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Manifesto do Movimento
Familiar Cristão
Enviado aos Bispos do Brasil e ao Cardeal Dom Cláudio
Humes, responsável pela formação do Clero na Cúria
Romana, aos Movimentos Leigos e outros.
Este documento é para ser divulgado em Paróquias, nos meios
de Comunicação Social, a todos os membros do MFC, e ao maior
número possível de pessoas.
A Formação dos Presbíteros
no Brasil
(O LEGADO DE JESUS)
O Movimento Familiar Cristão tomou conhecimento da
reunião dos Bispos do Brasil, em Itaicí (22/04 a 01/05/09),
onde o tema central foi a “Formação Presbiteral: Desafios
e Diretrizes”, assunto de suma importância e interesse para o
Povo de Deus. Nós laicos, maior porção deste povo não
podemos nos omitir. Então referendados pelo Concílio Vaticano
II (Lúmen Gentium, nº 37) fazemos uma série de reflexões
e propostas sobre a formação e perfil do Presbítero necessário
à Igreja do Senhor.
O Movimento Familiar Cristão tem consciência de que a competência é uma exigência do Reino, portanto, o envolvimento de um maior número de pessoas gera mais alternativas de soluções futuríveis.
Tempo de mudança
No que diz respeito ao pensamento e ação de Jesus acerca da “formação dos apóstolos”, ao que tudo indica a referência traz a idéia de planejamento como “artifício” para facilitar o que foi a sua nova tomada de decisão; isto é o que a gente se aventura a depreender depois da chamada crise da Galiléia, pelo discurso diferente que o Mestre passa a assumir, numa linha totalmente diversa daquela da temporada da Montanha. A partir de então ele passa a ater-se à formação do colégio apostólico centrando a sua ação , pedagogia e opção com vistas a dar continuidade à realização da proposta motivo de sua humanização. Com outras palavras, ele passa a formar aqueles de sua escolha para assegurar o prolongamento do mistério de sua encarnação - a Igreja.
Jesus e a formação dos apóstolos
Jesus foi o primeiro formador e instituidor do colégio apostólico. Sua ação, pedagogia e opção nos servirão de guia na presente análise e proposta; acreditamos que sua divina sabedoria deverá iluminar os séculos, ainda que por motivos culturais ou ideológicos possamos solapar seus ensinamentos e propor projetos de sabedoria humana. Infelizmente, na Igreja, é preciso reconhecer, o exemplo pessoal de Cristo nem sempre foi seguido. As razões são duas: ignorância, no sentido literal, ou recusa.
As escolhas do Mestre
Jesus escolheu pessoas inseridas em suas comunidades –
não estranhas - que faziam parte de sua história, conheciam
seus problemas, viviam as alegrias e os sofrimentos dos demais. No começo
era assim, os bispos e os presbíteros emergiam das comunidades, como
relata os Atos dos Apóstolos; Paulo, em várias oportunidades,
designa pessoas desse perfil para exercerem essas funções.
O Senhor escolheu somente adultos, no que Paulo o seguiu. Isso sucedeu nos
primeiros séculos da era cristã e posteriores, até o
Concílio de Trento no século XVI, que instituiu os seminários
e inicia a preparação de adolescentes para o presbitério.
Outro aspecto a considerar é que Jesus elegeu pessoas com os mais diferentes
perfis: Pedro e André eram pescadores, casados, homens simples, talvez
analfabetos em um mundo onde a maioria era analfabeta; escolheu João,
solteiro, provavelmente alfabetizado e de uma inteligência nada comum:
seu evangelho o atesta; convocou Simão o Zelota, politicamente engajado,
contrário à dominação romana, um subversivo do
ponto de vista dos dominadores; atraiu Mateus, casado, com família,
e cobrador de impostos para o Império; em nada apreciado pelos judeus.
Parecia, contudo, que o quadro dos apóstolos não estava completo;
faltava Paulo de Tarso, altamente instruído, ao menos bilíngue;
distinguia-se dos demais pela erudição e sabedoria, reconhecidas
inclusive por Pedro. As elites intelectuais precisam interlocutores qualificados
para serem evangelizadas, a fé e a doutrina precisam ser aprofundadas.
