão: "Sai da tua terra e da casa de teu pai
e vai para a terra que eu te mostrar. Em ti serão benditas todas as nações
da terra".
Abrão obedeceu. Foi com Sarai, sua mulher, e seu sobrinho Lot para a
terra de Canaan. Aí lhe apareceu o Senhor e lhe disse: "Darei esta
terra aos teus descendentes".
20. MELQUISEDEC
ABENÇOA ABRÃO
Aconteceu que uns reis estrangeiros invadiram aquela terra, saquearam as cidades
e levaram muitos cativos. Abrão reuniu 318 servos e, à frente
deles, perseguiu os inimigos, venceu-os e retomou todo o saque. No regresso,
passou pela cidade de Salém. Então Melquisedec, rei de Salém,
trouxe pão e vinho para o sacrifício porque era sacerdote do Altíssimo.
E abençoou Abrão, dizendo: "Bendito seja Abrão pelo
Deus Altíssimo, Criador do céu e da terra!". Depois disto,
Abrão deu-lhe o dízimo de todos os seus bens.
21. DEUS PROMETE
DESCENDÊNCIA A ABRAÃO
Abrão não tinha filhos. Uma noite, Deus disse-lhe: "Levanta
os olhos e conta, se podes, as estrelas do céu! A tua descendência
será tão numerosa como elas". Abrão acreditou em Deus
e Deus imputou à justiça a sua fé.
Aos 99 anos de idade, Abrão teve outra aparição em que
o Senhor lhe disse: "Daqui em diante não te chamarás Abrão
mas sim Abraão, porque te destinei oara pai de muitas gentes. Para o
futuro, não chamarás a tua mulher de Sarai mas de Sara. Eu a abençoarei
e ela terá um filho ao qual chamarás Isaac. Concluirei com ele
uma aliança perpétua em favor da sua posterioridade".
22. DEUS EXPERIMENTA
ABRAÃO
Deus cumpriu a sua promessa. Sara teve um filho na sua velhice e Abraão
deu-lhe o nome de Isaac.
Sendo este já crescido, Deus experimentou Abraão e disse-lhe:
"Toma Isaac, teu filho único a quem amas, para me ofereceres em
sacrifício na montanha que eu te desginar".
Abraão levantou-se antes de amanhecer, preparou o jumentinho, cortou
a lenha necessária para o sacrifício e pôs-se a caminho
com Isaac e dois servos. Ao terceiro dia, avistou de longe a montanha do sacrifício.
Disse então aos servos: "Esperai aqui com o jumento enquanto eu
e meu filho vamos lá em cima adorar o Senhor". Pôs a lenha
sobre os ombros de Isaac e ele mesmo levou o fogo e o cutelo.
Enquanto subiam, Isaac disse: "Meu pai!". Abraão perguntou:
"O que queres, meu filho?". Isaac respondeu: "Levamos o fogo
e a lenha, mas onde está o cordeiro para o sacrifício?".
Abraão disse: "Deus tratará disso, meu filho".
Quando chegaram, Abraão levantou o altar, dispôs nele a lenha,
amarrou o filho e o colocou em cima.
Em seguida, agarrou no cutelo para imolar a criança.
23. DEUS POUPA
ISAAC
Então, do alto do céu, gritou o anjo do Senhor: "Abraão!
Abraão! Não faças mal ao menino. Agora sei que temes a
Deus pois não poupaste teu filho único para me obedeceres".
Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro preso num espinheiro. Foi
buscá-lo e ofereceu-o em holocausto em lugar do filho. Então o
anjo do Senhor disse pela segunda vez: "Já que para me obedeceres
não poupaste o teu filho único, eu te abençoo. Dar-te-ei
uma posterioridade tão numerosa como as estrelas do céu e a areia
na praia marítima. Em um dos teus descendentes serão benditas
todas as nações da terra".
[Abraão viveu até a idade de 175 anos. Seu filho sepultou-o em
Mambré, junto de Sara, sua esposa].
A História de
Isaac e Jacó
24. ESAÚ VENDE O DIREITO DE PRIMOGENITURA
Isaac casou com Rebeca, neta de Nacor, irmão de Abraão. Deus deu-lhe
dois filhos gêmeos. O primeiro era muito peludo, chamou-se Esaú;
o segundo recebeu o nome de Jacó. Esaú tornou-se hábil
caçador; Jacó gostava de viver na sua tenda.
Um dia, Jacó havia preparado um prato de lentilhas. Esaú chegou
da caça, exausto de fadiga, e disse-lhe: "Dá-me desse legume
vermelho porque estou muito cansado!". Jacó respondeu: "Primeiro
dá-me o direito de primogenitura". Esaú disse: "Estou
morrendo de fome. De que me serve o direito de primogênito?". Jacó
continuou: "Jura que me cedes". Esaú fez o juramento e depois
de ter comido e bebido, saiu.
25. JACÓ
É ABENÇOADO EM VEZ DE ESAÚ
Estando velho e quase cego, Isaac disse a Esaú: "Toma o teu arco,
vai à caça e traz-me o guizado de que eu gosto, para eu te abençoar
antes de morrer". Logo que Esaú saiu, Rebeca disse a Jacó:
"Meu filho, vai escolher no rebanho dois dos melhores cabritos; com eles
farei para teu pai um prato como ele gosta e tu irás levá-lo para
ele te abençoar antes de morrer".
Depois de ter preparado o prato, Rebeca vestiu a Jacó com as roupas de
seu irmão Esaú; cobriu-lhe o pescoço e as mãos com
a pele dos cabritos e mandou-o a Isaac, seu pai. O velho mandou Jacó
se aproximar, apalpou-lhe as mãos e o pescoço, mas não
o reconheceu. Depois de ter comido, Isaac abençoou Jacó e disse:
"Deus te dê do orvalho do céu e da ferilidade da terra. As
nações hão de inclinar-se diante de ti e tu serás
o senhor de teus irmãos. Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito
quem te abençoar!".
Foi assim que Jacó se tornou herdeiro das promessas.
26. DEUS ABENÇOA
JACÓ
Esaú ficou muito zangado com seu irmão Jacó e queria matá-lo.
Jacó soube disso e fugiu para a Mesopotâmia.
Durante a viagem, viu em sonhos uma escada que ligava a terra ao céu
e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. No alto estava o Senhor que lhe
disse: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão e Isaac. Dar-te-ei a ti
e à tua descendência a terra em que repousas. A tua posterioridade
será numerosa como os grãos de areia da praia e num dos teus descendentes
serão abençoadas todas as nações".
27. JACÓ
RECEBE O NOME GLORIOSO DE ISRAEL
Jacó ficou 20 anos na Mesopotâmia, em casa de seu tio Labão.
Por fim, Deus disse-lhe: "Volta para a terra de teus pais e eu estarei
contigo".Jacó obedeceu.
No caminho, um homem misterioso lutou com ele até pela manhã.
E disse-lhe então:"Deixa-me porque já vem vindo a aurora".
Jacó respondeu: "Não te deixarei partir enquanto não
me abençoares". O homem misterioso disse-lhe "Daqui em diante
não te chamarás Jacó, mas Israel - que quer dizer guerreiro
de Deus - porque se lutaste com tanta valentia com Deus, muito mais forte serás
contra os homens". E o abençoou.
[Mais tarde, Esaú reconciliou-se com Jacó. Este teve doze filhos:
Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dan, Neftali, Gad, Aser, Issacar,
Zabulon, José e Benjamim. Isaac morreu em Hebron, com 180 anos de idade].
A História
de José
28. OS IRMÃOS TÊM INVEJA DE JOSÉ
Jacó amava e preferia José do que os outros filhos e mandou-lhe
fazer uma túnica de várias cores. Por isso, os mais velhos começaram
a invejá-lo.
Um dia praticaram uma ação muito má e José os acusou
ao pai. Desde então seus irmãos tomaram-lhe ódio e começaram
a falar-lhe com maus modos.
Uma vez, José disse-lhes: "Ouçam um sonho que tive: estávamos
no campo a atar feixes. O meu feixe ergueu-se de pé e os vossos puseram-se
em volta e prostraram-se diante dele". Os irmãos replicaram-lhe:
"Porventura serás nosso rei?". E o odiavam cada vem mais.
José contou-lhes ainda outro sonho dizendo: "Vi em sonhos o sol,
a lua e onze estrelas inclinarem-se diante de mim". O pai repreendeu-o:
"O que significa esse sonho que tiveste? Acaso eu, tua mãe e teus
irmãos haveremos de nos prostar diante de ti?". E a inveja e o ódio
dos irmãos aumentava cada vez mais.
29. JOSÉ
VENDIDO POR SEUS IRMÃOS
Um dia, os irmãos de José tinham ido para muito longe com os rebanhos.
E o pai disse a José: "Vai ver se os teus irmãos estão
bem". Assim que eles o avistaram, disseram: "Lá vem o sonhador.
Matemo-lo e depois diremos que uma fera o devorou".
Logo que José chegou até eles, seus irmãos o despiram da
túnica de várias cores e o lançaram numa cisterna velha.
Por acaso passava por ali uma caravana de mercadores estrangeiros que seguia
para o Egito. E eles, então, tiraram José da cisterna e o venderam
por vinte moedas de prata. Em seguida, tingiram a túnica com o sangue
de um cabrito e mandaram-na ao pai com este recado: "Encontramos esta túnica.
Não será a de vosso filho?". O pai a reconheceu e disse:
"A túnica é do meu filho! Uma fera devorou José".
E nunca mais deixou de chorar pelo filho.
30. JOSÉ
NA PRISÃO
Os mercadores levaram José para o Egito e lá o venderam a um dos
dignatários do faraó, chamado Putifar, que o fez administrador
de seus bens. Um dia, a mulher de Putifar tentou arrastá-lo para o pecado,
mas José disse-lhe: "Como eu poderia cometer tamanha injustiça
e pecar contra o meu Deus?". Ela ficou muito irritada e disse ao marido:
"José quis que eu cometesse o pecado". O egípcio acreditou
na mulher e mandou prender José.
31. JOSÉ
EXPLICA OS SONHOS
Deus estava com José. O chefe da prisão gostava dele e confiou-lhe
a vigilância dos outros presos.
Aconteceu que o rei do Egito mandou prender o copeiro e o chefe dos padeiros
como culpados de um crime contra sua pessoa. Uma manhã José, vendo-os
muito tristes, perguntou-lhes: "Por que estais tão preocupados?".
Eles responderam: "Tivemos um sonho e ninguém sabe interpretá-lo".
José disse-lhes: "Só Deus dá a inteligência
dos sonhos. Contai-me o sonho".
O copeiro-mor disse: "Vi em sonho uma cêpa de videira que tinha três
varas. Peguei em dois cachos, espremi-os numa taça e apresentei-a ao
faraó". José disse-lhe: "As três varas significam
três dias. Dentro de três dias o faraó te restituirá
ao cargo. Lembra-te de mim quando fores feliz. Pede ao faraó que me tire
deste cárcere porque eu não fiz mal algum".
O padeiro disse por sua vez: "No meu sonho, parecia-me levar à cabeça
três cestos de pão branco. No cesto que ia por cima havia muitas
iguarias para o faraó, mas as aves vinham comê-las". José
disse: "Os três cestos significam três dias, depois dos quais
o faraó te mandará cortar a cabeça e as aves devorarão
tua carne".
Três dias depois, o faraó festejava o aniversário do seu
nascimento. Durante o banquete, lembrou-se do copeiro-mor e restituiu-o ao seu
cargo; ao padeiro, mandou enforcar, tudo como José lhes tinha predito.
Mas o copeiro, retornando ao seu lugar, não se lembrou mais de José.
32. ELEVAÇÃO
DE JOSÉ
Dois anos depois, o faraó teve também um sonho: viu sair do Nilo
sete vacas, lindas e gordas, e depois outras sete, feias e magras, que devoravam
as primeiras. Em seguida, viu sair do mesmo caule sete espigas cheias de grãos
e formosas, e outras sete, delgadas e vazias, que engoliram as primeiras. Ninguém
soube interpretar o sonho do faraó. Então ele mandou chamar José,
que lhe disse: "As sete vacas formosas e as sete espigas cheias significam
sete anos de abundância. As sete vacas magras e as sete espigas vazias
significam sete anos de fome. Virão agora sete anos de grande fertilidade
para todo o Egito, mas depois seguir-se-ão sete anos de penúria.
Escolha, pois, o faraó um homem sábio e prudente para recolher
o sobejo das colheitas e reservar provisões para os sete anos de miséria".
O faraó aceitou este conselho e disse a José: "Quem haverá
mais sábio e prudente do que tu? Faço-te senhor de todo o Egito".
E, tirando o anel real, colocou-o no dedo de José. Vestiu-o ricamente,
pôs-lhe no pescoço um colar de ouro e mandou-o passear em triunfo
no seu côche real. Além disso, deu-lhe um nome egípcio que
significa salvador do mundo. Todos deviam se prostrar diante de José.
Chegaram os sete anos de fertilidade e José mandou recolher todo o excedente
das colheitas. Seguiram-se os sete anos de miséria e o povo começou
a pedir pão ao faraó. O faraó respondia: "Ide a José".
Então José mandou abrir os celeiros. De toda a parte acorria gente
ao Egito para comprar trigo.
33. JOSÉ
TORNA A VER OS IRMÃOS
Jacó mandou também seus filhos ao Egito comprar trigo. Mas não
deixou que Benjamim fosse, com receio de lhe acontecer algum mal.
José reconheceu seus irmãos logo que os viu, mas eles não
o reconheceram. Falou-lhes como a estrangeiros e disse-lhes: "Vós
sois espiões!". Eles responderam: "Oh, não, senhor!
Viemos de Canaan só para comprar trigo. Somos doze irmãos. O mais
novo ficou em casa e o outro... desapareceu!". José fingiu não
acreditar e mandou-os prender. Passados três dias, ordenou que viessem
à sua presença e disse-lhes: "Se sois de paz, um de vós
ficará como refém. Os outros podem voltar, mas devem trazer seu
irmão mais novo. Dessa forma saberei que falais a verdade".
Depois deu ordem para que lhes enchessem os sacos, mas teve o cuidado de mandar
pôr em cada um o dinheiro da compra. Quando eles chegaram em casa e abriram
os sacos, ficaram muito admirados por lá encontrarem o dinheiro.
34. JOSÉ DÁ-SE A CONHECER
Tendo acabado o trigo, Jacó disse a seus filhos: "Voltai ao Egito
e comprai mantimentos para vivermos". Um dos irmãos respondeu: "Bem
queremos ir, mas é preciso levar o nosso irmão mais novo!".
Jacó respondeu: "Se assim é necessário, levai Benjamim
convosco".
Desceram eles ao Egito com Benjamim. Assim que chegaram à presença
de José, ofereceram-lhe presentes e inclinaram-se diante dele até
ao chão. Ele retribui-lhes a saudação e perguntou: "O
vosso pai ainda é vivo?". Eles disseram: "O nosso pai, vosso
servo, ainda é vivo e está com saúde". Então,
vendo Benjamim, perguntou: "Este é o vosso irmão mais novo?
Deus te abençoe, meu filho". E retirou-se apressadamente para ocultar
as lágrimas.
No dia seguinte, não podendo dominar por mais tempo a sua comoção,
exclamou a soluçar: "Eu sou José, vosso irmão, a quem
vendeste. Ide depressa ter com meu pai e o trazei-me. Eu tratarei de vós".
Lançou-se então ao pescoço de Benjamim e , chorando, abraçou-o;
abraçou também todos os irmãos. Estes saíram e puseram-se
a caminho.Quando chegaram, os irmãos de José
disseram a seu pai: "José, vosso filho, ainda vive e é ele
quem governa todo o Egito". Jacó não queria acreditar, mas
depois disse: "Vou ter com ele. Quero vê-lo antes de morrer".
E pôs-se a caminho do Egito. José saiu ao encontro do pai. Chegando
à sua presença, lançou-se ao seu pescoço e, chorando,
abraçou-o.
Em seguida, José apresentou seu pai e seus irmãos ao faraó.
Este disse a José: "Dá-lhes a melhor parte da terra".
José estabeleceu-os na região de Géssen.
Jacó viveu ainda 17 anos no Egito. Antes de morrer, abençoou cada
um de seus filhos. A Judá disse: "Judá, teus irmãos
te louvarão e os filhos de teu pai prostrar-se-ão diante de ti.
O cetro não se afastará de Judá até que venha aquele
que deve ser enviado e que as nações esperam".
[Depois da morte de seu pai, os irmãos de José recearam que ele
quisesse se vingar e foram implorar o seu perdão. José disse-lhes,
chorando:"Não temais. Eu cuidarei de vós e de vossos filhos".
Prestes a morrer, disse ainda a seus irmãos: "Deus vos reconduzirá
à terra que prometeu a nossos pais. Levai os meus ossos convosco".
Morreu no Egito com 110 anos. Embalsamaram-no e depuseram-no num caixão.]
A História
de Jô
JÓ É EXPERIMENTADO NOS SEUS BENS
Em Hus, terra da Arábia, vivia um homem chamado Jó, reto, justo,
temente a Deus e afastado do mal. Tinha 7 filhos e 3 filhas; possuía
grandes rebanhos de ovelhas, camelos, bois e jumentos, além de muitos
criados. Era homem muito considerado em todo o Oriente.
Deus experimentou-o, permitindo a Satanás que lhe fizesse muito mal.