Podemos dizer, salvo melhor juízo, que os Apóstolos refletiam
o grau de instrução do povo. O diferencial estava na formação
recebida de Jesus, durante três anos.
Os escolhidos do Senhor eram de suas comunidades, adultos, de diferentes profissões
e perfis políticos e ideológicos, de diversos estratos da sociedade,
alguns analfabetos e pouco instruídos, outros certamente alfabetizados
e com alguma instrução; um excepcionalmente culto, a maioria
casada, alguns solteiros, que não foram proibidos de se casar, se o
quisessem. Era o clima de liberdade que gozava a Igreja Primitiva, exaltada
por Paulo na epístola aos Gálatas. Onde há liberdade,
aí Deus está presente.
É preciso enfatizar que as pessoas escolhidas por Jesus não
constituíam, na maioria, uma elite intelectual, embora houvesse nesse
tempo elite intelectual. Jesus optou pela diversidade ou pluralismo de perfis,
foi avesso a uma uniformização - o que foi seguido nos primeiros
séculos da Igreja, e que deveria servir de parâmetro para os
séculos seguintes, o que, infelizmente não aconteceu, pelas
razões apontadas.
O Seminário
O Seminário foi fundado no século XVI, pelo
concílio de Trento, face aos problemas de formação do
clero, então vigentes; e, também, para enfrentar a reforma de
Lutero, garantir a ortodoxia, uniformizar a formação.
Pode ser que a resposta de Trento tenha respondido parcialmente às
necessidades de seu tempo. A partir de então as pessoas passaram a
ser “retiradas” de suas famílias e comunidades, para viverem
longe do mundo e seus problemas (fuga do mundo?!) –, diferentemente
do que Jesus prescrevera: “Pai, não peço que os tires
do mundo, mas que os preserves do mal” (João 17,15)
O Seminário se constituiu, de fato, numa redoma; propiciou a fuga do
mundo e a alienação de seus problemas; pessoas do sexo masculino
convivendo exclusivamente com iguais, em ambiente saturado pela masculinidade,
totalmente diferente do mundo real, e desequilibrado. Após os anos
de estudo e formação os presbíteros recém ordenados
eram enviados para comunidades com as quais não tinham o menor vínculo,
cujos problemas eram ignorados e cujas histórias estavam sendo construídas
sem a mínima participação deles. – Não é
demais recordar que ainda na segunda metade do século XX havia os pré-seminários
com crianças de 10, 11 e 12 anos retiradas do aconchego familiar para
viverem em regime de internato, durante o ano letivo; o que certamente influiu
na formação de suas personalidades: a graça supõe
a natureza.
Estamos seguros que o Seminário, como instituição, está
superado. E que a uniformização na formação do
clero, também. O Seminário é lugar de reclusão,
as pessoas ficam alheias aos problemas dos comuns dos mortais; os seminaristas
convivem principalmente com iguais, o que é empobrecedor do ponto de
vista humano, e limitante no aspecto emocional. Essa instituição
foi fundada no século XVI; o mundo mudou, e muito, o século
XXI está infinitamente distante das condições sociais,
religiosas e políticas daquele tempo. Não acreditamos, por outro
lado, que a reclusão de pessoas em ambiente restrito seja capaz de
propiciar a formação do cristão chamado a exercer o pastoreio
do povo de Deus. O Seminário não só está superado
como é prejudicial enquanto aliena o candidato a presbítero
do dia-a-dia do povo, de suas aflições, e por sonegar-lhes uma
experiência mais extensa do mundo real. Isso certamente tem influenciado
seu modo de falar, pensar, relacionar-se e conviver com o povo de Deus.
Os presbíteros hoje
Os presbíteros têm hoje dois cursos universitários:
filosofia e teologia, constituindo verdadeira elite intelectual, que exclui
a maioria que não conclui a escola média, no Brasil. O que era
para ser serviço torna-se privilégio. E se agregarmos o celibato
obrigatório, a exclusão chega a índices alarmantes, que
se evidencia no número ínfimo de pastores. Conseguimos, assim,
privar o povo de Deus do pão da palavra e do pão da eucaristia.
Esquecemos o exemplo do Senhor, ou o rejeitamos. A disciplina, o ordenamento
jurídico eclesiástico, de fato, passa a ser mais importantes
que o mandamento de Jesus: “Fazei isto em memória de mim”
(Lucas 22,19).