Um dia, chegou um mensageiro e disse a Jó: "Andavam os bois a lavrar
e a jumentas a pastar junto deles e eis que surgiram os sabeus e os levaram.
Passaram à espada os criados. Só escapei eu para vos trazer esta
notícia"
Falava ainda quando chegou outro mensageiro que disse: "Os caldeus lançaram-se
sobre os camelos, levaram-nos e trucidaram todos os criados. Só escapei
eu para vos trazer esta notícia".
Enquanto este falava, entrou outro mensageiro dizendo: "Os vossos filhos
e filhas estavam a comer e beber em casa do irmão mais velho. De repente
desencadeou-se um violento furacão vindo do deserto. Sacudida de todos
os lados, a casa desabou sobre eles e esmagou a todos. Só eu escapei
para vos anunciar esta triste notícia".
Então Jó levantou-se, rasgou as vestes e, raspada a cabeça,
prostrou-se por terra e adorou o Senhor, dizendo: "O Senhor deu, o Senhor
tirou. Como foi do agrado do Senhor, assim se sucedeu. Bendito seja o nome do
Senhor!". Jó não pecou em nenhuma destas coisas, nem pronunciou
nenhuma palavra insensata contra Deus.
JÓ É
EXPERIMENTADO NA SUA SAÚDE
Satanás foi então ferir Jó com uma lepra horrível,
que o cobriu desde a planta dos pés até ao alto da cabeça.
E Jó tirava o pus de suas úlceras com um pedaço de telha.
Dizia-lhe a mulher: " Ainda estás firme na tua piedade?". Ele
respondia: "Falas como mulher insensata. Se recebemos os bens da mão
de Deus, por que não receberemos também os males?".
JÓ PERMANECE
FIEL A DEUS
Alguns amigos de Jó ousaram afirmar que Deus o castigava por causa dos
seus pecados. Mas Jó disse: "Ainda que Deus me matasse, confiaria
sempre nele. Eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia ressurgirei
da terra; serei novamente revestido do meu corpo e na minha carne verei o meu
Deus. Sim, eu mesmo o verei e os meus olhos o hão de contemplá-lo.
Esta esperança repousa no meu coração".
DEUS DÁ
A JÓ O DOBRO DOS BENS PERDIDOS
Deus restituiu o dobro de tudo que ele possuía. Deu-lhe também
sete filhas e três filhos. Jó viveu ainda 140 anos e viu os filhos
dos seus filhos até a quarta geração.
A História
de Moisés
PROSPECTO
Os hebreus estavam no Egito ha quase 400 anos e tinham-se tornado muito numerosos.
O faraó resolveu aniquilá-los: mandou tratá-los severamente
e ordenou que se lançassem ao Nilo todos os seus filhos recém-nascidos.
Deus inspirou à filha do faraó que recolhesse uma destas crianças
e ela chamou-lhe de Moisés e o educou. Com cerca de 40 anos de idade,
Moisés teve que fugir porque tomara a defesa dos israelitas. Por ordem
de Deus, voltou 40 anos depois e fez os israelitas saírem do Egito. Foi
seu chefe no deserto durante 40 anos e conduziu-os até a fronteira da
Terra Prometida.
MOISÉS SALVO DA MORTE
Os descendentes de Jacó tornaram-se muito numerosos no Egito. Chamavam-se
a si próprios de filhos de Israel ou israelitas porque Jacó recebera
de Deus o nome de Israel. Os estrangeiros chamavam-lhes de hebreus.
Passado muito tempo, houve no Egito um novo rei que não conhecia a história
de José. Temendo que os filhos de Israel se tornassem demasiadamente
poderosos, oprimiu-os com penosos trabalhos de construção e cultura.
Por fim, prescreveu que se lançassem ao Nilo todos os seus filhos recém-nascidos.
Uma mãe israelita teve um filho. Como era muito lindo, escondeu-o durante
três meses. Porém, não podendo conservá-lo oculto
por mais tempo, tomou um cesto de junco betumado com resina e pez, meteu dentro
o menino e foi expô-lo nuns canaviais à margem do rio. A irmã
do menino conservou-se escondida a alguma distância para ver o que acontecia.
Chegou a filha do faraó e, vendo um cesto no meio do canavial, mandou
uma criada buscá-lo. Abriu-o e viu o menino chorando. Ficou cheia de
pena e disse: "É filho de hebreus". A irmã da criança
aproximou-se e disse: "Quereis que vá chamar uma mulher israelita
para amamentar esse menino". Ela respondeu: "Vai, sim". A menina
foi chamar a própria mãe. Esta levou o menino e o educou. Quando
já estava crescido, levou-o à filha do faraó, que o adotou
e disse: "Chamar-se-á Moisés porque o tirei da água".
DEUS ENVIA MOISÉS
PARA LIBERTAR O SEU POVO
Chegado aos 40 anos de idade, Moisés viu a aflição dos
israelitas e tomou a sua defesa. O faraó ficou sabendo e mandou procurá-lo
para lhe dar a morte. Então Moisés fugiu para a terra de Madian,
onde ficou a guardar ovelhas.
Em dia, chegou com o seu rebanho ao interior do deserto, perto do monte Horeb
e ali o Senhor lhe apareceu no meio das chamas que se elevavam de uma sarça
de espinhos. Embora toda em chamas, a sarça não se consumia. Moisés
se aproximou e então o Senhor gritou-lhe do meio da sarça: "Moisés,
Moisés!". Moisés cobriu o rosto para não ver a Deus.
O Senhor disse-lhe: "Vi a aflição do meu povo. Por isso desci
para o libertar e o conduzir a uma terra onde corre o leite e o mel. És
tu quem fará sair o meu povo do Egito". Moisés partiu imediatamente
para o Egito. Saiu-lhe ao encontro, por ordem de Deus, seu irmão Aarão
e Moisés contou-lhe tudo.
Moisés e Aarão foram procurar o faraó e disseram-lhe: "O
Deus dos hebreus disse: 'Deixa partir o meu povo'". O faraó não
consentiu e Deus o castigou, mandando-lhe grandes desgraças. Mas o faraó
continuou endurecido. O Senhor disse a Moisés: "Ferirei o faraó
e a sua gente com uma última praga, depois da qual ele vos deixará
partir. À meia-noite passarei pelo Egito e todo o filho primogênito
dos egípcios morrerá. Mas aos filhos de Israel não se sucederá
mal algum".
MOISÉS
MANDA CELEBRAR A PÁSCOA (aproximadamente 1500 a.C.)
Por ordem de Deus, Moisés mandou aos filhos de Israel que celebrassem
a Páscoa, dizendo-lhes: "No dia 14 deste mês, à tarde,
cada chefe de família imolará um cordeiro sem defeito, com um
ano de idade, sem lhe quebrar osso algum. Com um molhinho de hissôpo,
aspergirá seu sangue nas umbreiras e na padieira da porta. Comereis a
sua carne, assada no fogo, com pão sem fermento e ervas amargas. Tereis
os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão.
E comereis depressa porque é a Páscoa, isto é, a Passagem
do Senhor. Nesta mesma noite, ferirei de morte todos os filhos primogênitos
do Egito. Mas vendo o sangue nas vossas casas, passarei adiante e a praga destruidora
não vos atingirá".
Os filhos de Israel fizeram o que o Senhor lhes ordenou. Pela meia-noite, o
Senhor feriu de morte os primogênitos de todas as famílias do Egito.
Ouviu-se em todo o país um enorme grito de dor porque não havia
casa onde não houvesse um morto.
OS ISRAELITAS
SAEM DO EGITO
O faraó chamou Moisés e disse-lhe: "Leva depressa o teu povo".
Os egípcios também pediam para que os israelitas saíssem
o quanto antes, "senão morreremos todos", diziam eles.
Os filhos de Israel partiram em número de 600 mil, sem contar as mulheres
e crianças. Moisés levou também os ossos de José.
Guiados por Deus, que ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, de noite
numa coluna de fogo, chegaram todos ao Mar vermelho.
Entretanto, o faraó arrependeu-se de ter deixado partir os israelitas.
Perseguiu-os com os seus carros e todo o exército e foi alcançá-los
junto ao Mar vermelho. Moisés disse ao seu povo: "Não temais,
o Senhor combaterá por vós!". Por ordem de Deus, Moisés
estendeu a mão sobre o mar; imediatamente as águas se dividiram,
erguendo-se como muralha à direita e à esquerda, e os israelitas
atravessaram sem molharem os pés. Os egípcios avançaram
por sua vez até ao meio do mar. Mas o Senhor disse a Moisés: "Estende
a mão sobre o mar". Moisés obedeceu e imediatamente as águas
se juntaram e cobriram todo o exército do faraó, com os carros
e cavaleiros. Ninguém escapou.
Os filhos de Israel entoaram então um cântico de louvor e ação
de graças ao Senhor, dizendo: "Cantemos ao Senhor porque fez brilhar
a sua glória: precipitou no mar os cavalos e os cavaleiros".
Em seguida, os israelitas conduzidos por Moisés dirigiram-se para o deserto.
DEUS PROTEGE
O SEU POVO
No deserto, os israelitas tiveram fome. Deus disse-lhes: "Esta tarde comereis
carne e amanhã pela manhã tereis pão em abundância.
E sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus". Efetivamente, à tarde,
pousaram cordonizes sobre os acampamentos e no dia seguinte apareceu a terra
coberta de uma coisa miúda, parecida com a geada. Vendo isto, os filhos
de Israel perguntaram: "Manhu?, que significa 'o que é isto?'. Moisés
disse-lhes: "Este é o pão que o Senhor vos dá para
comer". Daí vem o nome de maná.
O maná tinha sabor de bolos de mel. Os israelitas comeram maná
durante 40 anos até chegarem em Canaan.
Doutra vez, faltou água e o povo queixou-se a Moisés: "Para
que nos fizeste sair do Egito? Foi para morrermos de sede?". Moisés
perguntou ao Senhor: "O que farei a este povo?". Deus disse-lhe: "Toma
a tua vara e bate com ela no rochedo; jorrará água e o povo terá
o que beber". E assim aconteceu.
DEUS PROMULGA
O DECÁLOGO
No terceiro mês depois da saída do Egito, os israelitas chegaram
ao pé do Sinai. Armaram as tendas em frente do monte e Moisés
subiu até junto de Deus. O Senhor disse-lhe: "Manda que lavem as
vestes e estejam prontos para o terceiro dia. Nesse dia, quando soar a trombeta,
que se aproximem do monte". Moisés obedeceu ao Senhor.
Na madrugada do terceiro dia, houve trovões e relâmpagos e uma
espêssa nuvem envolveu o Sinai. Ouviu-se então o som estridente
das trombetas. Todos se atemorizaram. Moisés levou os israelitas para
junto da montanha e o Senhor promulgou o decálogo:
Eu sou o Senhor, teu Deus:
I. Não terás outros deuses, nem
farás imagens deles para as adorar.
II. Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus.
III. Lembra-te de santificar o dia do sábado.
IV. Honra teu pai e tua mãe para viveres muito tempo sobre a terra.
V. Não matarás.
VI. Não cometerás adultério.
VII. Não furtarás.
VIII. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
IX. Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
X. Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu
campo, nem o seu servo ou serva, nem o seu boi ou jumento, nem coisa alguma
que lhe pertença.
O povo tremia de medo. Todos disseram: "Faremos o que o Senhor mandou e
seremos fiéis". Por ordem de Deus, Moisés tornou a subir
ao Sinai e lá ficou 40 dias e 40 noites.
Então o Senhor deu-lhe os dez mandamentos, escritos por sua mão,
em duas tábuas de pedra.
MOISÉS
ORGANIZA O CULTO DIVINO
No Sinai o Senhor disse a Moisés: "Haveis de fazer-me um santuário.
Quero habitar no meio de vós". Moisés mandou então
construir o Tabernáculo. Era feito de tábuas, com ricas coberturas.
Quando os israelitas se punham em marcha, desmanchavam o Tabernáculo
para o levarem com eles. O Tabernáculo tinha dois compartimentos: o santo
e o santo dos santos. No santo dos santos, encontrava-se a arca da aliança.
Na arca, guardavam-se as duas tábuas da Lei.
[No santo, encontravam-se o altar dos perfumes, a mesa dos pães da proposição
e o candieiro de sete braços. No átrio, estava o altar dos holocaustos.
Deus disse também a Moisés: "Aarão e seus filhos exercerão
funções sacerdotais". Moisés estabeleceu seu irmão
Aarão como sumo-sacerdote e designou para sacerdotes os filhos de Aarão
e os seus descendentes. Os sacerdotes deviam oferecer os sacrifícios.
Geralmente ofereciam animais, que se imolavam, sendo a carne consumida pelo
fogo sobre o altar. Havia também sacrifícios incruentos. Celebravam-se
três grandes festas: a Páscoa, em memória da saída
do Egito; o Pentecostes, comemorando a promulgação da Lei ao pé
do Sinai; e a dos Tabernáculos, para relembrar a peregrinação
do povo através do deserto. Em todas as semanas, o sétimo dia
ou sábado devia ser consagrado unicamente ao culto do Senhor.]
EXPLORAÇÃO
DA TERRA DE CANAAN
Logo que os israelitas chegaram à fronteira meridional de Canaan, Moisés
enviou 12 homens, um por cada tribo, a explorar a terra. No regresso, trouxeram
eles frutos deliciosos como romãs, figos e, numa vara, conduzida por
dois homens, um enorme cacho de uvas. E disseram: "É na verdade
uma terra onde corre o leite e o mel!".
Porém, os israelitas já estavam cansados de vaguear através
do deserto. E disseram a Moisés: "Por que nos mandaste sair do Egito?
Foi para nos deixar morrer no deserto? Nós não temos pão,
falta-nos a água e já estamos enjoados deste maná!".
Para castigo, o Senhor mandou serpentes, cuja picada queimava como fogo. Muitos
israelitas foram picados e morreram. Os outros reconheceram o seu pecado e arrependeram-se.
Então Moisés intercedeu por eles.
Deus disse-lhe: "Faze uma serpente de bronze e expõe-na num poste.
Aqueles que, sendo feridos, olharem para ela, viverão". Moisés
assim fez e todos os que, tendo sido picados, olhavam para a serpente de bronze,
ficaram sãos.
[Moisés morreu no topo do monte Nebo, à vista da Terra Prometida,
com 120 anos de idade.]
A História
de Saul
SAUL É PROCLAMADO REI DE ISRAEL
Samuel tinha envelhecido e seus filhos não lhe seguiam os conselhos.
Por isso, os israelitas disseram-lhe: "Dá-nos um rei como têm
as outras nações".
Samuel não gostou desse pedido. Consultou o Senhor e este disse-lhe:
"Faz o que eles pedem!"
Passado algum tempo, estando Samuel em Ramá, viu chegar junto de si um
filho de Cis, chamado Saul, da tribo de Benjamim. O Senhor disse-lhe: "Eis
o homem destinado para reinar sobre o meu povo!".
No dia seguinte, pela manhã, Samuel tomou um vaso de óleo, derramou-o
sobre a cabeça de Saul, beijou-o e disse: "Por esta unção,
o Senhor te faz príncipe da sua herança". Em seguida, convocou
o povo para apresentar-lhe o eleito de Deus. Assim que Saul apareceu na assembléia,
Samuel disse: "Olhai: foi aquele que Deus escolheu". Então
todos exclamaram: "Viva o rei!"
SAUL DESOBEDECE
A DEUS. DEUS REJEITA-O
Saul reinou durante 40 anos. A princípio, foi fiel a Deus e Deus deu-lhe
vitória sobre os amalecitas. Mas logo se tornou orgulhoso e deixou de
obedecer as ordens do Senhor.
Numa guerra contra os filisteus, Saul tinha a ordem de esperar a chegada de
Samuel antes de travar a batalha. Samuel devia oferecer um sacrifício
a Deus, para implorar a sua proteção. No sétimo dia, como
Samuel não chegava e o exército, cansado de esperar, começava
a dispersar-se, Saul ofereceu o sacrifício em vez do sumo-sacerdote.
Apenas tinha acabado quando Samuel chegou e lhe disse: Procedeste insensatamente!
Por isso, não serás rei por muito tempo!"
A ELEIÇÃO
DE DAVI
Deus disse a Samuel: "Enche de óleo o teu recipiente e vai à
casa de Isaí, em Belém, porque escolhi um dos seus filhos para
ser rei no lugar de Saul". Samuel foi a Belém. Isaí mostrou-lhe
primeiro o seu filho mais velho, que era alto e elegante. Mas o Senhor disse-lhe:
"Não repares para a sua elevada estatura. Não é esse
quem escolhi". Isaí apresentou-lhe sucessivamente os outros seis
filhos. Samuel disse-lhe: "O Senhor não escolheu nenhum deles. Não
tens mais nenhum?". Isaí respondeu: "Ainda falta Davi, o mais
novo, que anda a guardar as ovelhas". Disse-lhe Samuel: "Manda-o chamar".
Quando Davi chegou, o Senhor disse a Samuel: "Unge-o! É esse!".
Samuel tomou o vaso de óleo e ungiu Davi na presença de seus irmãos.
Desde então, repousou sobre Davi o espírito do Senhor.
A História
de Davi (Aprox. 1055-1015)
DAVI VENCE O GIGANTE GOLIAS
Estorou a guerra contra os filisteus e todos os irmãos de Davi tiveram
de pegar em armas.
Um dia, o pai de Davi mandou-o ao acampamento para obter notícias. Enquanto
ele estava lá, saiu um gigante do campo dos filisteus, que tinha seis
côvados e um palmo de altura. Usava capacete de metal, couraças
e tornozeleiras de bronze. A haste de sua lança era como o órgão
de um tear. Dirigindo-se ao exército de israel, Golias dizia: "Escolhei
entre vós um homem que ouse lutar comigo. Se ele me matar, seremos vossos
escravos; mas se eu o matar, sereis nossos escravos". E ninguém
ousava lutar com ele.
Então Davi apresentou-se e disse: "Irei combater com ele".
Tomou o cajado e escolheu na torrente cinco pedras bem lisas, metendo-as numa
sacola; depois com a funda na mão, avançou contra o filisteu.
O gigante, vendo Davi tão pequeno, gritou-lhe: "Serei eu algum cão
para vires contra mim armado com um pau?. Davi respondeu: "Tu vens contra
mim com espada, lança e escudo e eu avanço em nome do Senhor.
Hoje o Senhor vai entregar-te nas minhas mãos e toda a terra saberá
que há um Deus em Israel". Então Davi tirou uma pedra da
sacola e arremessou-a com a funda. A pedra foi cravar-se na fronte do filisteu
e o gigante caiu por terra. Davi correu e, tirando-lhe a espada, cortou-lhe
a cabeça. Os filisteus fugiram aterrorizados e os israelitas matou-os
em grande quantidade.
MAGNANIMIDADE
DE DAVI
Depois de ter matado o filisteu, Davi voltou com Saul. Por toda a parte as mulheres
saíam ao seu encontro, cantando: "Saul matou mil e Davi matou dez
mil". Essa preferência irritava o rei. Um dia, enquanto Davi tocava
harpa na sua presença, Saul atirou por duas vezes a lança contra
ele, para o matar, mas Davi esquivou-se ao golpe. Desde então Saul teve
medo de Davi porque via que o Senhor estava com ele. Tendo Davi alcançado
nova vitória na guerra contra os filisteus, aumentou a inveja de Saul.
Davi pôs-se, então, em fuga e, com alguns de seus companheiros
mais fiéis, refugiou-se no deserto.
Saul perseguiu-o com 3 mil homens. Um dia, Davi entrou sem ruído na tenda
de Saul enquanto este dormia. Abisai aconselhava-o a matar o rei naquela oportunidade,
mas Davi recusou-se dizendo: "Quem poderá levantar a mão
contra o ungido do Senhor sem cometer crime?". Contentou-se em levar a
lança e a taça do rei. Em seguida, de uma colina vizinha, gritou
a Abner, general de Saul: "Abner, por que não guardaste o teu rei
e senhor? Vê agora onde está a lança e a taça do
rei!". Saul reconheceu a voz de Davi e ficou muito arrependido.
Algum tempo depois, Saul travou batalha com os filisteus nos montes de Gelboé.
O seu exército foi derrotado e Saul ficou gravemente ferido. Então
disse ao escudeiro: "Desembainha a espada e mata-me!". Como o escudeiro
hesitasse, Saul deixou-se cair sobre a própria espada e morreu.
DAVI É
PROCLAMADO REI
Então Davi consultou o Senhor, que lhe disse: "Sobe a Hebron".
Os homens de Judá o acolheram bem e deram-lhe a unção real.
Entretanto, Abner, general de Saul, elevou ao trono Isboset, filho de Saul.
Só ao fim de sete anos e seis meses depois da morte de Abner e de Isboset
os anciãos das tribos de Israel foram procurar Davi em Hebron e o reconheceram
como rei. Logo que subiu ao trono, Davi pôs-se à frente de seus
guerreiros e marchou sobre Jerusalém que estava então em poder
dos jebuseus. Conquistou a fortaleza de Sião, estabeleceu nela a sua
residência e chamou-lhe cidade de Davi.
[Hábil e valente guerreiro, Davi venceu diversas guerras. Bateu os filisteus,
submeteu os moabitas, os sírios, os idumeus e os amonitas. O seu reino
estendia-se do Eufrates até o Egito.]
DAVI ORGANIZA
O CULTO DIVINO
Davi mandou construir na colina de Sião uma tenda magnífica para
a celebração do culto. Para lá foi transportada a arca
da aliança no meio de um cortejo imponente. Os sacerdotes levaram a arca.
Grande número de cantores e músicos abrilhantavam a cerimônia.
O próprio Davi tocava harpa diante da arca.
Depois de colocar a arca no novo tabernáculo, Davi organizou o culto
divino. Distribuiu os sacerdotes em 24 classes encarregadas do serviço
divino, por turnos, cada qual por uma semana. Escolheu também 4 mil levitas
para executar os cânticos sagrados e acompanhá-los com instrumentos.
Estes cânticos têm o nome de Salmos, isto é, cânticos
de louvor.
Davi também pensava em construir um templo ao Senhor. Mas Deus mandou-lhe
dizer pelo profeta Natan: "Não serás tu que me construirás
uma casa mas sim Salomão, teu filho. Eu firmarei para sempre o seu trono.
Serei para ele um pai e ele será para mim um filho".
REVOLTA DE ABSALÃO
Davi tinha um filho, chamado Absalão, que organizou uma conspiração
contra ele e, tendo-se proclamado rei em Hebron, marchou sobre Jerusalém.
Davi só teve tempo de fugir. Acompanhado de seus servos fiéis,
saiu da cidade, atravessou o Cedron e subiu o monte das Oliveiras, descalço
e com a cabeça coberta. Depois, refugiou-se para além do Jordão.
Absalão perseguiu o rei travou-se uma batalha. Davi disse a seu general:
"Poupai o meu filho Absalão!". O exército de Absalão
foi derrotado e ele fugiu num cavalo. Ao passar por baixo de um carvalho frondoso,
seu cabelo prendeu-se nos ramos da árvore e ele ficou suspenso, enquanto
o animal continuava a correr. Levaram a notícia a Joab. Este tomou três
lanças e traspassou com elas o coração de Absalão.
Depois vieram os escudeiros e acabaram de o matar.
Quando lhe anunciaram o resultado da batalha, Davi perguntou: "Meu filho
Absalão está vivo?". O mensageiro respondeu: "Oxalá
tenham a mesma sorte todos os inimigos do rei!". Davi, cheio de tristeza,
repetia a chorar: "Meu filho Absalão! Absalão filho meu!
Quem me dera ter morrido por, Absalão meu filho, filho meu Absalão!".
[Chegando ao término de sua vida, Davi mandou dar a unção
real a seu filho Salomão. Morreu com 70 anos de idade, depois de ter
reinado 40 anos em Israel (aprox. 1015 d.C.).]
A História de Salomão
(aprox. 1015-975 a.C.)
SALOMÃO PEDE A DEUS A SABEDORIA
Salomão sucedeu a seu pai Davi no trono. Uma noite, o Senhor apareceu-lhe
em sonhos e disse-lhe: "Pede-me o que quiseres e eu te darei". Salomão
respondeu: "Senhor, meu Deus, fizeste-me rei, a mim vosso servo! Sou ainda
muito novo e inexperiente e o vosso povo é numeroso. Dai-me um coração
dócil para que eu saiba governar". O Senhor disse-lhe: "Não
me pedes longos dias, nem riquezas, mas sabedoria para bem julgar. Vou atender
o teu desejo. Dou-te sabedoria e inteligência como ninguém a teve,
nem jamais terá. Dou-te também o que não me pediste: riquezas
e glória. E se tu guardares os meus preceitos, como os guardou teu pai
Davi, dar-te-ei longos anos de vida".
SALOMÃO
JULGA SABIAMENTE
Pouco tempo depois, apresentaram-se duas mulheres a Salomão. Uma disse:
"Senhor, eu e esta mulher habitávamos na mesma casa. Durante a noite,
estando a dormir, sufocou o filho e, aproveitando-se do meu sono, pôs
o meu filho adormecido junto de si e colocou aos meus pés o seu filho
que estava morto. De manhã, olhando de perto para ele, vi que não
era o meu filho". A outra mulher interrompeu: "Não, o meu filho
é o que está vivo, o teu morreu". A primeira replicou: "Não,
o teu é que morreu. O que está vivo é meu". E continuaram
a disputar.
Então o rei disse: Trazei uma espada, dividi em duas partes o menino
que está vivo e dai metade a cada uma!". Cheia de amor ao seu filho,
a mulher cujo filho estava vivo suplicou: "Senhor, peço-vos que
lhes deis a ela o menino vivo e não o mateis!". A outra, pelo contrário,
dizia: "Não seja para mim nem para ti, mas divida-se". Então
Salomão disse: "Dai à primeira o menino vivo porque é
ela a verdadeira mãe". E assim todo o povo de Israel soube que a
sabedoria de Deus assistia ao rei para julgar com retidão.
A CONSTRUÇÃO
DO TEMPLO
No décimo ano do seu reinado, Salomão enviou embaixadores a Irã,
rei de Tiro, para lhe dizer: "O Senhor deu-me paz com todos os meus vizinhos
e penso em lhe edificar uma casa. Manda-me, pois, cortar no Líbano cedros
e ciprestes!". Irã consentiu e fez-se uma convenção
entre os dois reis. Salomão escolheu milhares de operários em
todo o Israel e os mandou, por turnos, trabalhar no Líbano com a gente
de Irã. Além disso, tinha milhares de carreteiros e cabouqueiros
no monte; era lá que se aparelhavam as pedras. Terminada a construção,
que levou 7 anos, Salomão convocou os príncipes do povo e ordenou
que se transladasse a arca para o templo, com grandioso cortejo. Cento e vinte
sacerdotes tocavam trombetas; os levitas cantavam salmos ao som de instrumentos
musicais. Imolaram-se inúmeras ovelhas e bois. Colocada a arca no santo
dos santos, uma nuvem encheu a casa do Senhor.
Salomão prostrou-se diante do altar dos holocaustos e disse: "Senhor,
Deus de Israel, se os céus não vos podem conter, muito menos esta
casa que eu vos edifiquei. Todavia, dignai-vos a lançar sobre ela um
olhar de misericórdia e ouvi a todos aqueles que orarem neste lugar".
Então desceu o fogo do céu e consumiu as vítimas. Depois
o Senhor apareceu a Salomão e disse: "Nesta casa estarão
sempre os meus olhos e o meu coração".
DESCRIÇÃO
DO TEMPLO
O templo de Salomão reproduzia a planta do tabernáculo, mas em
maiores dimensões. O edifício tinha 60 côvados de comprimento,
20 de largura e 30 de altura. Do lado do Oriente erguia-se um pórtico.
Dos outros três lados, tinha encostada uma construção de
18 côvados, dividida em 3 andares, com compartimentos para guardar o mobiliário
do templo. O interior compreendia o santo e o santo dos santos. O santo tinha
40 côvados de comprimento; o santo dos santos, que se prolongava do lado
do Oriente, tinha 20 côvados de comprimeto, 20 de largura e 20 de altura.
As paredes e os tetos do santuário eram guarnecidos de tábuas
de cedro e ornados com flores, palmas e querubins esculpidos, tudo revestido
de ouro. O próprio pavimento era de lâminas de ouro. Em volta das
construções havia dois átrios: um no interior reservado
aos sacerdotes e outro no exterior para o povo.
A RAINHA DE SABÁ
VISITA SALOMÃO
Acabada a construção do templo do Senhor, Salomão construiu
também para si um esplêndido palácio. O trono era de ouro
e marfim e a baixela era do mais fino ouro. Os seus navios iam buscar nos países
mais longíquos ouro e objetos preciosos de toda a espécie, como
dentes de elefante e pavões. Em riqueza, excedeu todos os reis da terra.
De todos os países do mundo corria gente para ver Salomão e todos
se honravam em lhe oferecer presentes. A rainha de Sabá, na Arábia,
veio também a Jerusalém com grande comitiva para conhecer a sabedoria
de Salomão. Quando o ouviu e viu toda a sua magnificência, ficou
encantada e disse: "Na verdade, a tua sabedoria e a tua glória ultrapassam
a fama que tinha chegado até mim. Bem-aventurados os servos que estão
sempre contigo e ouvem as palavras da tua sabedoria! Bendito seja o Senhor,
teu Deus, que te colocou sobre o trono de Israel". E ofereceu-lhe ricos
presentes de ouro e pedras preciosas antes de voltar para o seu país.
PECADO DE SALOMÃO
Salomão desposou mulheres pagãs que o levaram a cair na idolatria,
quando já era velho. O Senhor mandou-lhe dizer: "Porque transgrediste
os meus mandamentos, eu dividirei o teu reino. Contudo, em atenção
ao meu servo Davi, deixarei uma parte dele a teu filho". Salomão
reinou 40 anos em Jerusalém.
O
Reino de Israel (aprox. 975-722 a.C.)
DEZ TRIBOS SE SEPARAM DE ROBOÃO
Depois da morte de Salomão, os chefes das tribos foram ter com Roboão
e disseram-lhe: "Teu pai impôs-nos um jugo duríssimo. Suaviza
um pouco esse fardo e nós te serviremos". Roboão respondeu:
"Voltai dentro de três dias". Depois foi se aconselhar com os
anciãos que assistiam a seu pai. Estes disseram-lhe: "Se fores condescendente
com o povo, ele te servirá sempre". Roboão desprezou este
conselho para seguir o dos novos, do seu tempo, e respondeu ao povo: "Tornarei
o vosso jugo ainda mais pesado! Meu pai bateu-vos com azorragues, mas eu vos
flagelarei com escorpiões!".
Então dez tribos escolheram Jeroboão para rei e constituíram
o reino separado de Israel, que teve por primeira capital Siquém e mais
tarde Samaria. As tribos de Judá e Benjamim permaneceram fiéis
aos descendentes de Davi e formaram o reino de Judá, com capital em Jerusalém.
JEROBOÃO
INTRODUZ O CULTO AOS ÍDOLOS
Jeroboão levantou dois bezerros de ouro, um em Betel, ao sul e outro
em Dan, na parte setentrional. Ao mesmo tempo, proibiu ao povo que voltasse
a Jerusalém para adorar o Senhor. Levantou templos e pôs neles
sacerdotes que não pertenciam à tribo de Levi. E assim levou o
povo ao culto dos ídolos. Deus disse-lhe pelo profeta Aías: "Exterminarei
a tua casa porque me rejeitaste".
DEUS ENVIA PROFETAS
Para levar os reis e o povo a melhores sentimentos, Deus enviou-lhes os seus
profetas, que pregavam a penitência pela palavra e pelo exemplo, anunciavam
os castigos iminentes e prediziam muitos passos da vida do futuro Salvador.
Deus concedia-lhes o dom de operarem muitos milagres em confirmação
de suas palavras.
O REINO DE ISRAEL
SUCUMBE (aprox. 975-722 a.C.)
O reino de Israel durou 253 anos. Teve 19 reis: Jeroboão I, Nadab, Baasa,
Ela, Zambri, Amri, Acab, Ocozias, Jorão, Jeú, Joacaz, Joás,
Jeroboão II, Zacarias, Selum, Manaém, Faceia, Faceias e Oséias.
Os israelitas não ouviram as advertências que Deus lhes fazia pelos
profetas. Foi por isso que o Senhor, irritado, os abandonou. Salmanasar, rei
da Assíria, tendo conhecimento de que Oséias, ultimo rei de Israel,
preparava uma revolta, cercou a Samaria com um grande exército. Três
anos depois, Sargon, seu sucessor, apoderou-se da cidade, destruiu-a completamente
e levou a maior parte dos habitante cativos para a Assíria (aprox. 721
a.C).
OS SAMARITANOS
O rei da Assíria mandou colonos pagãos
para a terra devastada de Israel. Estes aliaram-se com os poucos israelitas
que lá ficaram e desta aliança proveio a raça mista dos
samaritanos. Ao culto dos ídolos pagãos, os samaritanos juntavam
a adoração ao verdadeiro Deus, em honra do qual edificaram um
templo no monte Garizim, perto de Siquém. Viveram sempre em inimizade
com os judeus.
[Entre os profetas que apareceram no reino de Israel, os mais célebres
são Elias, Eliseu e Jonas.]
Os Profetas
Elias e Eliseu
DEUS ENVIA O PROFETA ELIAS
Acab, sétimo rei de Israel, foi mais ímpio que todos os seus predecessores.
Tomou por mulher uma pagã, Jezabel, filha do rei de Sidon; adorou o falso
deus Baal, edificou-lhe um templo na Samaria servido por 450 sacerdotes idólatras
e mandou matar os sacerdotes do Senhor.
Então Deus mandou o profeta Elias, que se apresentou diante do rei e
disse: "É tão certo como Deus vive que não haverá
orvalho nem chuva em Israel enquanto eu não o disser!". Depois o
Senhor disse a Elias: "Vai-te esconder nas margens da torrente de Carit.
Beberás água da torrente e os corvos te alimentarão nesse
lugar". Elias obedeceu. Todos os dias, de manhã e à tarde,
os corvos lhe levavam pão e carne e ele bebia água da torrente.
ELIAS E A VIÚVA
DE SAREPTA
Passado algum tempo, a torrente secou. Então o Senhor disse a Elias:
"Vai para Sarepta, na terra dos Sidônios, porque ordenei a uma viúva
dessa cidade que te sustente". Elias foi. À porta da cidade, viu
uma mulher que apanhava lenha e disse-lhe: "Busque-me um pouco de água
e um pedaço de pão". Ela respondeu: "Só tenho
um pouco de farinha numa panela e um pouco de azeite no recipiente. Cozinharei
esses restos para mim e para meu filho, senão morremos de fome".