No judaísmo, os sacerdotes e os escribas deveriam ser pessoas de elevada
instrução. Para Jesus, a fé, a piedade e a disponibilidade
para o Evangelho falavam mais alto.
A elitização do clero (lembramos as três classes da Idade
Média: os Nobres, o Clero e o Povo) pela instrução e
pelo celibato tornou-se gargalo de exclusão. Sem pastores, milhões
de batizados migram para outras confissões religiosas que lhes dão
conforto espiritual e uma palavra de fé. É a sangria na Igreja...
Enquanto se sonega aos católicos o direito de serem evangelizados.
Para relembrar, os católicos no Brasil éramos 95% da população
na metade do século passado, hoje chegamos aos 70% (será? –
o censo dirá se alcançamos a cifra ou se somos menos), e seremos
menos ainda no futuro, se os rumos da Igreja não mudarem, e se ela
mantiver o modelo atual de presbítero. Isso não nos sensibiliza?!
O presbítero que postulamos
É aquele que se encontra na proposta de Jesus.
Poderão ser ordenados presbíteros os adultos, casados ou solteiros,
profissionais engajados na Igreja de suas comunidades e reconhecidos como
tal. Poderão ter concluído a escola fundamental, ou a escola
média, ou, ainda, ser portadores de título universitário
– sujeitando-se à formação específica de
três anos ou seis semestres (tempo que Jesus empregou na formação
dos apóstolos), que poderá ser proporcionada no horário
que atenda as possibilidades dos candidatos (durante o dia, à noite,
ou em fins de semana), cujo currículo deverá ser elaborado com
ênfase em teologia bíblica, espiritualidade, doutrina social
cristã.
O tempo dedicado ao pastoreio e à missão será variável,
dependendo da disponibilidade e carisma de cada um. Alguns terão dom
especial para proporcionar catequese para adultos, outros para orientar círculos
bíblicos, outros para visitar enfermos, etc. Tarefa comum será
celebrar a eucaristia nas noites dos dias de semana nas casas de família,
aí incluída a vizinhança, na qual se fará a partilha
da palavra tendo em vista a evangelização, com fortalecimento
da Igreja doméstica e de pequenas comunidades – como na Igreja
Primitiva. Pastor e povo conviverão, como preconiza o Evangelho.
O presbítero será pessoa da comunidade, inserida, e não
estranha.
É preciso também lembrar a escolha de Paulo. Postulamos conseqüentemente,
a existência de presbíteros com elevado grau de instrução
em filosofia e teologia, como também em ciências humanas, para
que possam dialogar com os iguais de seu tempo, e aprofundar teologicamente
a mensagem cristã: esta, contudo, não será a regra. Sugerimos,
também, que a formação teológica seja focada em
teologia bíblica, acompanhada de espiritualidade e doutrina social
cristã.
O Senhor concede a muitos cristãos com vocação ao matrimônio
a graça do chamamento ao presbitério – conhecemos pessoalmente
adultos casados que afirmam que exerceriam o ministério sacerdotal
se a Igreja os acolhesse; e solteiros, se pudessem casar, como acontecia até
o século XII quando foi promulgada a lei do celibato obrigatório
para o rito romano. Há presbíteros que se casaram, e que continuariam
a exercer o ministério, se a Igreja permitisse; mas sabemos, eles são
excluídos, com evidente prejuízo do povo de Deus. A lei do celibato,
de fato, é mais importante que o mandamento de Jesus, e a necessidade
e o direito do povo ficam em segundo plano; privilegia-se a lei. Postulamos
que esses presbíteros sejam reintegrados; e que a mudança de
estado civil, em qualquer tempo, não seja motivo para impedir o exercício
do presbitério recebido na ordenação. O sacramento do
matrimônio não inabilita alguém para o ministério;
pelo contrário, proporciona-lhe uma rica experiência que o capacita
para entender e tratar os problemas familiares; e o povo tem o direito de
ser evangelizado. A lei não suprime a graça, pode impedi-la
ou abortá-la, como muitas vezes tem feito. Jesus se queixou amargamente
dos judeus que criavam leis e costumes para sabotar o mandamento de Deus (Mateus
15, 1-7), realidade que se repete. São Paulo discorreu sobre a lei
e a graça na Epístola aos Gálatas, mostrando como a graça
está infinitamente acima da lei, a lei era o pedagogo, mas chegada
a graça, a lei perde sua função.