Elias disse-lhe: "Não te preocupes. Com o punhado de farinha, faze-me
um pãozinho cozido debaixo da cinza; depois farás outro para teu
filho. Porque esta é a Palavra do Senhor: 'A farinha que está
na panela não faltará nem diminuirá no recipiente o azeite
até o dia em que o Senhor faça cair chuva sobre a terra'".
A pobre viúva fez como Elias lhe tinha dito e não faltou a farinha
na panela, nem diminuiu o azeite no recipiente.
ELIAS CONVOCA
O POVO
Decorreram três anos e seis meses sem chover. A fome era extrema. Então
o Senhor disse a Elias: "Vai apresentar-te diante de Acab para eu fazer
cair chuva sobre a terra". Elias foi procurar Acab e disse-lhe: "Convoca
todo o povo no monte Carmelo, incluindo os 450 sacerdotes de Baal". Acab
assim o fez e foi também ao Carmelo. Então Elias disse: "Eu,
o profeta do Senhor, estou só; os profetas de Baal são 450. Dêem-nos
dois bois: eles escolherão um, cortá-lo-ão em pedaços
e depois de os disporem sobre o altar, não lhes lançarão
fogo. Eu farei o mesmo com o outro. Vós invocareis o vosso deus e eu
invocarei o Senhor. O que acender a fogueira será o verdadeiro Deus".
Eles disseram: "Que assim o seja".
ELIAS CONFUNDE
OS SACERDOTES DE BAAL
Os sacerdotes de Baal fizeram os seus preparativos e puseram-se a gritar desde
manhã até o meio-dia: "Baal, ouve-nos". Mas Baal não
respondia. Elias disse-lhes: "Gritai mais alto. Naturalmente, o vosso Baal
está a conversar ou talvez esteja na estalagem ou em viagem. Quem sabe
se não está a dormir? Gritai mais alto para o acordar". Eles
puseram-se a gritar cada vez mais, mas Baal nunca respondia.
Então Elias tomou doze pedras, fez com elas um altar e cavou um buraco
em volta. Depois cortou o boi em pedaços, colocou-os sobre a lenha e
regou até que o buraco ficasse cheio de água. Em seguida, orou
a Deus, dizendo: "Senhor, mostrai hoje que sois o verdadeiro Deus".
Imediatamente o fogo caiu do céu e consumiu o holocausto, a lenha e até
as pedras, além de absorver toda a água do buraco. O povo prostrou-se
com o rosto por terra, gritando: "O Senhor é o verdadeiro Deus!
O verdadeiro Deus é o Senhor!". O céu não tardou a
escurecer e caiu uma chuva torrencial.
ELIAS PREDIZ
A MORTE DE ACAB
Um homem, chamado Nabot, possuía uma vinha em Jezrael, junto ao palácio
de Acab. Este disse-lhe: "Cede-me a tua vinha que em troca eu te dou outra
melhor ou, se preferes, o seu valor em dinheiro". Nabot respondeu: "Deus
me livrre de abandonar a herança de meus pais!". Acab foi embora
muito zangado. Quando Jezabel, sua mulher, soube desta recusa, escreveu aos
anciãos da cidade: "Arranjai duas testemunhas que digam que Nabot
blasfemou. Depois levai-o para fora da cidade e apedrejai-o". Os anciãos
executaram esta ordem. Nabot foi apedrejado e Acab tomou posse da vinha.
Elias apresentou-se diante dele e disse: "Eis a Palavra do Senhor: 'Os
cães lamberão o teu sangue onde lamberam o de Nabot e Jezabel
será devorada pelos cães!".
Três anos depois, Acab foi gravemente ferido numa batalha contra o rei
da Síria. Levaram-no num carro e à tarde ele morreu. Ao lavarem
o carro, os cães vieram lamber o seu sangue.
Algum tempo depois, o novo rei Jeú entrou na cidade de Jezrael. Jezabel
estava à janela toda pintada e enfeitada. Jeú viu-a e disse: "Precipitai-a
daí abaixo". Assim fizeram. Jezabel foi esmagada pelos cavalos e
devorada pelos cães.
ELISEU RECEBE A SUCESSÃO DE ELIAS
Elias, sabendo que o Senhor queria levá-lo deste mundo, foi com seu discípulo
Eliseu para a margem do Jordão. De repente, um carro de fogo, com cavalos
também de fogo, separou-os um do outro e Elias foi arrebatado ao céu
num turbilhão. Eliseu via-o e gritava: "Meu pai! Meu pai!".
Mas logo tudo desapareceu.
Eliseu tomou o manto que Elias deixara cair e retirou-se. Chegando ao Jordão,
bateu com o manto nas águas e imediatamente elas se dividiram para o
deixar passar. À vista deste prodígio, os discípulos do
profeta disseram: "O espírito de Elias repousou sobre Eliseu".
Eliseu foi para Betel. Enquanto subia para a cidade, uns rapazes seguiram-no
e insultavam-no, dizendo: "Sobe, ó calvo! Sobe, ó calvo!".
O profeta ameaçou-os em nome do Senhor. No mesmo instante, saíram
da floresta dois ursos que devoraram 42 destes rapazes.
A História
do Profeta Jonas
JONAS NÃO QUER OBEDECER A DEUS
Jonas profetizou no reino de Israel depois da morte de Eliseu. O Senhor disse-lhe:
"Vai pregar à grande cidade de Nínive porque a sua maldade
chegou ao extremo".
Jonas tentou fugir do Senhor. Chegou a Jope e encontrou um navio que partia
para Társis. Pagou a passagem e embarcou.
JONAS É
LANÇADO AO MAR
Deus permitiu que uma forte tempestade pusesse o navio em perigo de se fazer
em pedaços. Os marinheiros tiveram medo e cada um invocava o seu deus.
Entretanto, Jonas, deitado no porão, dormia profundamente. O capitão
despertou-o e disse-lhe: "Como podes dormir? Levanta-te e invoca o teu
Deus para que não pereçamos". Em seguida, lançaram
sortes para saberem qual deles era o responsável por aquela desgraça.
A sorte caiu em Jonas, que disse: "Sei que foi por minha causa que nos
sobreveio esta tempestade!".
Os marinheiros fizeram os maiores esforços para alcançar a terra,
mas foi em vão. Então, invocando o Senhor, disseram: "Senhor,
não nos deixeis morrer por causa deste homem". E atiraram Jonas
ao mar. No mesmo instante, o mar serenou. O Senhor mandou um enorme peixe, que
engoliu Jonas. Jonas esteve no ventre do peixe durante três dias e três
noites e pedia ao Senhor seu Deus que o salvasse. O Senhor mandou então
ao peixe que o vomitasse na praia.
OS HABITANTES
DE NÍNIVE FAZEM PENITÊNCIA
De novo o Senhor disse a Jonas: "Vai a Nínive!". Desta vez,
Jonas foi e andou pelas ruas da cidade um dia inteiro, clamando: "Daqui
a 40 dias Nínive será destruída". Os ninivitas creram
em Deus, fizeram jejum e vestiram-se de luto, desde o maior ao mais pequeno.
Deus teve compaixão deles e perdoou-lhes.
O SENHOR REPREENDE
JONAS
Jonas saiu da cidade e sentou-se para ver o que aconteceria. E Deus fez crescer
uma hera para lhe oferecer sombra. Vendo a planta, Jonas ficou cheio de alegria.
Mas, na manhã seguinte, Deus enviou um bicho que roeu a raiz da hera
e ela secou. O sol bateu em cheio na cabeça de Jonas e o profeta, cansado
de sofrer, chamou a morte. Deus disse-lhe: "Tu reclamas por causa desta
hera que não plantaste, que nasceu numa noite e numa noite morreu. E
eu não hei de perdoar a grande cidade de Nínive, onde há
mais de 120 mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita
da esquerda e onde vive grande número de animais?".
O Reino de Judá
(aprox. 975-588 a.C.)
[Desde o ano 975 a.C., data da separação das dez tribos até
o fim do reino em 588, vinte reis - todos descendentes de Davi - governaram
o reino de Judá. Só alguns foram fiéis a Deus. Tais foram:
Josafá (914-889), Joatam (753-738), Ezequias (723-693) e Josias (637-607).
Por fim, tanto o rei como o povo tornaram-se infiéis e Deus deixou de
os proteger. Nabucodonosor, rei da Babilônia, tomou e destrui Jerusalém
e levou em cativeiro para a Babilônia o rei Sedecias e a população.
Os maiores profetas que apareceram no reino de Judá foram Isaías
e Jeremias.]
ISAÍAS ANUNCIA O MESSIAS
Isaías foi enviado por Deus no último ano de Osias (804-753) e
ainda exerceu o ministério profético durante o reinado dos três
sucessores deste rei. Com inteira liberdade e nos têrmos mais vivos, repreendeu
o povo escolhido sobre suas graves prevaricações e a sua odiosa
ingratidão para com Deus. Ameaçou-o com os severos castigos do
Senhor e empregou todos os esforços para o reconduzir a Deus. Mas o povo
não quis converter-se e, assim, foi correndo para a sua perdição.
As professias messiânicas de Isaías têm especial importância.
Ele prediz o nascimento virginal do Messias, a sua divindade, os seus milagres,
a sua paixão e morte, seguidas da sua glorificação. Os
vaticiínios são tão claros e precisos, que se diria ser
ele um evangelista a contar a vida de Jesus:
"Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e seu
nome será Emanuel, isto é, Deus conosco" (Is 7,14)
"Nasceu para nós um menino e foi-nos dado um filho: foi posto o
principado sobre o seu ombro e ele será chamado Admirável, Conselheiro,
Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz" (Is 9,5)
"Dizei aos corações receosos: não temais, o próprio
Deus virá para nos salvar. Então se abrirão os olhos dos
cegos e se desempidirão os ouvidos dos surdos, o coxo saltará
como um cervo e desatar-se-á a língua dos mudos" (Is 35,4.6)
"Foi desprezado como o último dos homens, foi um homem de dores.
Tomou sobre si as nossas fraquezas e dores. Foi ferido por causa de nossos pecados.
Foi despedaçado por causa de nossos crimes. O castigo que nos era devido
caiu sobre Ele. Fomos curados graças às suas feridas. Ofereceu-se
como vítima em sacrifício voluntário, como ovelha que é
levada ao matadouro e como cordeiro diante de quem o tosquia; guardou silêncio
e nem sequer abriu sua boca" (Is 53,3.7)
"Será invocado pelas nações e será glorioso
o seu sepulcro!" (Is 11,10)
ISAÍAS
PREDIZ A RUÍNA DO REINO
No 14º ano do seu reinado, o rei Ezequias caiu gravemente doente. Deus
mandou-o avisar pelo profeta Isaías de que estava próximo o seu
fim. Ezequias pediu a Deus que lhe prolongasse a vida. Comovido com esta súplica,
Deus voltou atrás e mandou-lhe dizer por Isaías que lhe daria
ainda quinze anos de vida.
Para mostrar que era verdadeira a sua predição, Isaías
fez retroceder a sombra do palácio em 10 graus no quadrante solar.
O rei ficou curado mas cometeu o erro de receber uma embaixada do rei da Babilônia,
então em guerra com Senaquerib, rei da Assíria.
Deus mandou Isaías dizer ao rei: "Dias virão em que tudo
o que teus pais juntaram até hoje se levará para a Babilônia
e os teus descendentes ficarão cativos no palácio do rei da Babilônia".
JEREMIAS ASSISTE
À RUÍNA DO REINO
Jeremias exerceu o ministério profético durante os últimos
cinco reis de Judá, até o exílio da Babilônia. Inacessível
ao temor, repreendia o povo pelos seus pecados e anunciava a próxima
ruína da cidade santa. Mas ninguém o ouvia, por isso Deus disse
ao povo pela sua boca: "Já que não escutastes as minhas palavras,
mandarei procurar todos os povos do norte e irei junto de meu servo Nabucodonosor,
rei da Babilônia. Mandá-los-ei vir contra esta terra e contra os
seus habitantes! Toda esta terra ficará deserta e os seus habitantes
ficarão sujeitos ao rei da Babilônia durante 70 anos".
Pela primeira vez, no tempo do rei Joaquim, Nabucodonosor, rei da Babilônia,
foi à frente de um numeroso exército cercar Jerusalém e
apoderou-se da cidade (606 a.C.). Levou o rei cativo para a Babilônia
com grande número de vassalos. Foi o princípio dos 70 anos do
cativeiro da Babilônia (606-536 a.C.).
Algum tempo depois, Joaquim conseguiu regressar ao seu reino, mas, três
anos mais tarde, revoltou-se contra o rei da Babilônia. Então Nabucodonosor
voltou a cercar Jerusalém e Joaquim morreu durante o cêrco. Jeconias,
seu filho e sucessor, foi obrigado a render-se ao fim de três meses e
foi deportado para a Babilônia com 10 mil vassalos (598 a.C.).
Por sua vez, Sedecias tornou-se rei de Judá, mas desertou. O rei da Babilônia
correu sobre Jerusalém, destruiu a cidade e o templo, e deportou o resto
da população e o rei para a Babilônia. Deixou apenas o povo
humilde dos campos, vinhateiros e lavradores. Assim acabou o reino de Judá
(588 a.C.).
JEREMIAS ANUNCIA A VINDA DO MESSIAS
O profeta Jeremias ficou na sua terra. Foi sobre
as ruínas da cidade santa que fez ouvir as suas Lamentações.
O Senhor revelara-lhe, porém, que 70 anos depois o povo regressaria.
E no longínquo futuro ele via o Redentor e anunciava-o nestes termos:
"Eis que vêm os dias em que suscitarei a Davi um germe justo. Será
rei e reinará. Será sábio e praticará a eqüidade
e a justiça na terra. Eis o seu nome: O Senhor, nosso Justo!" (Jr
23,5-6).
O Cativeiro
da Babilônia
O PROFETA EZEQUIEL
O Senhor levou Ezequiel ao meio de um campo cheio de ossos e disse-lhe: "Dize
aos ossos secos que voltem à vida". Ezequiel assim fez. Ouviu-se
um ruído, os ossos aproximaram-se um dos outros, pondo-se cada um na
sua juntura e revestiram-se de músculos e de carne. Mas faltava-lhes
o espírito da vida. Então o Senhor disse: "Dize ao espírito:
'vem, ó espírito de vida, sopra sobre estes mortos para que eles
revivam'". Ezequiel assim fez e o espírito de vida animou os ossos
e levantou-se um exército inumerável.
O Senhor disse: "Estes ossos são a casa de Israel. Eles dizem: 'secaram
os nossos ossos, pereceu a nossa esperança, estamos perdidos!'. Mas eu
declaro: abrirei os vossos túmulos e vos reconduzirei à terra
de Israel. Infundirei em vós o meu espírito e vós vivereis;
e então sabereis que eu sou o Senhor!" (Ez 37,1.14).
O regresso de Israel à vida nacional prefigurava a futura ressurreição
dos mortos.
DANIEL RECUSA-SE
A TRANSGREDIR A LEI
Daniel e seus companheiros Ananias, Mizael e Azarias eram do grupo dos jovens
da linhagem de príncipes que o rei da Babilônia queria aproveitar
para o seu serviço. Mandou ensinar-lhes a escrita e a língua dos
caldeus e quis que lhes servissem iguarias da sua mesa e vinho que ele próprio
bebia.
Como não queria ofender a Deus, comendo alimentos proibidos, Daniel pediu
ao mordomo que lhe desse de outros, assim como aos seus três amigos. O
mordomo disse-lhe: "Tenho medo do rei, meu amo. Se ele vos vê mais
magros que os outros jovens da vossa idade, isso custar-me-á a vida".
Daniel respondeu: "Fazei uma experiência: durante dez dias dai-nos
somente legumes como comida e água como bebida e depois vereis quem tem
melhor aspecto: nós ou os outros jovens, e procedereis como entenderdes".
O mordomo consentiu na experiência. Passados os dez dias, os quatro jovens
tinham melhor aspecto que os outros. Por isso, continuou a dar-lhes somente
legumes e água. Deus deu-lhe ainda mais inteligência e sabedoria.
Ao fim dos três anos, foram à presença do rei e ele achou-os
mais sábios e entendidos que os outros e admitiu-os ao seu serviço.
DANIEL INTERPRETA
UM SONHO
Nabucodonosor estava em seu segundo ano de reinado quando teve um sonho. Mas,
ao acordar, foi-lhe impossível reconstituir a visão. Convocou
os magos e adivinhos para lhe dizerem que sonho era e qual a sua explicação.
Os adivinhos disseram-lhe: "Não há homem no mundo que possa
dizer qual foi o sonho do rei". Muito irritado, o rei condenou-os à
morte.
Daniel e seus companheiros recorreram à oração. E, de noite,
Deus deu-lhe a conhecer a visão misteriosa. Daniel disse ao rei: "Só
Deus que está nos céus revela os segredos. Ele mostrou-vos o que
vai acontecer. No vosso sonho, ó rei, vistes uma grande estátua
que tinha a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre
e as coxas de cobre, as pernas de ferro e os pés metade de ferro e metade
de barro. De repente, uma pedra se desprendeu do monte e foi bater nos pés
da estátua. E, enquanto esta ficava reduzida a pó, a pedra transformava-se
num grande monte que encheu toda a terra. Eis a explicação do
vosso sonho: vós sois o rei dos reis. O Deus do céu deu-vos o
império universal - a cabeça de ouro sois vós. Depois de
vós, levantar-se-á outro reino, menor que o vosso - que será
de prata - e um terceiro - que será de cobre - e mandará em toda
a terra. O quarto reino será como ferro: assim como o ferro quebra todas
as coisas, assim ele esmagará todos os outros. Mas, ao mesmo tempo, será
fraco pois vistes os pés metade de ferro e metade de barro. Enfim, o
próprio Deus suscitará um reino que dominará todos os outros
e que subsistirá eternamente". Então o rei disse: "O
teu Deus é verdadeiramente o Deus supremo: é Ele quem revela os
mistérios". E elevou Daniel às maiores honras e deu-lhe magníficos
presentes.
DEUS PROTEGE
OS TRÊS AMIGOS DE DANIEL
Nabucodonosor mandou erigir uma estátua de ouro, com 66 côvados
de altura e ordenou que todos a adorassem. Todos se prostraram, exceto Ananias,
Mizael e Azarias.
Disse-lhes o rei: "Se não prostrares, sereis lançados numa
fornalha ardente!". Eles responderam: "O nosso Deus pode tirar-nos
da fornalha e, mesmo que não o faça, ficai sabendo, ó rei,
que nunca adoraremos a vossa estátua!". Então o rei ordenou
que aquecessem a fornalha sete vezes mais que de costume e que lançassem
nela os jovens hebreus, vestidos e amarrados. Mas um anjo desceu à fornalha
para proteger os jovens. E eles passeavam por entre as chamas, cantando louvores
ao Senhor.
Ao ver isto, o rei ficou admirado e disse: "Não lançamos
na fornalha três homens amarrados? Mas eu vejo quatro homens soltos passeando
no meio das chamas e o quarto parece um anjo". Aproximou-se então
da fornalha e gritou: "Saí, servos do Deus excelso!". E eles
saíram com as vestes intactas e nem um só fio de cabelo se tinha
queimado.
Nabucodonosor exclamou: "Bendito seja o Deus deles, que enviou o seu anjo
e livrou os seus servos! Quem blasfemar este Deus seja punido de morte porque
não há outro que possa salvar assim".
Então o rei cumulou de honras Daniel e os seus companheiros e mandou
publicar este prodígio em todo o reino.
DEUS PROTEGE
DANIEL NA COVA DOS LEÕES
Dario, rei da Babilônia, mandou publicar este edito: "Durante 30
dias é proibido rezar, seja a quem for, exceto ao rei. Quem não
obedecer será lançado na cova dos leões".
Daniel continuou a orar, como de costume, e os seus inimigos o denunciaram ao
rei que, apesar de gostar de Daniel, teve de ceder. Daniel foi lançado
na cova dos leões. De madrugada, o rei foi à cova dos leões
e gritou: "Daniel, servo do Deus vivo, o teu Deus livrou-te dos leões?".
Daniel respondeu: "Ó rei, vivei eternamente! O meu Deus enviou o
seu anjo que fechou as bocas dos leões para que não me fizessem
mal".
Muito contente, o rei mandou retirar Daniel da cova dos leões e não
se encontrou nele a mais pequena ferida porque confiara em Deus.
Então, por ordem do rei, foram lançados na cova os denunciantes
com suas mulheres e filhos. E ainda não tinham atingido o fundo do pavimento
quando os leões se lançaram contra eles e os despedaçaram.
Então o rei mandou que todos os povos do reino soubessem: "Respeite-se
em todo o meu império o Deus de Israel porque ele é o Deus vivo,
o Deus que subsistirá por todos os séculos e o seu reino jamais
será destruído".
DANIEL PREDIZ
A VINDA DO MESSIAS
O arcanjo Gabriel, protetor do povo escolhido, disse a Daniel da parte de Deus:
"Presta atenção ao que vou te dizer: setenta semanas foram
decretadas sobre o teu povo e sobre a cidade santa. Desde a publicação
do decreto para se reconstruir Jerusalém até ao Rei Messias haverá
sete semanas e 62 semanas (de anos). E passadas as 62 semanas, o Messias será
morto e não será seu povo quem o negar. A cidade e o santuário
serão destruídos pelo capitão de um povo que há
de vir e o seu fim será a ruína total. Após o fim da guerra,
virá a desolação decretada".
Após
o Exílio da Babilônia
REGRESSO DO CATIVEIRO
No primeiro ano do seu reinado, Ciro, rei dos Persas, publicou um edito que
permitia aos exilados regressar à Judéia. Então 42 mil
judeus puseram-se a caminho, conduzidos por Zorobabel e pelo sumo-sacerdote
Josué. Ciro restitui-lhes também os vasos de ouro e prata que
Nabucodonosor tirara do templo.
Voltando a Jerusalém, reconstruíram no seu antigo lugar o altar
dos holocaustos e começaram a oferecer, de manhã e à noite,
os sacrifícios prescritos pela Lei. Depois lançaram os fundamentos
do novo templo. Para manter o zêlo do povo, Deus enviou os profetas Ageu
e Zacarias. Cerca de vinte anos depois, estava terminada a reconstrução
do edifício e celebrou-se a cerimônia de dedicação
com o maior regozijo de todo o povo.
Algum tempo depois, o sacerdote Esdras reconduziu uma segunda leva de exilados.
Mais tarde, Neemias, copeiro de rei dos persas, também obteve autorização
para voltar, com a missão de reerguer os muros de Jerusalém.
Foi nesta época, sob o governo de Neemias, que apareceu Malaquias, o
último dos profetas.
A JUDÉIA
SOB O DOMÍNIO DA SÍRIA
A Judéia passou para o domínio de Alexandre Magno ao mesmo tempo
que o império persa, do qual era dependente.
Depois da morte de Alexandre (323 a.C.), pertenceu sucessivamente aos reis do
Egito e da Síria.
Governados por sumos-sacerdotes, sob a suserania de soberanos estrangeiros,
os judeus gozaram da maior liberdade religiosa sob os reis egípcios.
Porém, não aconteceu o mesmo depois que Seleuco IV, rei da Síria,
se apoderou da Palestina. Este ordenou ao seu ministro Heliodoro que fosse a
Jerusalém roubar o tesouro do templo. Mas Deus evitou o sacrilégio
milagrosamente. Sobre um cavalo magníficamente ajaezado, apareceu um
cavaleiro que encheu de terror os companheiros do sacrílego. Heliodoro
foi calcado pelas patas do cavalo e, ao mesmo tempo, apareceram dois jovens,
de radiante beleza, que cercaram Heliodoro e começaram a açoitá-lo.
Heliodoro ficou sem poder se mexer e foi preciso levá-lo para fora do
templo.
No tempo de Antíoco IV, sucessor de Seleuco, estalou-se uma violenta
perseguição. Então grande número de judeus abandonaram
a sua religião. Mas também houve exemplos de heróica fidelidade
à lei de Deus.
O MARTÍRIO
DO ANCIÃO ELEAZAR
Eleazar era um velho de 90 anos e um dos mais considerados doutores da Lei.
Quiseram obrigá-lo a comer carne de porco. Alguns amigos ofereciam-se
para lhe trazer secretamente as carnes permitidas, suplicando-lhe que fingisse
comer a carne de porco. Por este modo, desejavam salvar-lhe a vida.
O velho respondeu: "Tal representação não é
própria da minha idade. Muitos jovens poderiam pensar que Eleazar, aos
90 anos, adotara os costumes pagãos e assim se deixariam seduzir; e eu
atrairia sobre a minha velhice a vergonha e a maldição. Ainda
que me livrasse agora dos suplícios dos homens, não escaparia
do castigo de Deus. Prefiro perder a vida e deixar aos jovens um exemplo de
fortaleza".
Arrastaram-no logo ao suplício e ele morreu, animosamente, pela sua fé.
O MARTÍRIO
DE UMA MÃE COM SEUS SETE FILHOS
Antíoco também mandou prender uma mãe e seus sete filhos
e queria obrigá-los a comer carne de porco.
O mais velho dos irmãos disse: "Preferimos morrer do que transgredir
a lei de Deus". Enfurecido, o rei mandou-lhe cortar a língua, arrancar
a pele da cabeça, cortar as mãos e os pés, e lançá-lo
vivo numa frigideira.
Durante esse horrível suplício, os outros irmãos exortavam-se
a morrer corajosamente. Então os carrascos tomaram o segundo e, depois
de lhe arrancarem a pele da cabeça, perguntaram-lhe se não preferia
comer a carne. Ele respondeu: "Não farei isso!". Quando estava
prestes a morrer, disse ainda: "Carrasco, podes arrancar-nos a vida presente,
mas no dia da Ressurreição, o Rei do mundo nos despertará
para a vida eterna".
O terceiro estendeu corajosamente as mãos e disse: "Recebi-as do
céu e tenho a firme esperança de que Deus as irá restabelecer-me
um dia". O rei não pôde deixar de admirar o valor deste jovem
que não temia tão grandes tormentos.
Os três irmãos seguintes mostraram a mesma constância. Quando
chegou a vez do mais novo, Antíoco prometeu fazê-lo rico e feliz
se ele abandonasse a lei de seus pais. Como o jovem não se deixasse persuadir,
o rei chamou a mãe, para a convencer de salvar-lhe a vida.
A mãe disse-lhe: "Meu filho, suplico-te que não temas o algoz.
Se morres, encontrar-te-ei com teus irmãos na vida eterna!". Enquanto
a mãe assim falava, a criança dizia aos algozes: "O que esperais?
Eu não obedeço a ordem do rei, mas à lei de Deus. E tu,
ó rei, não escaparás ao castigo de Deus todo-poderoso".
Louco de cólera, o rei o mandou torturar ainda mais cruelmente que os
demais irmãos.
Por fim, juntou-se na morte a mãe com os filhos.
A Judéia
no Tempo dos Macabeus (167-63 a.C.)
MATATIAS DEFENDE A RELIGIÃO
Vivia na cidade de Modin um sacerdote chamado Matatias. Foi se encontrar com
ele um enviado do rei para obrigar os judeus à apostasia. Matatias e
seus cinco filhos permaneceram constantes. Vendo um judeu aproximar-se do altar
para sacrificar aos ídolos, Matatias avançou contra ele e o matou.
Fez o mesmo com o enviado de Antíoco. Depois percorreu a cidade gritando
em alta voz:"Quem tiver o zêlo da lei, siga-me". E fugiu para
os montes com seus filhos.
Sob o seu comando, os judeus que permaneceram fiéis derrotaram as tropas
do rei. Em seguida, percorreram o país e destruíram todos os altares
erguidos aos ídolos.
Sentindo a morte aproximar-se, Matatias disse a seus filhos: "Meus filhos,
sede zeladores da Lei e dai o sangue pela aliança de vossos pais. Os
que têm esperança em Deus, nunca desfalecem. Judas, vosso irmão,
é valente: seja ele o vosso chefe". Depois abençoou-os e
morreu. Toda Israel chorou amargamente.
JUDAS MACABEU
DERROTA OS SÍRIOS
Depois de Matatias, assumiu o comando seu filho Judas, chamado Macabeu, cuja
valentia lhe conquistou grande fama. Antíoco, rei da Síria, enviou
contra ele um grande exército. Judas disse à sua gente: "Não
temais! O próprio Deus os esmagará à nossa vista".
Cheio de fé, lançou-se sobre os inimigos e derrotou-os. Em seguida,
conduziu o seu exército ao monte Sião. Desalojou os sírios
da fortaleza, que ainda ocupavam, e restabeleceu no templo o culto do Senhor.
Também mandou fortificar a montanha de Sião com altas muralhas
e fortes torres.
JUDAS MANDA OFERECER
SACRIFÍCIOS PELOS MORTOS
Depois de ganhar a batalha contra os sírios, encontraram-se sob as túnicas
dos soldados judeus mortos em combate, vários objetos oferecidos aos
ídolos, que a Lei proibia. Judas pediu ao Senhor que lhes perdoasse este
pecado.
Depois mandou fazer uma coleta que rendeu 12 mil dracmas de prata, que foi mandada
para Jerusalém a fim de se oferecer um sacrifício de expiação
pelos mortos. É, pois, um santo e salutar pensamento orar pelos mortos,
para que sejam livres dos seus pecados.
Judas morreu como herói na batalha contra os sírios. Seus irmãos
sepultaram-no em Modin e todo o povo de Israel o chorou e vestiu luto por ele
durante muito tempo.
A JUDÉIA
É REDUZIDA A PROVÍNCIA ROMANA
Depois da morte de Judas, passou o comando a seu irmão Jônatas
e, na morte deste, ao seu outro irmão, Simão. Este conseguiu libertar
completamente a sua pátria do domínio dos sírios. Tornou-se
independente e mandou cunhar moeda sua. A Judéia esteve em paz durante
a sua vida e ainda no reinado de seu filho e sucessor, João Hircano.
Depois deste, começou a decadência.
No ano 63 a.C., entrou na Judéia o general romano Pompeu, que se apoderou
de Jerusalém. Um estrangeiro chamado Herodes, filho do idumeu Antípatro,
obteve de Roma o título e a dignidade real (40 a.C.). Mandou reconstruir,
em grandiosas proporções, o templo de Zorobabel.
Foi neste terceiro templo que apareceu o Messias, nosso Senhor Jesus Cristo.
O Nascimento
de Jesus (6 a.C.)
A SAUDAÇÃO DO ANJO GABRIEL À VIRGEM
MARIA
Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Nazaré, à
uma virgem chamada Maria, desposada com um homem que se chamava José.
Entrando em sua casa, o anjo disse-lhe: "Ave Maria, cheia de graça;
o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres".
Ouvindo estas palavras, Maria ficou atemorizada e perguntava a si mesma o que
queria dizer esta saudação. O anjo disse-lhe: "Não
temais, Maria, pois achastes graça diante do Senhor. Eis que tereis um
filho e lhe dareis o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado
Filho do Altíssimo".
Maria disse ao anjo: "Como poderá ser isso se não conheço
varão?". O anjo respondeu: "O Espírito Santo descerá
sobre vós e te cobrirá com sua sombra. A Deus nada é impossível".
Então Maria disse: "Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim
segundo a vossa palavra!". E o anjo afastou-se dela.
MARIA VISITA
SUA PRIMA ISABEL
Maria foi logo, apressadamente, a uma cidade de Judá onde habitava sua
prima Isabel. Bastou Isabel receber a sua saudação para ficar
cheia do Espírito Santo e exclamar em voz alta: "Bendita sois vós
entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre! De onde me vem
ser visitada pela Mãe do meu Senhor? Bem-aventurada sois vós por
ter crido porque se cumprirão todas as coisas que vos foram ditas da
parte do Senhor".
Maria ficou com Isabel cerca de três meses e depois voltou para sua casa.
JESUS NASCE EM
BELÉM
Naquele tempo, apareceu um edito de César Augusto para que se recenseasse
todo o império. Todos iam registrar-se, cada um em sua cidade.
José, que era descendente de Davi, teve de ir para Belém, chamada
a Cidade de Davi, para lá se registrar junto com Maria. Enquanto estavam
nesta cidade, Maria teve o seu Filho primogênito. Embrulhou-o em paninhos
e deitou-o numa manjedoura pois não havia lugar para eles na hospedaria.
UM ANJO APARECE
AOS PASTORES
Nos campos da vizinhança, andavam pastores a guardar os seus rebanhos.
De repente, apareceu-lhes um anjo do Senhor e eles tiveram muito medo. Mas o
anjo disse-lhes: "Não temais! Eu vos anuncio uma grande alegria:
hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador, Cristo nosso Senhor. Eis o sinal
pelo qual o reconhecereis: achareis um menino envolto em paninhos e reclinado
num presépio".
No mesmo instante, juntou-se ao anjo uma multidão de espíritos
celestes que cantavam louvores ao Senhor e diziam: "Glória a Deus
nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".
OS PASTORES VÃO
AO PRESÉPIO
Quando os anjos subiram ao céu, os pastores disseram uns aos outros:
"Vamos a Belém para ver o que lá se sucedeu". Foram
apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado no presépio.
Contemplaram-no e contaram o que lhes tinha sido dito sobre este Menino. Depois
voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto.
Infância de Jesus
A APRESENTAÇÃO DO MENINO JESUS NO TEMPLO
Quarenta dias após o nascimento do Menino, Maria e José levaram-no
a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor.
Havia então em Jerusalém um velho, chamado Simeão, homem
justo e temente a Deus, a quem o Espírito Santo tinha revelado que não
morreria antes de ter visto o Salvador. Levado por inspiração
divina, Simeão foi ao templo. Recebeu o Menino Jesus nos seus braços
e louvou a Deus, dizendo: "Agora posso morrer em paz porque os meus olhos
viram o Senhor".
Também havia em Jerusalém uma piedosa viúva de 84 anos,
chamada Ana. Servia a Deus, noite e dia, em jejuns e orações.
Apareceu também nessa ocasião e pôs-se a louvar ao Senhor.
OS MAGOS ADORAM
O MENINO JESUS
Depois do nascimento de Jesus em Belém, vieram uns magos do Oriente a
Jerusalém e perguntaram: "Onde está o Rei dos judeus que
nasceu há pouco? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo".
Ouvindo isto, o rei Herodes perturbou-se. Perguntou aos doutores da Lei onde
devia nascer o Messias. Disseram-lhe: "Em Belém de Judá".
Então Herodes mandou os magos a Belém e disse-lhes: "Quando
encontrardes o Menino, venham me dizer para que também eu vá adorá-lo".
Os magos partiram. A estrela ia sempre à frente deles até parar
sobre a casa onde estava o Menino. Os magos entraram e encontraram o Menino
com Maria, sua Mãe. Prosttraram-se logo para o adorar e ofereceram-lhe
presentes: ouro, incenso e mirra.