Observamos como a graça de Deus nem sempre tem encontrado acolhida
na Igreja. Não faltam vocações ao presbitério,
faltam vocações ao modelo único proposto pela Igreja:
excludente, elitista, antievangélico porque não acolhe a graça
que Deus dá a muitos, e impede que a graça que foi dada torne-se
efetiva; e, também, porque priva o povo do direito da palavra e da
eucaristia, empurrando-o para outras confissões religiosas.
Propomos que o presbitério seja popularizado, já que é
uma graça para o bem do povo, e não para uso pessoal; e que
não seja privilégio nem de intelectuais nem de celibatários
– condições excelentes para o exercício do presbitério.
Nosso modelo é agregador, de inclusão.
Já não é sem tempo, urge mesmo, adotar um modelo de atuação
que se constitua de um conjunto de condições que possam e devam
satisfazer “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem porque
elas são também as angústias dos discípulos de
Cristo, e não há realidade alguma verdadeiramente humana que
não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade
é formada por homens que, reunidos em Cristo, são guiados pelo
Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino
do Pai, e receberam a mensagem da salvação para comunicar a
todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero
humano e à sua história” (G S, nº 1).
Bispos
O que dissemos a respeito dos presbíteros, afirmamos sobre os bispos: serão de diversos perfis, casados ou solteiros, segundo recomenda Paulo na 1ª carta a Timóteo (3, 2-5): “...O bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente... Deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois, quem não sabe governar a própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?”- O que, de resto, está conforme a prática de Jesus – se não a considerarmos superada!
Mulheres
Abrimos nosso coração ao sacerdócio
ministerial das mulheres, embora sabendo da tradição machista
presente no judaísmo e cristianismo. Paulo fala da diaconisa Febe,
de Cêncris (Romanos 16, 1). Ora o diaconato é participação
no sacerdócio ministerial, se podem ser diaconisas, podem ser também
presbíteras.
Paulo também se refere mais de uma vez a Áquila e Priscila como
seus cooperadores (Romanos 16,3; 1 Coríntios 16,19), e à Igreja
que se reunia em sua casa para a partilha da eucaristia. Paulo se refere a
Timóteo, bispo, também como cooperador (Romanos 16,21).
O sonho = Esperança
Sonhamos com um tempo em que teremos um pastor para dois mil católicos, visitando as casas durante a semana e celebrando a eucaristia, formando comunidades eclesiais domésticas, em que o pastor conhecerá as ovelhas e estas o reconhecerão. Pastores casados, solteiros, provavelmente a maioria com a escola fundamental ou média, e um menor número com formação universitária – nas condições atuais, o que poderá mudar. Os presbíteros terão a cara do povo, e o povo os reconhecerá; eles sairão de suas comunidades e serão carpinteiros, pedreiros, pintores, garis, vendedores, motoristas, comerciários, industriários, bancários, soldados, advogados, médicos, administradores de empresa, engenheiros, enfim, de todas as profissões e de todos os estratos sociais, exercendo o ministério em tempo parcial ou pleno. Eles serão antes de tudo, pessoas de fé, piedosas e comprometidas com o Evangelho, inseridas em suas comunidades.
O tempo que esperamos
Quando o exemplo e a prática de Jesus forem considerados,
e os primeiros séculos da Igreja servirem de parâmetro para os
cristãos dos séculos seguintes, a sangria na Igreja começará
a estancar! E muitos voltarão ao redil. A Igreja florescerá,
e será fecunda!
Nesse tempo, o Evangelho estará acima de tudo! As leis e ordenamentos
serão meios, não fim. O mandamento de Deus estará acima
das tradições humanas. A necessidade e o direito do povo de
ser evangelizado serão considerados.
Oremos para que o Espírito guie e ilumine a Igreja neste tempo de missão,
e que ela seja fiel ao Mestre.
José Newton e Ariadna Ribeiro
Coordenadores Nacionais do Movimento Familiar Cristão
ribeiro@granito.com.br