De noite, Deus avisou-os de que não voltassem a Herodes. Por isso, retornaram
para sua terra por outro caminho.
A SAGRADA FAMÍLIA
FOGE PARA O EGITO
Quando os magos partiram, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José
e disse-lhe: "Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o
Egito porque Herodes procura o Menino para o matar". José levantou-se
e nessa mesma noite partiu para o Egito com o Menino e sua Mãe.
Vendo que os magos não haviam retornado, Herodes ficou muito irritado
e mandou matar todos os meninos de Belém e arredores, da idade de dois
anos para baixo.
Depois da morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu a José e disse-lhe:
"Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e volta para a terra de Israel".
José levantou-se, pôs-se a caminho para a terra de Israel e foi
residir em Nazaré. Nesta cidade, Jesus foi crescendo, cheio de sabedoria
e a graça de Deus estava com ele.
O MENINO JESUS
FICA NO TEMPLO
Todos os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém por ocasião da
festa da Páscoa. Quando Jesus chegou à idade de doze anos, foi
também com eles.
Depois da solenidade, Maria e José regressaram, mas o Menino ficou em
Jerusalém sem que os pais percebessem. Julgando que ele estava em outro
grupo, andaram um dia de caminho. Depois, procuraram-no entre os parentes e
conhecidos.
Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, em busca dele. Foram
ao templo e lá o encontraram, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os
e interrogando-os. Todos estavam admirados com a sua sabedoria e as suas respostas.
A Mãe disse-lhe: "Meu filho, por que fizeste assim? Teu pai e eu
estávamos aflitos procurando-te". Jesus respondeu: "Por que
me procuráveis? Não sabíeis que estava na casa de meu Pai?".
Jesus voltou a Nazaré com seus pais. Prestava-lhes obediência e
crescia em sabedoria, em idade e em graça, diante de Deus e dos homens.
A Vida Pública
de Jesus (30 d.C.)
JOÃO BATISTA ANUNCIA O SALVADOR
Naquele tempo, o Senhor falou a João, filho de Zacarias, no deserto.
João vestia peles de camelo, usava uma cinta de couro em torno dos rins
e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Percorreu toda a região
do Jordão, a pregar o batismo de penitência para a remissão
dos pecados, dizendo: "Fazei penitência porque o reino dos céus
está próximo!". Acorria gente de Jerusalém e de toda
a Judéia, e todos eram batizados por ele no Jordão, confessando
os seus pecados.
Muitos perguntavam se João não seria o Cristo, mas ele disse a
todos: "Eu vos batizo com água, para penitência. Mas virá
alguém mais forte do que eu, de quem eu não sou digno de desamarrar
as correias das sandálias. Ele vos batizará no Espírito
Santo e no fogo".
JESUS É
BATIZADO POR JOÃO
Aos trinta anos de idade, Jesus foi de Nazaré da Galiléia para
as margens do rio Jordão, para receber o batismo de João. Tendo
sido batizado pelo precursor, Jesus saiu da água e pôs-se em oração.
E eis que os céus se abriram e o Espírito de Deus desceu visivelmente
sobre ele, em forma de pombo. Então ouviu-se uma voz do céu que
dizia: "Este é o meu Filho amado no qual pus a minha complacência".
JESUS É
TENTADO PELO DEMÔNIO
Depois, Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito Santo, para ser
tentado pelo demônio. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites,
teve fome. Então Satanás se aproximou e disse-lhe: "Se és
o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães".
Jesus respondeu: "Está escrito: 'nem só de pão vive
o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus'".
Então o demônio transportou-o à Cidade Santa e, pondo-o
sobre o pináculo do templo, disse-lhe: "Se és o Filho de
Deus, lança-te daqui abaixo pois está escrito: 'confiou aos seus
anjos o cuidado de ti e eles te tomarão as mãos para que não
tropeces o teu pé em alguma pedra'". Jesus disse-lhe: "Também
está escrito: 'não tentarás o Senhor teu Deus'".
Novamente o demônio o transportou, desta vez para um monte muito alto
e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua magnificência, disse-lhe:
"Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares". Então Jesus
disse-lhe: "Sai, Satanás, porque está escrito: 'somente ao
Senhor adorarás e somente a ele servirás'". Finalmente o
demônio se retirou e logo os anjos se aproximaram de Jesus para o servir.
Os Apóstolos
de Jesus
JESUS CHAMA OS SEUS PRIMEIROS DISCÍPULOS
Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: "Eis o
Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo! Vi o Espírito descer
do céu em forma de pomba e repousar sobre Ele. Eu não o conhecia,
mas o que me mandou batizar em água disse-me: 'Aquele sobre quem vires
descer e repousar o Espírito é o que batiza no Espírito
Santo'. Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus".
Dois discípulos de João ouviram-no dizer de Jesus: "eis o
Cordeiro de Deus" e logo resolveram segui-lo. Jesus voltou-se para eles
e perguntou: "O que vós buscais?". Eles disseram-lhe: "Mestre,
onde moras?". Jesus respondeu: "Vinde e vede". Foram e ficaram
com ele durante todo aquele dia. Esses dois discípulos chamavam-se André
e João.
André encontrou seu irmão Simão e disse-lhe: "Encontramos
o Messias, que é o Cristo". E levou-o a Jesus. Jesus olhou para
ele e disse: "Tu és Simão, filho de Jonas; hás de
chamar-te Cefas" que quer dizer Pedro (isto é, rochedo).
No dia seguinte, Jesus encontrou Filipe e disse-lhe: "Segue-me". Filipe
encontrou Natanael e disse-lhe: "Encontramos aquele que foi anunciado por
Moisés e pelos profetas: Jesus de Nazaré, filho de José".
Natanael respondeu-lhe: "Acaso poderá sair coisa boa de Nazaré?".
Filipe disse-lhe: "Venha ver". Jesus viu Natanael aproximar-se e disse
a seu respeito: "Cá está um verdadeiro israelita que não
engana ninguém". Natanael perguntou-lhe: "De onde me conheces?".
Jesus respondeu: "Antes de Filipe te chamar, eu já tinha te visto
debaixo da figueira". Natanael disse-lhe: "Mestre, vós sois
o Filho de Deus! Vós sois o Rei de Israel!".
JESUS MANIFESTA
SEU PODER EM CANÁ
Estava Jesus, com seus discípulos, a assistir a umas bodas em Caná
da Galiléia. Faltando o vinho, Maria aproximou-se dele e disse-lhe: "Eles
não têm mais vinho". Jesus respondeu: "Por que vos incomodais
com isso? Ainda não chegou a minha hora". Então sua Mãe
disse aos que serviam: "Fazei tudo o que Ele vos mandar".
Ora, havia ali seis cântaros de pedra destinados às purificações
dos judeus, cada um dos quais levava duas ou três medidas. Jesus disse:
"Enchei esses cântaros de água". Encheram até
o topo. Então Jesus disse-lhes: "Tirai o vinho e levai-o ao chefe
da mesa". E assim fizeram.
Quando o chefe provou a água mudada em vinho, sem saber de onde viera,
embora os serventes o soubessem, dirigiu-se ao esposo e disse-lhe: "Todos
costumam dar primeiro o vinho bom e, após os convidados já terem
bebido bastante, servem o pior. Mas tu guardaste até agora o melhor vinho".
Este foi o primeiro milagre de Jesus em Caná da Galiléia. Foi
assim que ele manifestou a sua glória e os seus discípulos creram
nele.
OS DISCÍPULOS
SEGUEM A JESUS
Jesus estava à beira do lago de Genesaré, entrou no barco de Simão
Pedro e começou a ensinar a multidão. Quando acabou de falar,
disse a Simão: "Entre mar adentro e joga as redes para pescar".
Simão respondeu: "Meste, trabalhamos a noite toda e não apanhamos
nada. Mas em atenção à tua palavra, vamos lançar
as redes". Assim fizeram e apanharam tanto peixe que a rede quase arrebentou.
Acenaram aos companheiros que estavam na outra barca, para que viessem ajudá-los.
Eles vieram e as duas barcas ficaram tão cheias de peixes que por pouco
não afundaram.
Vendo isto, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse:
"Senhor, afastai-vos de mim, que sou um homem pecador". Jesus disse-lhe:
"Não temais. De agora em diante serás pescador de homens".
Levaram as barcas para terra e deixaram tudo para seguir a Jesus.
JESUS ESCOLHE
OS 12 APÓSTOLOS
Naquele tempo, Jesus retirou-se para um monte e passou toda a noite em oração.
Quando raiou o dia, chamou os discípulos e escolheu doze dentre eles,
aos quais chamou apóstolos.
Eram: Simão (também chamado Pedro) e seu irmão André;
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu;
Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e seu irmão Judas Tadeu;
Simão, chamado Zelota e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
Mais tarde escolheu 72 discípulos. Sem os igualar aos apóstolos,
mandou-os também a pregar o Evangelho.
JESUS PROMETE
O PRIMADO A PEDRO
Andando Jesus pelo território de Cesaréia de Filipe, perguntou
aos seus discípulos: "Quem os homens dizem que eu sou?". Eles
responderam: "Uns dizem que sois João Batista, outros Elias, outros
Jeremias ou algum dos profetas". Então Jesus disse-lhes: "E
vós, quem dizeis que eu sou?". Simão Pedro respondeu: "Vós
sois o Cristo, o Filho do Deus vivo".
Jesus disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas,
porque não foi a carne e o sangue que te revelevou isso, mas meu Pai
que está nos céus. E eu digo-te: tu és Pedro e sobre esta
pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que ligares
sobre a terra, será ligado também nos céus; tudo o que
desligares sobre a terra, será desligado também nos céus".
Jesus,
Nosso Divino Mestre
A TRANSFIGURAÇÃO
Um dia, Jesus foi com três dos seus apóstolos, Pedro, Tiago e João,
a um monte alto e transfigurou-se diante deles. A sua face resplandeceu como
o sol e as suas vestes alvejaram como a neve. Ao mesmo tempo apareceram Moisés
e Elias falando com ele.
Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: "Senhor, é bom estarmos
aqui. Se quiserdes, armaremos aqui três barracas, uma para vós,
outra para Moisés e outra para Elias".
Mas, de repente, uma nuvem luminosa os envolveu e do meio da nuvem ouviu-se
uma voz: "Este é o meu filho dileto em quem pus toda a minha complacência.
Escutai-o".
Ouvindo estas palavras, os discípulos caíram por terra e ficaram
com muito medo. Porém, Jesus se aproximou deles e os tocou, dizendo:
"Levantai-vos e não temais". Então ergueram os olhos
e não viram mais ninguém a não ser Jesus.
AS BEM-AVENTURANÇAS
De toda a parte acorriam multidões para ouvir as palavras de Jesus. Certa
vez, Jesus subiu a um monte, sentou-se e começou a ensinar, dizendo:
"Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino
dos céus.
Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra.
Bem aventurados os que choram porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão
saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça porque
deles é o reino dos céus.
Alegrai-vos e exultai porque grande é a vossa recompensa nos céus".
A LEI DO AMOR
Certo dia, um doutor da Lei perguntou a Jesus: "Mestre, qual o maior mandamento
da Lei?".
Jesus disse-lhe: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração,
com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior
e o primeiro dos mandamentos. O segundo é semelhante a este: amarás
o teu próximo como a ti mesmo".
Jesus também disse: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que
vos odeiam, orai pelos que vos perseguem e caluniam. Assim sereis filhos do
vosso Pai que está nos céus e que faz nascer o sol para os bons
e os maus, além de enviar a sua chuva aos justos e aos pecadores".
A ORAÇÃO
DO SENHOR
Certo dia que Jesus voltava de orar num lugar solitário, disseram-lhe
os discípulos: "Senhor, ensinai-nos a orar". Então Jesus
disse: "Quando orardes, dizei assim: Pai nosso que estais no céu,
santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita
a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada
dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal. Amém".
Depois Jesus disse: "Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á!
Se porventura algum de vós pedir pão a seu pai dar-lhe-á
ele uma pedra? Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á ele uma serpente?
Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á ele um escorpião? Se vós,
que sois maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai
celestial dará espírito bom aos que lhe pedirem?
Digo-vos ainda que, se dois de vós se unirem na terra e pedir qualquer
coisa, esta lhe será concedida por meu Pai que está nos céus.
Porque, onde estiverem dois ou três pessoas reunidas em meu nome, eu estarei
no meio delas".
DEVEMOS ORAR
COM HUMILDADE
Jesus também propôs esta parábola: "Entraram dois homens
no templo para orar: um era fariseu e o outro era cobrador de impostos. O fariseu,
em pé, gritava: 'Graças te dou, ó Deus, porque não
sou como os outros homens: ladrões, ímpios, adúlteros,
nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo
de tudo o que possuo'. Porém, o cobrador de impostos, conservando-se
a distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu,
mas batia no peito dizendo: 'Tende piedade de mim, ó Deus, porque sou
pecador'. Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e não o
outro porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será
exaltado".
DEVEMOS PROCURAR
OS BENS DO CÉU
Jesus ainda disse: "Não vos preocupeis demais com o vosso sustento.
Vede as aves do céu: elas não semeiam, não colhem, nem
juntam no celeiro; mas o vosso Pai celeste as sustentam. Acaso vós não
valeis muito mais do que elas?
Não vos inquieteis com o que haveis de vestir. Vede como crescem os lírios
do campo: não trabalham, nem fiam; contudo eu vos digo: nem Salomão,
em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles.
Não vos aflijais, dizendo: 'Que haveremos de comer ou de beber? Com que
havemos de nos vestir?'. O vosso Pai do céu sabe que precisais de tudo
isso. Mas, em primeiro lugar, buscai o reino de Deus e a sua justiça
e tudo mais vos será dado por acréscimo".
JESUS ENSINA
A PRATICAR BOAS OBRAS
Disse Jesus: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor!' entrará
no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está
nos céus, esse entrará no reino dos céus.
Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homem com o fim de serdes
vistos por eles; de outra sorte, não sereis remunerados pelo vosso Pai
que está nos céus. Quando deres esmola, não façais
tocar a trombeta diante de vós, como fazem os hipócritas nas sinagogas
e nas ruas para serem honrados pelos homens. Em verdade vos digo: já
receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a vossa mão
esquerda o que faz a direita para que a vossa esmola fique em segredo e o vosso
Pai, que vê no segredo, vos pagará".
Certo dia, Jesus estava no templo em frente da caixa de esmolas e observava
o povo que ali deixava dinheiro. Alguns ricos davam muito, mas chegou também
uma pobre viúva que colocou duas moedinhas. Jesus chamou os discípulos
e disse-lhes: "Em verdade vos digo: esta pobre viúva deu mais que
todos os outros porque os outros deram o que tinham de sobra enquanto que ela
deu, em sua pobreza, tudo o que tinha".
JESUS MANDA OBEDECER
AS AUTORIDADES
Certa vez, os fariseus quiseram armar uma cilada para Jesus. Mandaram seus discípulos
juntamente com os herodianos perguntarem-lhe: "Mestre, conhecemos a vossa
retidão e sabemos que ensinais o caminho de Deus segundo a verdade, sem
querer agradar ninguém pois não fazeis distinção
de pessoas. Dizei-nos portanto: é lícito ou não pagar o
tributo a César?".
Jesus, percebendo a malícia, respondeu: "Por que me tentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo".
Eles mostraram-lhe o dinheiro e Jesus disse-lhes: "De quem é esta
imagem e esta inscrição?". Responderam: "De César".
Disse-lhes então Jesus: "Pois dai a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus".
A VIDA PRESENTE
PREPARA A ETERNIDADE
Jesus disse: "Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de
linho fino e que todos os dias preparava um banquete esplêndido. Havia
também um mendigo chamado Lázaro que jazia à sua porta,
coberto de chagas. Este desejava saciar-se com as migalhas que caíam
da mesa do rico, mas ninguém as dava. E os cães vinham lamber-lhe
as feridas.
Ora, certo dia o mendigo morreu e os anjos o levaram para o seio de Abraão.
O rico também morreu e foi levado para o inferno. Enquanto estava sendo
atormentado, levantou os olhos e viu Abraão ao longe e Lázaro
no seu seio. Gritando, disse: 'Pai Abraão, tende piedade de mim e mandai
Lázaro molhar a ponta do dedo na água para me refrescar a língua
porque sofro terrivelmente nestas chamas'. Abraão respondeu-lhe: 'Filho,
lembra-te que recebeste os bens em vida e Lázaro, ao contrário,
os males. Por isso, agora ele é consolado e tu és atormentado'.
Disse o rico: 'Pai, peço-vos ao menos que o mandeis a minha casa para
que avise os meus irmãos para que também eles não venham
para este lugar de tormentos'. Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés
e os profetas. Que os ouçam'. Ele, porém, insistiu: 'Não,
pai Abraão! Se algum dos mortos for até eles, farão penitência'.
Abraão disse: 'Se não ouvem Moisés e os profetas, tão
pouco acreditariam ainda que algum dos mortos ressuscitasse'".
NO FIM, TODOS
SERÃO JULGADOS
Jesus ainda disse: "No fim do mundo, Deus voltará com todos os anjos.
Assentar-se-á no seu trono de glória e todas as nações
se reunirão diante dele. Os bons estarão à direita e os
maus à esquerda.
Dirá então aos da direita: 'Vinde, benditos de meu Pai. Possuí
o reino que vos está preparado desde a criação do mundo'.
Depois dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos. Ide para
o fogo eterno preparado para o demônio e seus anjos'. Estes irão
para o suplício eterno e os justos para a vida eterna".
As Parábolas
do Reino de Deus
A PARÁBOLA DO SEMEADOR
Naquele tempo, juntara-se em torno de Jesus enorme multidão que viera
das cidades vizinhas. E Jesus contou-lhes esta parábola: "O semeador
saiu para semear as suas sementes. E, enquanto semeava, uma parte caiu ao longo
do caminho e foi calcada pelos pés e comida pelas aves dos céus.
Outra parte caiu entre as pedras e, quando germinou, secou por falta de umidade.
Outra parte caiu entre os espinhos e estes a sufocaram. Outra parte, enfim,
caiu em boa terra e, depois de crescer, produziu frutos em todas as unidades.
Quem tem ouvido para ouvir, ouça!".
EXPLICAÇÃO
DA PARÁBOLA DO SEMEADOR
Os discípulos perguntaram a Jesus o que significava esta parábola
e ele disse: "Eis a explicação da parábola: a semente
é a Palavra de Deus. A que caiu ao longo do caminho, são aqueles
que a ouvem, mas depois vem o demônio e tira-lhes a palavra do coração
para que não se salvem crendo. A que cai entre as pedras são os
que ouvem a palavra e a recebem com gosto, mas como não têm raízes,
crêem por certo tempo e depois voltam atrás com a tentação.
A que caiu entre os espinhos são aqueles que ouviram a palavra, mas depois
de sufocados pelas riquezas e prazeres deste mundo, não dão fruto.
Enfim, a que cai em terra boa são aqueles que recebem a palavra com boas
disposições e produzem fruto pela perseverança".
A PARÁBOLA
DO JOIO E DO TRIGO
Jesus disse: "O reino dos céus é semelhante ao homem que
semeou boa semente em seu campo. Enquanto os empregados dormiam, seu inimigo
veio, semeou joio no meio do trigo e foi embora. Quando o trigo cresceu e espigou,
apareceu também o joio. Então os empregados procuraram seu senhor
e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?' De onde
veio o joio?'. Ele respondeu: 'Foi algum inimigo meu'. Os criados perguntaram:
'Quereis que nós o arranquemos?'. Ele respondeu-lhes: 'Não pois
se arrancardes o joio, arrancareis também o trigo. Deixai crescer tudo
até a ceifa e então direi aos ceifadores: arrancai primeiro o
joio, atai-o em feixes e queimem-no; colhei depois o trigo e guardai-o no celeiro'".
EXPLICAÇÃO
DA PARÁBOLA DO JOIO E DO TRIGO
Os discípulos disseram-lhe: "Explicai-nos esta parábola".
Jesus respondeu: "O que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino. O joio
são os filhos da iniqüidade. O inimigo que o semeou é o demônio.
O tempo da ceifa é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos.
Assim como o joio é arrancado e queimado no fogo, assim também
será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará os seus anjos a
arrancar do seu reino todos os que praticam o mal, para os lançar na
fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então
os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai".
A PARÁBOLA
DO GRÃO DE MOSTARDA
Jesus disse ainda: "O reino dos céus é semelhante a um grão
de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo. É a menor de todas
as sementes, mas depois de crescer, torna-se a maior de todas as leguminosas
e faz-se árvore, de sorte que as aves do céu vêm abrigar-se
nos seus ramos".
Os Milagres
de Jesus
JESUS ACALMA UMA TEMPESTADE NO MAR
Certo dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré e entrou numa barca
juntamente com seus discípulos. E eis que formou-se uma violente tempestade
no mar e as ondas cobriram a barca.
Mas Jesus estava dormindo. Então os discípulos se aproximaram
dele e despertaram-no, dizendo: "Senhor, salvai-nos pois afundaremos".
Jesus disse-lhes: "Por que tendes medo, homens de pouca fé?".
Levantando-se, mandou o vento e o mar se acalmarem e no mesmo instante tudo
ficou em bonança.
Admirados, os discípulos diziam: "Quem é este a quem até
o vento e o mar obedecem?".
JESUS MULTIPLICA
OS PÃES
Num dia em que muita gente estava reunida à sua volta, Jesus disse aos
discípulos: "Onde poderemos comprar comida para toda esta gente?".
Um deles respondeu: "Temos aqui um menino que tem cinco pães de
cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tamanha multidão?".
Jesus disse: "Dizei ao povo para que se sente". Todos se sentaram.
Eram quase cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Então
Jesus tomou os cinco pães, deu graças e mandou-os distribuir à
multidão. Fez o mesmo com os peixes. E todos comeram o quanto quiseram.
Estando todos saciados, Jesus disse aos discípulos: "Recolham o
que sobrou, para nada seja desperdiçado". Eles juntaram tudo e encheram
doze cestos.
JESUS CURA O
SERVO DO CENTURIÃO
Certo dia, um centurião foi encontrar Jesus e disse-lhe: "Senhor,
tenho em casa um criado com paralisia, que está com muitas dores".
Jesus disse-lhe: "Eu vou lá curá-lo". O centurião
respondeu: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa,
mas dizei uma só palavra e meu servo ficará curado".
Então Jesus disse: "Vai e faça-se como crês".
Nessa mesma hora, o criado ficou curado.
JESUS CURA UM
SURDO-MUDO
Certo dia, levaram a Jesus um homem surdo-mudo e pediram a Jesus que lhe impusesse
as mãos. Jesus colocou seus dedos nos ouvidos do surdo-mudo e também
colocou saliva na língua dele. Depois, levantou os olhos ao céu
e disse: "Abri-vos!". E logo o surdo-mudo ficou curado.
JESUS CURA UM
LEPROSO
Certa vez, um leproso prostrou-se diante de Jesus e disse-lhe: "Senhor,
se vós quiserdes, podeis curar-me". Jesus, estendendo a mão,
tocou-o e disse: "Quero! Sê curado". E logo ficou curado da
sua lepra. Jesus disse-lhe então: "Vai agora mostrar-te ao sacerdote
e apresenta a oferta prescrita por Moisés".
JESUS CURA UM
CEGO
Doutra vez, chegando Jesus perto de uma cidade, um cego esta sentado à
beira do caminho, pedindo esmola. Disseram-lhe que Jesus ia passar por ali e
ele começou a gritar: "Jesus, tende piedade de mim". Jesus
perguntou-lhe: "O que queres que eu faça?". O cego respondeu:
"Fazei que eu venha a enxergar". Jesus disse-lhe: "Vê!
A tua fé te salvou!". Imediatamente o cego passou a ver e acompanhou
Jesus, glorificando a Deus.
JESUS RESSUSCITA
UM JOVEM
Jesus chegou a uma cidade chamada Naím, acompanhado pelos discípulos
e uma grande multidão. Às portas da cidade, encontrou um morto
que era levado para o cemitério. Era o filho único de uma pobre
viúva. Muitas pessoas da cidade acompanhavam o enterro.
Ao ver a mãe, Jesus comoveu-se e disse-lhe: "Não chores".
Depois, aproximou-se e tocou no caixão. Os que o carregavam pararam.
Jesus disse ao morto: "Jovem, eu te ordeno: levanta-te". O morto levantou-se
e começou a falar e Jesus o entregou à sua mãe.
À vista deste espetáculo, todos ficaram cheios de temor e glorificaram
a Deus, dizendo: "Grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou
o seu povo".
JESUS RESSUSCITA
LÁZARO
Um amigo de Jesus, chamado Lázaro, adoecera em Betânia. Suas irmãs,
Marta e Maria, mandaram dizer a Jesus: "Senhor, aquele que amais está
enfêrmo". Tendo recebido esta mensagem, Jesus ficou ainda dois dias
no lugar onde estava. Depois, disse aos discípulos: "Nosso amigo
Lázaro dorme, mas despertá-lo-ei do sono". Os discípulos
disseram: "Senhor, se ele dorme, está salvo". Então
Jesus disse-lhes claramente: "Lázaro morreu e eu, por amor a vós,
alegro-me de não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos
encontrá-lo".
Quando Jesus chegou, Lázaro estava no túmulo há quatro
dias. Marta saiu-lhe ao encontro e disse: "Senhor, se tivésseis
estado aqui antes, meu irmão não teria morrido". Respondeu-lhe
Jesus: "Teu irmão ressuscitará". Disse-lhe Marta: "Eu
sei que ele ressuscitará no último dia". Disse-lhe Jesus:
"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda
que esteja morto, viverá. E todo o que vive e crê em mim, não
morrerá eternamente. Crês nisto?". Ela respondeu: "Sim,
Senhor. Eu creio que vós sois o Cristo, Filho do Deus Vivo que veio a
este mundo".
Então Jesus se dirigiu ao sepulcro: era uma gruta que tinha uma pedra
fechando-lhe a abertura. Jesus disse: "Tirai a pedra". Marta observou:
"Senhor, já tem mau cheiro porque ele está aí há
quatro dias". Jesus respondeu: "Se creres, verás brilhar a
glória de Deus". Tiraram a pedra e Jesus bradou em alta voz: "Lázaro,
sai daí". E, imediatamente, o que estivera morto saiu, com os pés
e mãos amarrados por ataduras e com o rosto envolto num sudário.
Jesus disse então: "Desatai-o e deixai-o ir".
Muitos judeus, testemunhas deste milagre, creram em Jesus.
Jesus,
o Bom Pastor
JESUS É O BOM PASTOR
Naquele tempo, Jesus disse: "Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá
a vida pelas suas ovelhas. Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas
me conhecem e eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenha também outras
ovelhas que não são deste aprisco e importa que eu as traga; e
elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só
pastor".
JESUS E A CONVERSÃO
DOS PECADORES
Os fariseus murmuravam contra Jesus, dizendo: "Ele recebe os pecadores
e come com eles". Então Jesus contou esta parábola: "Qual
de vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as noventa
e nove no deserto para correr atrás daquela que se perdeu até
encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a com alegria sobre os ombros
e, entrando em casa, reúne os amigos e vizinhos e diz-lhes: 'Alegrai-vos
comigo porque encontrei a ovelhinha perdida'. Eu vos digo: assim também
haverá alegria no céu por um só pecador que faça
penitência".
PARÁBOLA
DO FILHO PRÓDIGO
Jesus disse: "Um homem tinha dois filhos e o mais novo disse ao pai: 'Pai,
dai-me a parte dos bens que me pertence'. E o pai repartiu os bens entre eles.
Passados alguns dias, o mais novo juntou tudo o que era seu e partiu para uma
terra distante onde dissipou seus bens.
Houve então grande fome nessa terra. E o rapaz, como já não
tinha nada, colocou-se a serviço de um homem que o mandou para os campos
tomar conta dos porcos. E ele queria saciar sua fome com a lavagem dos porcos,
mas ninguém a dava. Caindo em si, disse: 'Retornarei para meu pai e direi:
Pai, pequei contra o céu e contra vós. Já não sou
digno de ser chamado vosso filho. Tratai-me como um de vossos servos'.
E pôs-se logo a caminho. Seu pai avistou-o ainda de longe e, cheio de
compaixão, correu ao seu encontro para abraçar e beijar. Disse-lhe
o filho: 'Pai, pequei contra o céu e contra vós. Já não
sou digno de ser chamado vosso filho'. Mas o pai disse aos criados: 'Trazei
depressa as vestes mais preciosas e dai-lhe; coloque-lhe um anel no dedos e
sandálias nos pés. Matai um cordeiro gordo para fazermos um banquete
porque este meu filho estava morto e reviveu, andava perdido e foi encontrado".
JESUS AMA AS
CRIANÇAS
Traziam também a Jesus as criancinhas para que lhes impusesse as mãos
e orasse sobre elas. Os discípulos queriam afastá-las, mas Jesus
disse: "Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis porque
o reino dos céus é deles e dos que se parecem com eles".
E pegava nelas ao colo, impunha-lhes as mãos e abençoava-as.
Um dia os discípulos perguntaram-lhe: "Mestre, quem será
o maior no reino dos céus?". Jesus chamou uma criancinha e, colocando-a
no meio deles, disse-lhes: "Em verdade vos digo: se vós não
vos converterdes e não vos tornares como crianças, não
entrareis no reino dos céus".
Os Últimos
Dias de Jesus
JESUS ENTRA TRIUNFALMENTE EM JERUSALÉM
Naquele tempo, Jesus aproximou-se de Jerusalém e disse a dois dos seus
discípulos: "Ide à aldeia que está a vossa frente
e logo encontrareis uma jumenta e o seu jumentinho com ela. Desamarrai-os e
me tragam. Se vos disserem alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles
e logo os deixarão trazer".
Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenou. Trouxeram a jumenta e
o jumentinho, estenderam suas vestes sobre eles e montaram Jesus.
Muita gente estendia no caminho suas vestes; outros cortavam ramos de árvores
e punham sobre a estrada. E toda a multidão aclamava Jesus, dizendo:
"Bendito o que vem em nome do Senhor".
JESUS CHORA SOBRE JERUSALÉM
À vista da cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: "Ai! Se ao menos
neste dia soubesses reconhecer aquele que seria a tua salvação!
Dias virão em que os teus inimigos hão de te cercar por todos
os lados, te destruirão completamente junto com os que se abrigam dentro
de teus muros e não deixarão pedra sobre pedra porque não
soubeste aproveitar o tempo da salvação".
No dia seguinte, mostrando o templo e suas construções aos discípulos,
disse-lhes: "Vedes este grandioso edifício? Em verdade vos digo:
não ficará pedra sobre pedra".
JESUS CELEBRA
A ÚLTIMA PÁSCOA
Na véspera da sua paixão, à tarde, Jesus pôs-se à
mesa com os discípulos para comer o cordeiro pascal. A certo momento,
levantou-se, colocou água numa bacia e começou a lavar os pés
dos discípulos e a enxugá-los com uma toalha. Chegando a vez de
Simão Pedro, este disse-lhe: "Senhor, vós irás lavar
os meus pés?". Jesus respondeu: "O que eu faço tu não
o sabes agora, mas irás saber depois". Disse-lhe Pedro: "Não
permitirei que o faças". Jesus respondeu: "Neste caso, não
terás parte comigo". Disse-lhe Simão Pedro: "Senhor,
se é assim, então não me laveis só os pés,
mas também as mãos e a cabeça".
Tendo acabado de lavar os pés de todos os apóstolos, disse-lhes
Jesus: "Compreendeis o que vos fiz? Dei-vos o exemplo para que o façais
uns aos outros como eu vos fiz a vós".
JESUS INSTITUI
A SAGRADA EUCARISTIA
Depois da refeição, Jesus tomou o pão, deu graças,
partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Tomai e comei. Isto é
o meu Corpo que é dado por vós".
Da mesma forma, tomou o cálice, deu graças e o entregou aos discípulos,
dizendo: "Tomai e bebei todos vós. Isto é o meu Sangue, o
Sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós
e por todos os homens para a remissão dos pecados. Fazei isto em minha
memória".
Jesus cumpriu assim a promessa que fizera, quando disse: "Eu sou o pão
vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.
O pão que vos darei é a minha própria carne para a vida
do mundo. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira
bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue está em mim e eu
nele".
JESUS DECLARA
A TRAIÇÃO DE JUDAS
Durante a ceia, Jesus disse: "Em verdade vos digo: um de vós há
de entregar-me". Os discípulos começaram a olhar uns para
os outros, perguntando entre si qual deles faria tal coisa. João, o discípulo
predileto, estava encostado sobre o lado de Jesus. Simão Pedro perguntou-lhe
por sinais: "De quem ele fala?". João reclinou-se sobre o peito
de Jesus e perguntou-lhe: "Senhor, quem será?". Jesus respondeu:
"Será aquele a quem eu der um pedaço de pão molhado".
E, molhando o pão, entregou-o a Judas Iscariotes. Este disse: "Por
ventura serei ei, Mestre?". Jesus respondeu-lhe: "Tu o disseste! O
que tiverdes que fazer, faça-o depressa".
Como Juda tinha uma bolsa, alguns julgaram que Jesus lhe dissera: "Compra
o que for preciso para o dia da festa" ou "Dá algo aos pobres".
Judas engoliu o pedaço de pão e Satanás tomou posse dele.
Saiu imediatamente. Já era noite.
A
Paixão de Jesus
JUDAS VENDE O SENHOR
O apóstolo Judas foi encontrar-se com os príncipes dos judeus
e disse-lhes: "O que me dais se vos entregar Jesus". Ofereceram-lhe
trinta moedas e ele aceitou.
JESUS NO JARDIM
DAS OLIVEIRAS
Saindo do Cenáculo, Jesus atravessou a torrente do Cedron e dirigiu-se,
com seus discípulos, para o monte das Oliveiras.
Chegando a um lugar chamado Getsêmani, onde havia um jardim, entrou nele
com os discípulos e disse-lhes: "Sentai-vos aqui enquanto eu vou
orar".
Levou consigo Pedro, Tiago e João e disse-lhes: "A minha alma está
triste até à morte. Ficai aqui e vigiai comigo". Depois,
andou um pouco, pôs-se de joelhos e orou, dizendo: "Pai, se for possível,
afasta de mim este cálice! Mas seja feita a vossa vontade e não
a minha".
Depois de orar assim por três vezes, apareceu-lhe um anjo do céu
para o consolar. Jesus, prolongando a sua oração, caiu em agonia
e começou a suar sangue que escorria até o chão.
Depois voltou para junto dos três apóstolos, que estavam dormindo.
Jesus disse-lhes: "Vamos, levantai-vos! Já está perto aquele
que me traiu".
A PRISÃO
DE JESUS
Jesus ainda estava falando quando chegou Judas com um grupo de soldados e servos.
Todos traziam lanternas e archotes, espadas e varapaus. O traidor tinha-lhes
dito: "Será aquele que eu beijar. Prendei-o".
Judas aproximou-se logo de Jesus e disse: "Mestre, eu vos saúdo".
E deu-lhe um beijo na face. Jesus disse-lhe: "Meu amigo, que vieste fazer?
Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?".
Então Jesus disse aos que acompanhavam Judas: "A quem procurais?".
Eles responderam: "A Jesus de Nazaré". Jesus disse-lhes: "Sou
eu". E logo caíram por terra. Jesus perguntou-lhe outra vez: "A
quem procurais?". Eles repetiram: "A Jesus de Nazaré".
Jesus respondeu: "Já vos disse que sou eu. Se é a mim que
buscais, deixai que estes se vão". Então puseram as mãos
em Jesus e o prenderam.
JESUS PROÍBE
A RESISTÊNCIA
Vendo isto, os discípulos perguntaram: "Senhor, e se os feríssimos
à espada?". Sem esperar a resposta, Simão puxou a espada,
feriu Malco, servo do sumo-sacerdote, e cortou-lhe a orelha direita. Jesus disse:
"Basta!". E, dirigindo-se a Pedro, disse: "Coloca a espada na
bainha porque quem com o ferro mata, com o ferro será morto. Julgas que
eu não poderia pedir a meu Pai e ele não me enviaria mais de doze
legiões de anjos? Mas como se cumpririam as Escrituras, que anunciam
que assim deve acontecer? Não hei de beber o cálice que o Pai
me deu?". E, tocando a orelha de Malco, a curou.
Depois Jesus disse aos príncipes dos sacerdotes, aos magistrados do templo
e aos anciãos: "Viestes armados de espadas e varapaus para me prender,
como se faz a um ladrão. Todos os dias eu estava sentado entre vós,
ensinando no templo e não me prendestes. Mas é esta a vossa hora,
a hora do poder das trevas. Tudo isto aconteceu para que se cumprissem as palavras
dos profetas".
Então os discípulos o abandonaram e fugiram. Só Pedro e
João o seguiram de longe.
O SINÉDRIO
CONDENA JESUS À MORTE
Os soldados levaram Jesus preso ao palácio do sumo-sacerdote Caifás,
onde estava reunido o Sinédrio.
Os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum
falso testemunho contra Jesus, para o entregarem à morte, mas nada encontravam,
embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, apareceram duas
que declararam: "Ouvimos ele dizer: 'Posso destruir o templo de Deus e
reedificá-lo em três dias. Destruirei este templo, feito pela mão
do homem e em três dias edificarei outro que não será feito
pela mão do homem". Mas as testemunhas não eram concordes.
Então o sumo-sacerdote levantou-se e, em pé, no meio do Sinédrio,
disse a Jesus: "Nada respondes aos que depõem contra ti?".
Mas Jesus permaneceu em silêncio e nada respondeu. Então o sumo-sacerdote
disse: "Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se és o Cristo,
o Filho do Deus Altíssimo". Jesus respondeu: "Sou eu".
Então o sumo-sacerdote rasgou as vestes, dizendo: "Blasfemou! Que
necessidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir a blasfêmia! Que
vos parece?". Responderam: "É réu de morte!".
PEDRO NEGA O
SENHOR TRÊS VEZES
Simão Pedro, que tinha seguido Jesus de longe, entrou no átrio
do palácio e sentou-se com outros perto de uma fogueira, a aquecer-se.
Então a criada que abriu-lhe a porta aproximou-se dele e disse: "Tu
também andavas com Jesus da Galiléia". Pedro negou diante
de todos, dizendo: "Não era eu, mulher. Eu não o conheço,
nem sei do que falas". No mesmo instante o galo cantou.
Pouco depois, enquanto se dirigia para a porta, outra criada reparou ele e disse
aos que o cercavam: "Este também estava com Jesus de Nazaré".
Pedro protestou pela segunda vez, jurando: "Não! Eu não conheço
esse homem!".
Passada quase uma hora, outro veio confirmar as suspeitas, afirmando: "Certamente
este estava com ele pois é galileu!". Os assistentes se aproximaram
e disseram-lhe: "Não há dúvidas! Também pertenceis
a eles! Até se percebe pela fala!".
Um dos servos do sumo-sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha,
disse-lhe: "Então eu não te vi com ele no jardim?".
Ainda desta vez Pedro negou, protestou e jurou: "Não conheço
esse homem de quem falais".
Ele ainda falava quando o galo cantou pela segunda vez. Nesse instante, Jesus
virou-se e bateu o olhar em Pedro. Então o apóstolo lembrou-se
da palavra que o Mestre lhe dissera: "Antes que o galo cante duas vezes,
tu me negarás três vezes!". Pedro saiu do palácio e
chorou amargamente.
JESUS É
RIDICULARIZADO E MALTRATADO
Os criados que estavam guardando Jesus começaram a ridicularizá-lo
e a maltratá-lo. Uns cuspiam-lhe no rosto e o feriam a punhaladas; outros
vendavam-lhe os olhos e davam-lhe bofetadas, dizendo: "Profetiza agora,
Cristo: quem te bateu?". E acrescentavam muitos outros ultrajes.
Logo ao raiar do dia, os anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes
e os doutores da Lei se reuniram e decidiram entregar Jesus à morte.
Então Judas sentiu o remorso de o haver traído e foi devolver
as trinta moedas de prata ao Sinédrio, dizendo: "Pequei ao entregar
sangue inocente". Eles responderam: "E o que isso nos importa?. Judas
arremessou o dinheiro no templo e, retirando-se, enforcou-se numa árvore.
JESUS NA PRESENÇA
DE PILATOS
Os judeus levaram Jesus da casa de Caifás ao Pretório para o entregarem
a Pôncio Pilatos, governador romano da Judéia.
Pilatos saiu do Pretório e perguntou aos judeus: "Que acusação
apresentais contra este homem?". Eles responderam: "Estava sublevando
a nossa nação, proibindo de pagar o tributo a César e dizendo
que ele é o Cristo Rei".
Pilatos tornou a entrar no Pretório, chamou Jesus e perguntou-lhe: "És
tu o rei dos judeus?". Jesus respondeu: "Dizes isto por ti mesmo ou
foram os outros que te falaram sobre mim?". Pilatos respondeu: "Acaso
eu sou judeu? A tua nação e os príncipes dos sacerdotes
é que te entregaram nas minhas mãos. O que fizeste?". Jesus
respondeu: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino
fosse deste mundo, certamente os meus soldados se esforçariam para que
eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é
daqui". Então Pilato disse-lhe: "Logo, tu és rei".
Respondeu Jesus: "Tu o dizes: eu sou rei". Então Pilatos foi
ter com os judeus e disse-lhes: "Não encontro nele crime algum".
Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos apresentavam toda espécie
de acusações contra ele, mas Jesus não repondeu nada.
PILATOS QUER
LIBERTAR JESUS
Tendo chamado os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, Pilatos
disse-lhes: "Apresentaste-me este homem como perturbador. Interroguei-o
na vossa presença e não encontrei nenhuma das culpa de que o acusais.
Vou soltá-lo depois de o castigar".
Havia um preso famoso chamado Barrabás. Era um ladrão e assassino,
preso por ter cometido homicídio num motim. Quando a multidão
se juntou, Pilatos perguntou: "A quem quereis que eu solte: Barrabás
ou Jesus chamado o Cristo".
Os príncipes dos sacerdotes incitaram o povo a pedir a libertação
de Barrabás e pedir a morte de Jesus. O governador, falando outra vez,
disse: "Qual dos dois quereis que eu solte?". O povo gritou: "Queremos
Barrabás". Pilatos, que desejava libertar Jesus, disse: "O
que farei com Jesus, chamado o Cristo?". Gritaram: "Crucifica-o! Crucifica-o!".
Pilatos disse-lhes ainda: "Mas que mal ele fez? Não encontro nele
causa alguma de morte". Mas os judeus gritavam cada vez mais: "Crucifica-o!
Crucifica-o!".
JESUS É
FLAGELADO E COROADO DE ESPINHOS
Pilatos, vendo que nada conseguia, mandou vir água e lavou as mãos
diante da multidão, dizendo: "Estou inocente do sangue deste justo!
A vós pertence toda a responsabilidade!". O povo gritou: "Que
caia o seu sangue sobre nós e nossos filhos". Cedendo às
exigências, Pilatos soltou Barrabás e mandou flagelar Jesus.
Em seguida, os soldados levaram Jesus para o Pretório, despojaram-no
de suas vestes e puseram-lhe sobre os ombros um manto escarlate; teceram uma
coroa de espinhos e enterraram-na em sua cabeça; colocaram-lhe uma cana
na mão direita e, dobrando o joelho, ridicularizavam-no, dizendo: "Salve,
ó rei dos judeus". Cuspiam-lhe na face e, tirando-lhe a cana da
mão, batiam-lhe com ela na cabeça. Depois, davam-lhe bofetadas.
JESUS É
CONDENADO À MORTE
Então Pilatos mandou levar Jesus à presença do povo, com
a coroa de espinhos e o manto púrpura. E disse aos judeus: "Eis
aqui o homem". Mas logo que o viram, os judeus gritaram: "Crucifica-o!
Crucifica-o". Disse-lhes Pilatos: "Tomai-o vós e crucifiquem-no
porque eu não encontro nele crime algum". Responderam-lhe os judeus:
"Se o soltas, não és amigo de César".
Aterrado, Pilatos pronunciou a sentença de morte e entregou Jesus aos
judeus, para que o crucificassem.
JESUS É
CRUCIFICADO
Depois de tornarem a vesti-lo com suas vestes, os soldados levaram Jesus para
ser crucificado. Carregando a sua cruz, Jesus saiu da cidade a caminho do monte
Calvário, também chamado Gólgota.
Com ele seguiam outros dois condenados, dois malfeitores, destinados ao suplício.
Pelo caminho, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, que voltava
do campo e o obrigaram a levar a cruz atrás de Jesus.
No Calvário, Jesus foi crucificado, entre os dois ladrões, um
à sua direita e o outro à sua esquerda. E Jesus orava: "Pai,
perdoai-os pois não sabem o que fazem".
Os soldados dividiram entre si as vestes de Jesus, tirando a sorte. Como a túnica
era uma peça única, lançaram a sorte para ver a quem cabia.
Junto à cruz do Senhor estava Maria, sua Mãe, e o apóstolo
João. Jesus disse à Mãe: "Mulher, eis aí o
teu filho". Depois disse ao discípulo: "Eis aí a tua
Mãe". E a partir daquele momento o discípulo tomou Maria
consigo.
JESUS MORRE NA
CRUZ
Depois Jesus disse: "Tenho sede!". Um dos soldados molhou a esponja
em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e chegou-a aos lábios de Jesus.
Após provar o vinagre, Jesus disse: "Tudo está consumado!".
Em seguida, exclamou em alta voz: "Pai! Nas vossas mãos entrego
o meu espírito". Depois destas palavras, inclinou a cabeça
e expirou.
Imediatamente a terra tremeu, os rochedos racharam, os túmulos se abriram
e muitos mortos ressuscitaram.
O centurião e os soldados que estavam de guarda disseram: "Verdadeiramente
este homem era o Filho de Deus!".
JESUS É
SEPULTADO
Ao anoitecer, um dos soldados traspassou com a lança o lado de Jesus.
E logo saiu sangue e água.
Pouco depois, dois homens piedosos e estimados, José de Arimatéia
e Nicodemos, desprenderam da cruz o corpo do Senhor. Envolveram-no em um lençol
de linho fino e o colocaram em um sepulcro novo, aberto no rochedo. Rolaram
uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro.
Os judeus selaram a pedra e puseram soldados a guardar o sepulcro.
A Glorificação
de Jesus
JESUS SAI DO TÚMULO
Na aurora do terceiro dia, Jesus ressuscitou dentre os mortos e saiu glorioso
do túmulo.
De repente, sentiu-se um grande tremor de terra. Do céu desceu um anjo
que rolou a pedra do túmulo para o lado e se sentou em cima dela. O seu
rosto brilhava como um relâmpago e os seus vestidos eram brancos como
a neve. À vista do anjo, os guardas foram tomados pelo medo e caíram
como mortos.
JESUS APARECE
ÀS SANTAS MULHERES
Ao raiar do sol, algumas mulheres piedosas foram ao sepulcro para embalsamar
o corpo de Jesus. Quando lá chegaram, viram a pedra que o fechava afastada
para o lado. O anjo disse-lhes: "Procurais a Jesus de Nazaré que
foi crucificado? Ressuscitou! Não está mais aqui! Ide dizer aos
discípulos".
Quando regressavam, apareceu-lhes Jesus e disse: "Eu vos saúdo!".
Cheias de alegria, prostraram-se para o adorar.
JESUS APARECE
AOS DISCÍPULOS DE EMAÚS
Nesse mesmo dia, dois discípulos seguiam para uma aldeia chamada Emaús
e iam falando sobre os acontecimentos dos três últimos dias. Jesus
aproximou-se deles, mas não o reconheceram. Perguntou Jesus: "Que
conversas são essas e por que estais tão tristes?". E eles
contaram-lhe. Então Jesus começou a instruí-los nestas
palavras: "Não era preciso que o Cristo sofresse tais coisas para
entrar na sua glória?". E explicou-lhes o que dele havia sido dito
em todas as Escrituras.
Quando chegaram a Emaús, pareceu-lhes que Jesus ia para mais longe. Por
isso disseram-lhe: "Ficai conosco porque já é tarde e o dia
se encerra". Jesus entrou com eles na hospedaria e, estando com eles à
mesa, tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu. Então seus olhos
se abriram e puderam reconhecê-lo. Mas Jesus desapareceu imediatamente.
JESUS APARECE
AOS APÓSTOLOS NO CENÁCULO
Estando os apóstolos e os discípulos reunidos em Jerusalém,
numa sala à portas fechadas, Jesus entrou de repente e disse-lhes: "A
paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou também eu vos envio".
Depois destas palavras, soprou sobre eles, dizendo: "Recebam o Espírito
Santo! Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
àqueles a quem os retiverdes, ser-lhe-ão retidos".
JESUS DESIGNA
PEDRO PARA CHEFE DA IGREJA
Um dia, Jesus manifestou-se a sete discípulos junto do lago de Genesaré.
E disse a Pedro: "Simão, filho de Jonas, tu me amas mais do que
estes?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, vós sabeis que eu vos
amo". Jesus disse-lhe: "Apascenta os meus cordeiros".
Jesus perguntou pela segunda vez: "Simão, filho de Jonas, tu me
amas?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, vós sabeis que eu vos
amo". Jesus disse-lhe: "Apascenta os meus cordeiros". Perguntou
ainda pela terceira vez: "Simão, filho de Jonas, tu me amas?".
Pedro ficou triste porque Jesus perguntara-lhe pela terceira vez: "Tu me
amas?". E respondeu: "Senhor, vós sabeis tudo, bem sabes que
eu te amo". Disse-lhe Jesus: "Apascenta as minhas ovelhas".
A ASCENÇÃO
DE JESUS
Quarenta dias depois da ressurreição, Jesus apareceu mais uma
vez aos apóstolos no Cenáculo, em Jerusalém. E disse-lhes:
"Ide pelo mundo inteiro e ensinai todas as nações. Batizai-as
em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". Depois levou-os
ao monte das Oliveiras e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto
os abençoava, subiu ao céu. Os apóstolos estavam a vê-lo
subir quando dois anjos vestidos de branco apareceram e lhes disseram: "Este
Jesus tornará a descer do céu da mesma forma como o vistes subir".
Os apóstolos voltaram para Jerusalém repletos de alegria.
O ESPÍRITO
SANTO DESCE SOBRE OS DISCÍPULOS
Reunidos no Cenáculo, em Jerusalém, os discípulos de Jesus
passaram nove dias inteiros em oração. O décimo dia era
o Pentecostes dos judeus.
De repente, ouviu-se do céu um ruído semelhante ao de uma tempestade,
que encheu toda a casa. Ao mesmo tempo, apareceram umas línguas de fogo
que pousaram sobre cada um deles. E todos começaram a falar em línguas
estrangeiras.
Ouvindo o ruído, muita gente acorreu até aquela casa. Pedro começou
a falar: "Homens de Israel, ouvi! Este Jesus de Nazaré, que vós
crucificastes, ressuscitou dos mortos. E eis que nos enviou o Espírito
Santo".
Muitos dos judeus pediram então o batismo. Eram quase três mil.
A IGREJA ESPALHA-SE
POR TODO O MUNDO
Depois do Pentecostes, os apóstolos pregaram o Evangelho, primeiro aos
judeus, depois aos pagãos. Muitos acolheram a doutrina de Jesus e passaram
a se chamar cristãos.
[A Igreja de Jesus Cristo foi se espalhando diariamente pelo mundo. É
assim que a Igreja Católica existe há vinte séculos. Aumentará
cada vez mais e não terminará nunca. Esta foi a promessa feita
por Jesus Cristo, seu divino fundador, aos apóstolos: "Eu estarei
convosco todos os dias até a consumação dos séculos!".]
Autor: Pontifícia Comissão
Bíblica
Fonte: Livro "A Interpretação da Bíblia na Igreja",
ed.Loyola, p.65-69.